segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

SÓS


SÓS
Oswaldo Antônio Begiato

Sozinhos por uma noite inteira andamos de mãos juntas.

Queríamos ver estrelas cadentes
No rosto de pessoas contentes
Andando à nossa volta,
Mas os nossos limites eram feitos de desertos
E a noite árida deixou nossas almas trêmulas.

Nada dissemos que pudesse parecer um reinício;
Nossos olhos por nenhum momento se buscaram;
Sequer sentimos o calor de nossos corpos,
Sequer ouvimos o som de nossos passos.

Havia uma imensa distância;
Uma distância que permitia a tudo nos ser estranho.

A luz pálida de um fim de caminho
Fazia-se dissimular no horizonte.
Ali seria o nosso lugar de chegada
E seria o nosso lugar de partida.

Assim foi feito:
Todas as regras foram cumpridas,
Todos os desejos alheios realizados.


E, apesar de tudo,
Nunca houve em minha vida
Ternura tão intensa
Que de tão intensa se fez eterna.

domingo, 14 de dezembro de 2008

BELO

BELO
Oswaldo Antônio Begiato

Sou feito de cacos e retalhos.
Meu corpo de retalhos e costuras;
Minha alma de cacos e soldas.

Mas não penses que por isso me faço feio;
Sou a mais linda colcha de teu enxoval
A aquecer as tuas noites de inverno
Quando o outro lado da cama está vazio;
Sou o mais belo vitral de tua janela
A colorir os raios do sol que iluminam
O templo interior de tuas solidões.

Fiz-me belo em teu leito e em teu altar
Para te aquecer e te colorir, Bela!

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

CHEGANÇA

CHEGANÇA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te trouxe de presente um olhar.
Um olhar que achei escondido entre as pedras do rosário
E que brincava de encantamento com a Virgem Maria.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que não descuidam de nenhum movimento
E que de tão atentos se tornam anjos da guarda.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que contém dentro de si tamanha proteção
Que os olhos deles parecem um mar de cheganças.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Desses que revelam uma entrega tão desmedida
Que se tornam portas de entrada de todas as abnegações.

Eu te trouxe de presente um olhar.
Apenas um olhar. Nada mais, além do meu servo olhar.

sábado, 6 de dezembro de 2008

DESCOMPASSO



DESCOMPASSO
Oswaldo Antônio Begiato

Haveremos de viver como se nada tivesse acontecido;
Parados, não andamos,
Andando, não chegamos,
Chegando, nada fizemos.

Haveremos de viver como se nada tivéssemos causado,
Diremos que o que os olhos não vêem
O coração não sente.
Que não roubamos,
Mas não fizemos
Que não amamos,
Mas jantamos fora
Que não construímos,
Mas fomos concretos.

Nada haverá em nossos caminhos:
Nem espinhos,
Nem tumores,
Nem rumores de amores,
Nem beijos estúpidos,
Nenhuma estrela com nosso nome,
Nenhum filho com nosso sobrenome.

E quando se avizinhar a hora de colher a última pétala da margarida, seremos mal quistos.

Compreenderemos então
o quanto menos triste é a solidão
do que a companhia de um sapo
que jamais se tornará príncipe.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

TODO

A criança doente, de Gabriel Metsu




TODO
Oswaldo Antônio Begiato


Depois de ver tantos inteiros
falando de metades,
metades que não me pertenciam,
devo dizer ao mundo das metades que me pertencem
e que são porções trágicas
de meu todo.

Assim quero que fique claro:

Uma metade de mim é solidão,
a outra é abandono.

Uma metade de mim é dor,
a outra é sofrimento.

Uma metade de mim é injustiça,
a outra é subtração.

Uma metade de mim é lágrima,
a outra é tristeza.

Uma metade de mim é porrada,
a outra é cicatriz.

Uma metade de mim é ferida,
a outra é hemorragia.

Uma metade de mim é ódio,
a outra é desprezo.

Uma metade de mim é racismo,
a outra é intolerância.

Uma metade de mim é derrota,
a outra é subjugação.

Uma metade mim é sede,
a outra é estiagem.

Uma metade de mim é fome,
a outra é escassez.

Uma metade de mim é violência,
a outra é rompimento.


Uma metade de mim é pecado,
a outra é transgressão.

Uma metade de mim é agonia,
a outra é unção dos enfermos.

Uma metade de mim é pó,
a outra é morte.

Mas devo dizer também, ao mundo,
Com toda minha limpidez,
Que uma metade de mim é Fênix,
a outra metade é ressureição.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

TELHA

TELHA
Oswaldo Antônio Begiato

Será que serei eu uma telha velha e vermelha
Dessas que fazem o telhado leve desse rancho?
Serei eu uma desgovernada e boba centelha
De um Dom Quixote que se perdeu de Sancho?

Serei eu uma gota de mel que se fez abelha
Nas cores de um arco-íris que se fez beija-flor?
Serei eu o cinza sombrio que o mar espelha,
Da tempestade que procura em vão o amor?

Sou, antes, o azul que diante do mar se ajoelha
E com a candura entardecida, me desmancho,
Depositando nele, insano, a minha imensa dor,
Como um ouriço que cobiça a lã da ovelha.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

MEUS DIAS

MEUS DIAS
Oswaldo Antônio Begiato


No dia em que a Felicidade bater
À porta da frente de minhas constâncias
Eu já não estarei mais dentro:
Terei saído de mudança
Pela porta dos fundos.

Mas Ela encontrará tudo arranjado:
O chão limpo e encerado,
A louça lavada e guardada,
As camas perfumadas e estendidas,
As coisas alinhadas e sem pó,
A alma livre e serenada.

Esquecerei então que um dia fui
Pedra selvagem e estrela cadente,
Carvão e diamante,
Esterco e pétala,
Corcunda e asas.

Serei uma gota de orvalho cristalizada
Que o destino quis como pingente
Adornando a garganta da eternidade.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

ATRÁS DA PORTA


ATRÁS DA PORTA
Oswaldo Antônio Begiato

Venho com as sandálias gastas.
Meio atabalhoado,
Meio apoquentado,
Meio trôpego,
Meio encabulado,
Meio sistemático,
Meio ensimesmado...

Venho pela metade e pelas bordas,
Faltando-me coisas sérias;
Não trago flores,
Nem luvas de pelica,
Nem o estandarte de Santo Antônio,
Nem correntes de ouro,
Nem a pena colorida do tiê-sangue,
Nem seixos do rio Jordão...

Venho trazendo, com parcimônia,
Em minhas mãos fatigadas
De versos de amor escrever,
Os meus últimos e inermes versos.

Escrevi-os com minhas certezas trêmulas,
Com letras esquecidas e quase ilegíveis,
Em um papel escuro de rascunho
(Antigo manto do pão que juntos repartimos).

Mas escrevi-os para te dizer o quanto te amo,
E te amo mesmo.

Amo-te com a minha insurgência mergulhada
Em uma despedida infindável
E com o meu temor encharcado
De um adeus petrificado
Nos ângulos retos de uma dor aguda.

Saiba, o meu amor se agoniza a cada palavra ríspida,
E ressurge a cada sorriso tênue,
E morre a cada gesto rude,
E ressuscita a cada beijo desleixado,
E me esgota os olhos a cada lágrima inútil.

Escrevo-os últimos por não mais poder
Continuar a escrevê-los, por falta de dor.
Escrevo-os últimos
Pelo amor imenso que se perdeu de ti.
Que sejam minha oferta mais delicada
Nessa cerimônia pagã de adeus.

Não quero estes meus versos
- Sempre pedaços preciosos do meu fim -
Retalhos de teu pensamento
Que escapa de mim e se aloja na distância,
Onde não posso tocá-lo com meu perfume.

Receba-os, não como armadilha que te preparo,
Mas como troféu com o qual poderás enfeitar
Tua sala de estar
E afastar de ti o pó que deixei cair de minha presença.

São versos pequenos e curtos
E pálidos e tímidos
E precários e insensatos...
Que mal te farão cócegas nos sentimentos,
Por isso não dê mais importância a eles
Do que eles merecem.
Não dê mais importância a eles
Do que darias a mim.

Receba-os sim, como paga irrisória,
Não pelo amor que me devotaste,
Mas pelo amor que pude sonhar.
São moedas singelas esses meus versos,
Moedas antigas de um bronze de péssima qualidade,
Incapazes de saldar qualquer carícia;
Mas lapidei esses versos
Com tanto ardor
E com tanto primor
E com tanto amor
E com tanto sabor
Que por certo
Algum peso haverão de ter.

E se peso algum tiverem,
Receba-os pela leveza com que saíram
De minhas fornalhas internas.

Assim sentir-me-ei quites contigo,
Retribuindo o indescritível torpor
Que pude sentir enquanto te amei
E enquanto sonhei que poderia ser amado
Por ti.
Embora soubesse que tudo não passava
De um adorável engano.

Fui feliz te amando,
E te amando não me importei
De ser amado.

Mas quero que saibas por mim
(Antes que alguém desavisado te faça ver
Antes de mim
E te faça minguar de saudades):
- Jamais verás, com quem quer que seja,
Elis Regina chorando
E cantando “Atrás da Porta”.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O TEMPO

O TEMPO
Oswaldo Antônio Begiato

Ela queria tanto,
Para poder esquecer
A cor cinza de sua nascença,
Ganhar de presente, no dia de seu aniversário,
A delicadeza de uma boneca de trapo.

Queria tanto, tanto,
Que acabou comprando,
Naquela tardinha, em que abandonada,
A chuva lhe caia copiosamente dentro d’alma,
Uma boneca fria de porcelana fina.

Pena que já era tarde.
Ela, agora, não tinha mais tempo para esquecimentos.
Não tinha mais tempo para delicadezas.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

BAILARINO


BAILARINO
Oswaldo Antônio Begiato

Minha mãe tinha uma caixinha de música
onde uma pequenina bailarina cor-de-rosa
feita de porcelana frágil,
cabelos presos na cabeça
e usando sapatilhas transparentes,
enquanto tocava Brahms Lullaby,
dançava,
dançava,
dançava...
...diante de um espelho que a multiplicava.

Eu menino,
com olhos de bailarino
feito com uma alma frágil,
com a cabeça na lua
e os pés nas nuvens,
olhava,
olhava,
olhava ...
...aquela ternura encantadora que me dividia.

Embriagado por sonhos apaixonantes
não percebia o tempo passar
por entre o bailar da bailarina que não crescia
e o bater de meu coração inocente que amadurecia.

Encantado, fiquei cronicamente doente de amor;
e até hoje tentam me curar essa doença,
essa doce e meiga doença.

Mas eu não quero ficar curado.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

OFERTA

OFERTA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te ofereço
Todas as minhas rugas
Todos os meus calos
Todas as minhas obturações
Todas as minhas cicatrizes
Todas as minhas lágrimas
Todas as minhas mutilações
Toda a minha insônia
Todos os meus vícios
Todas as minhas próteses
Todas as minhas viroses
Todas as minhas micoses
Todas as minhas decepções
Toda a minha fome
Toda a minha sede
Toda a minha feiúra
Toda a minha ignorância
Todos os meus complexos
Toda a minha pobreza
Todos os meus recuos
Todas as minhas inversões

Leva-os embora daqui.

Eu quero varandas,
Pirilampos e borboletas,
Cercas baixas e brancas,
Jardins cuidados.

Eu quero cigarras ao entardecer.
Eu quero grilos ao anoitecer.

Eu quero casas livres,
Crianças aprendendo,
Adultos envelhecendo,
Anjos despreocupados.

Eu quero namorar no banco da praça.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

IMORTAL


IMORTAL
Oswado Antônio Begiato

Imortal
É quem sabe ler os lábios,
Obedecer aos olhos,
Ouvir o silêncio interior
E arrepiar a pele sem tocá-la.

Imortal
É quem sabe beijar sem boca
Nas horas mais agônicas da vida,
Inebriar-se com paisagens alheias
Mesmo com vendas escuras nos olhos,
Abandonar o sono letárgico
Sem a ajuda cruel do despertador,
Deixar-se penetrar sem fendas
Como óvulo à mercê do espermatozóide.

Imortal
É quem sabe amar sem coração.
É quem sabe absolver sem penitências.
Escrever sem palavras.
Perdoar sem crença.
Rezar sem fé.
Ensinar sem nunca ter aprendido.

Imortal
É quem morre à noite
Como um anão derrotado
E ressuscita na manhã seguinte
Como um gigante indomável,
Todos os dias,
O tempo todo.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

LINDA ROSA AMÉLIA

LINDA ROSA AMÉLIA
Oswaldo Antônio Begiato

lenda rasa Amélia,
lenda e rasa,
Amélia e rasa,
Amélia e linda;
amelindo,
amelindas,
amá-la sempre...
Amélia ou lenda?

linda rosa amarela,
linda e rosa,
amarela e rosa,
amarela e linda;
amar é lindo,
amarelindas,
amarelinda...
rosa ou amarela?

Ai, que vontade de voltar a ser garoto
e escrever versos rotos e marotos!

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

APAIXONADA

APAIXONADA
Oswaldo Antônio Begiato
.
Vens e dizes estar
Dissolutamente apaixonada.
Que sou tua reta e indivisa vida,
Que todas as tuas pertenças
São agora minhas pertenças:
Teu riso incontido,
Tuas lágrimas safíricas,
Teu sexo sequioso,
Teus descaminhos justos,
Teus arrependimentos tolos,
Teu coração indômito...

Até tuas mais incertas tristezas
Juras que me pertencem.
Juras que me pertencem
Todas as tuas juras.

E fico eu cá no meu canto
Tentando buscar a razão disso tudo.
O que em mim pode ter te encantado tanto,
Se sou, dentre os grãos dourados
Da areia da praia, o menorzinho
E você quase contém o mar todinho
Apenas em um único e terno olhar?

Teria sido a poesia que fingi escrever,
Ou os encantamentos delatores
Que de meus olhos escaparam
A primeira vez que te encontraram
Vestida de primavera e sol?

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

NOSSO IMORTAL AMOR

NOSSO IMORTAL AMOR
Oswaldo Antônio Begiato

Toma essa folha
branca
de papel
virgem,
que um panapaná
deixou cair,
de suas asas
coloridas,
em meu colo
de noivo.

Nela escreva,
com suas mãos
de noiva,
seu nome,
com letras
douradas,
e depois
escreva
uma poesia
lírica,
com letras
corridas.

Por fim
escreva
meu nome,
sem maiúsculas
e sem acentos
agudos.

É esse o ritual
que outorgará
ao nosso amor
imortalidade.

sábado, 13 de setembro de 2008

REGADIO


REGADIO
Oswaldo Antônio Begiato

Por aqui, hoje sim chove,
Mas é uma chuva doce e necessária,
Como doce e necessária
Faz-se a solidão à minh’alma segada.

Havia muito pó pra pouca estrada,
Muita boca seca pra pouca água,
E muito germinar pra pouco regadio.

Havia muita presença pra pouco coração,
Muitas palavras pra pouco ouvido
E muito estorvar pra pouca paciência.

Tua perversa permanência nas minhas horas quietas
Saqueavam-me os horizontes lúcidos
Banindo-os de meus olhos rasos de regalos.

Foste fátua.
Sensata, foste.

Quero agora ficar só.
Cabeça entre as pernas.
Um meu abraço em mim mesmo
Abraçando pernas e cabeça.
Olhos cerrados.
Deixar que minha boca se umedeça
Com a chuva fresca que me faz germinar
E que minha alma se entorpeça
Pelo silêncio que me restou santo
Com tua partida tardia.
Com tua partida vadia.

Tenho por aqui chuva e solidão doces e necessárias.

sábado, 6 de setembro de 2008

TROCA

TROCA
Oswaldo Antônio Begiato

Onde foi que viu meu rosto lindo?

No espelho petrificado pelo tempo
ou no retrato hirto
que deixei preso
à galeria de meu passado?

Viste-o com olhos?
Com olhos também lindos?

Eram tempos em que
eu os tinha ainda,
rosto e olhos, airosos
e não os escondia.

Eram lindos,
eram longínquos...

Não os tenho mais.

Perdi-os para a tristeza,
essa senhora tinhosa
e mais velha do que a verdade,
que os iludiu e os levou embora
sem a minha permissão.

Sem piedade.

Deixou em seus lugares
uma distância instransponível,
uma deformação sem alcances
e uma criança que jamais fui capaz de recuperar.

Foi bom,
porque assim pude, ao menos,
afastá-la de mim,
para sempre.

Hoje não tenho mais olhos lindos,
no rosto que também foi lindo um dia.

Hoje os tenho livres,
límpidos e venturosos.

sábado, 30 de agosto de 2008

BALA PERDIDA

BALA PERDIDA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu nunca consegui dizer:
- Eu te amo!
Por isso me fiz anoitecer
a teus olhos atentos
só pra te ver me cobrindo
com teu manto de luz
quando eu, escondido,
chorei invigilante
com medo do escuro
na esperança vã
de que feito lágrima labiríntica
pudesse eu te deixar perdida.

Perdida de amor
por mim.

Então me inventei poeta,
sem sê-lo,
para escrever versos escondidos
e neles, incólume,
declarar meu amor silencioso
na esperança vã
de que feito bala perdida
eles atingissem teu coração.

E tu morresses de amor
por mim.

Mas sequer notaste
com que roupa
eu pra ti me vesti.

Desdourado,
dobrei pela enésima vez
a camiseta púrpura
de fio escócia
com meus versos azuis
e teu perfume rosa
e a devolvi à gaveta branca
da cômoda verde
de minhas esperanças iludíveis.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

AUTO-COSTURA

AUTO-COSTURA
Oswaldo Antônio Begiato

Toda vez que disseres que minha alma é bruta
eu te mostrarei um coração efeminado.
Toda vez que disseres que minha alma é rude
eu te mostrarei um coração afetuoso.
Toda vez que disseres que minha alma é insensível
eu te mostrarei um coração inconsolável
te amando e padecendo com teu desmazelo.

Assim condenas minh’alma;
e toda vez que condenas minh’alma
enfio-me no meio do mato
com os olhos rentes ao chão
e a boca embriagada
pelo sabor doce da hortelã,
no meio do mato
replanto marias-sem-vergonha
com as mãos nuas
e os pés virgens
e aprendo com o bem-te-vi
o canto que espanta saudades,
enternece corações
e sossega almas.

Não há tolice maior,
quando se ama,
do que ter ouvidos e não compor,
ter olhos e não se encantar,
ter boca e não se calar,
ter mãos e não replantar.

Mas esse dia diáfano,
esse sol restaurador,
esse céu imáculo,
esse teu ar selvagem,
esse teu andar indolente,
esse teu desmazelo leviano
dão-me uma vontade imensa
de costurar a alma
e rasgar o coração.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

POSSEIROS

POSSEIROS
Oswaldo Antônio Begiato

O tempo está sempre
contra nossa vontade.
Quando estamos felizes
ele corre demais;
quando infelizes
ele se lerdeia todo.

Façamos assim então:
- Eu te deixo morar eternamente
na suíte real de meu coração,
e tu, generosa, me concedes
o porão do teu,
onde prometo morar
o resto de minha vida.

Não teremos o tempo
a nos vigiar
e tudo será céu.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

FOTO ÚLTIMA

FOTO ÚLTIMA
Oswaldo Antônio Begiato

Obrigado por guardar
em sua carteira
essa minha foto antiga.

Nela eu ainda tinha
cabelos longos
e barba
e linhas retas
e pele lisa
e infinidades
e simetria
e esperanças
e horizontes
e sonhos...

Tive que cortá-los,
ano passado,

por conta de um tumor
extraído de minha boca

(ela que já era muda
emudeceu-se ainda mais).

Foi a última foto minha
com o rosto ainda direito.

Agora ando torto,
sem medidas exatas,
sem nível,
sem esquadro,
sem ângulos retos,
sem arquitetura,
sem plástica,
sem prumo,
sem rumo...


Quanto à cor dos olhos,
pelos quais não lhe pude
proibir o encanto,
era espanto,

ou perplexidade,
ou intolerância,
ou irrequietação,

ou pavor,
ou tristeza,

ou despedida...

Sei lá.

Sei que não são mais assim
os meus olhos.

Os meus olhos
não são mais assim.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008





BRISA DO TEMPO
Oswaldo Antônio Begiato

Primeiro era um banco
Frente ao mar calmo.
Sentados nele, calmos,
Dois marinheiros,
Que dividiam a mesma alma,
Falavam de amores passados
Que nunca passaram.

O mais velho tinha um porto em cada amor,
O mais moço tinha um amor em cada porto.

Havia neles uma solidão
Que o mar não continha.

No dia seguinte era um banco
Impregnado de vazios,
E um navio à procura de um porto
Que pudesse lhes conter a alma.

domingo, 27 de julho de 2008

CONFISSÃO INSENSATA


CONFISSÃO INSENSATA
Oswaldo Antônio Begiato

Deixa-me fazer teu lado esquerdo
E deixar-te-ei me fazer o lado direito.
Deixa-me beijar teus lábios superiores
Com meus lábios inferiores
E assim beijarei com minha língua suja
A tua alma inocente.

Deixa-me fazer o teu destino certo
E deixar-te-ei me fazer o destino torto.
Deixa-me tocar tua pele transparente
Com minha pele maculada
E assim tocarei com meu inferno frio
O céu que Deus fez pra ti.

Deixa-me aceitar o teu perdão
E deixar-te-ei essa confissão insensata:
Eu te amo, meu incruento e sadio amor;
Não pelos pecados que me perdoas sempre
Mas pelos pecados que sempre me permites
Toda vez que eu te amo insensatamente.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

PRATO RASO


PRATO RASO
Oswaldo Antônio Begiato
.
o uísque triste
em riste
persiste
em não se misturar
ao guaraná magro
ao beiço amargo
ao beijo largo
à tatuagem
à imagem
à paisagem
no fundo
do prato raso
profundo
profícuo

o resto
é a companhia
amiga
do amigo
meigo
leigo de mim
para sempre

é natal
na tal infância
de bicho papão
de pão de fel
de papai do céu
de papai noel
que esquece a boina
sobre a mesa
sobremesa
e a mesa sobra
pobre e sóbria

mas a mesa
está posta
exposta
sem resposta

quinta-feira, 10 de julho de 2008

ABATIMENTO

ABATIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

Por aqui dizem que sou muito forte,
até me chamam de guerreiro
por conta de minha luta inglória
contra minhas apoquentações.

Mas a verdade é que sou frágil.
Sempre que posso
choro um pouco;
um pouquinho só,
feito cordeirinho
no instante do abate,
mas choro.

E porque me pediram
somente para sofrer
sou parco de risos
e pobre de alegrias;
já não tenho mais cascos
nas gengivas.

Um dia ainda
ferro-me a boca
com uma dentadura de ouro
e saio galopando sorrisos afora
no afã de destemperar
o lado feliz
de minha história,
posto que sou homem
de todos os tempos
e não tenho tempo algum.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

ÂNGELUS


ÂNGELUS
Oswaldo Antônio Begiato

Quando, pela vez primeira,
extasiado, te vi
entregue ao palmilhar
de um caminho torto
inventado pra ti,
de mãos dadas
contigo mesma,
sorriso casto
à procura de desvios,
tive a impressão que tua alma,
fugitiva de sua profissão,
brincava de profanidades
à tua volta enluarada,
feito uma filha obediente.

Não saía de perto de ti
por nada
e por nada não se recolhia
nem mesmo na hora
em que os sinos se dobravam
para anunciar o ângelus.

Quando te vi novamente,
obsequiosamente chegadora
com o diadema já delineado
e espargido,
o sorriso voluptuoso
e úmido;
e caído a teus pés
o pôr-do-sol,
apaixonado,
tive certeza absoluta:
- Tua alma te era a mais devota e obediente filha!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

ABANDONADO NA ESTRADA QUE LEVA À TERRA NOVA


ABANDONADO NA ESTRADA QUE LEVA À TERRA NOVA
Oswaldo Antônio Begiato

Fosse uma rosa menina
Dessas que caem das estrelas
Colorem-se de amanheceres
E se enfeitam de diamantes.

Fosse uma rosa de pérolas
Dessas que se geram no seio do tempo
Embranquecem-se de infinito
E se transparecem de raios loucos.

Fosse uma rosa vermelha
Dessas cultivadas pelos anjos
Com a maciez de todas as graças
E a beleza de todas as preces.

Fosse uma rosa de lua
Dessas que clareiam o universo
Que mostram o corpo sem nódoas
E escondem a tristeza sob sua leveza.

Fosse uma rosa de ouro
Dessas lapidadas por mãos de deusas
Pra comemorar o jubileu de santas
Na catedral de algum país de promessas.

Fosse uma rosa efêmera
Dessas que se exalam do corpo perfumado
E se espalham pela alma como doença
E se exaurem nas armadilhas do amor.

Fosse uma rosa,
Rosa,
De olhos alumiados,
De pele petalina,
De sorriso difuso,
De gestos vastos,
De alma profícua.

Mas é apenas
Uma maria macilenta,
Uma maria-sem-vergonha,
Dessas que se entregam ao abandono
de uma beira de estrada
que não leva a lugar algum.

domingo, 22 de junho de 2008

ESTRANHEZA


ESTRANHEZA
Oswaldo Antônio Begiato

Exausto de mim mesmo,
Lancei-me dentro do espelho
À procura de meu sentido.

Todas as minhas marcas,
Todas as minhas manchas
De nascença
Tinham sumido.

Eu era um estranho
À busca de meu princípio.

Havia em mim agora
A frieza de um azul incontável
E a profundidade de um oceano
Corrompido pela superfície do vidro.

Sem ostras retraídas.
Sem pérolas inatingíveis.
Estava eu dissecado.
Indefeso.
Encantado.

No mergulho que me deixei dar
No fundo do espelho de meus inversos,
Foi que me reconheci;
Bem quietinho, bem escondidinho,
Alojado em meu lado esquerdo.

O espelho tem esse vício encantador:
O de mostrar o sentido,
O de mostrar o princípio
Sempre pelo lado esquerdo.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CINZAS DA SANIDADE


CINZAS DA SANIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

Varro o chão
Onde caíram as palavras comportadas
Que por entre dedos gélidos
De minhas mãos rudes
Deixei escapulir, por obstinação.

Junto-as e cremo-as.

As cinzas, entrego-as ao vento;
Leve-as ele para bem longe de mim,
Fantasma que são
Do poema reto
Que não me permiti consumar.

Não lapido as palavras.
Não destilo as palavras.

As lapidadas,
Deixo-as aos jovens apaixonados.
As destiladas,
Aos que delas se tornaram amantes incorrigíveis.

Quero-as selvagens,
Cheias de quinas e fios,
Cheias de doenças e vícios,
Para que quando brotarem de dentro de mim
Rasguem-me a carne,
Contaminem-me o sangue
E façam-se poemas tortos:
Eles me conferem vida intensa.

Não quero, pois, o poema da breve paixão,
Nem o da paixão amancebada:
Eu vou é me casar, para sempre, com o Cântico Negro.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

CIGANA


CIGANA
Oswaldo Antônio Begiato

Ainda tenho guardada
na caixinha envernizada
de minha memória infiel
a imagem da moça,
vestindo saia longa e alaranjada
feito uma cigana,
lendo minha mão
e entendendo meu coração.

Sempre me dava um conselho:
- Tome sempre duas;
a primeira é para tirar
o pó da garganta,
a segunda é para fechar
o corpo.

Desde então,
nunca mais fui infeliz.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

PORTAS FECHADAS


PORTAS FECHADAS
Oswaldo Antônio Begiato

De onde está voltando agora?
Do ponto de ônibus
Ou do ginecologista?
E este semblante cheio de segredos,
E este perambular cheio de medos?
De onde vens assim tão assustada?

Ah, se fecharam portas,
E o barulho foi insuportável.
Então vou lhe dizer:
As portas quando se fecham
Sempre fazem barulho mesmo.
Algumas prendem com muita força
Nossos dedos no batente.
Em todos os lugares do mundo
Elas fazem muito barulho.
Em alguns lugares feridas.
As portas externas
Fazem barulho apenas,
As internas barulho e feridas.

Mas um dia elas se abrirão
E quando portas se abrem
Costumam deixar passar
Ratos e saudades,
(as internas,
aquelas que não precisam de chave)
Porque as que precisam de chave,
As externas,
Deixam passar sol e pétalas.

domingo, 1 de junho de 2008

TEATRO AMADOR

TEATRO AMADOR
Oswaldo Antônio Begiato

Tenho por máscaras
Um fascínio incontrolável.

Será que guardo
no meu mais profundo abismo
um desejo de teatro?

Ou será que a Verdade
amarga a minha imagem crua
e me mete medo?

O que quero eu revelar,
o que quero eu negar,
se a máscara que uso
é cópia fiel de meu rosto roto?

sábado, 31 de maio de 2008

SEM PALAVRAS


SEM PALAVRAS
OswaldoAntônio Begiato

Eu quero ser branco
feito de papel reciclado,
sem quadrículas,
linhas tortas,
palavras,
versos,
rimas,
pontuações,
ou segundas intenções.

Eu quero ser árido
feito de silêncio mortal,
sem gesticulações,
voz rouca,
palavras,
afetos,
abraços,
nenhum calor,
ou nenhuma grande dor.

Eu quero ser triste
feito uma canção inacabada,
sem movimentos,
sons formais,
palavras,
notas,
pautas,
perdidas ilusões,
ou maiores complicações.

A menos que,
com as mãos em conchas,
dilua tuas trevas,
resgate-me de tuas sombras
e recolha meus desencantos
ou liberte-me das palavras
não pesadas,
que sempre dizes,
como uma predadora de sonhos.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

FINIDADE


FINIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

Eu queria te fazer carícias no rosto
Com minhas mãos encobertas
Pelo pó, nela pousado
Durante meu caminhar
De homem solitário e inconformado,
Esperando por um único beijo,
Negado desde o meu nascer:
- O beijo da mulher amada.

Sei que a vida inteira me quiseste
Como teu infeliz e só teu eunuco.
Mas devo dizer com todas as letras
Que foram legadas às minhas mãos
Empoeiradas:
- Sou livre e potente.

Nasci para voar dentro dos sonhos
E acreditar que um dia terei esse beijo
Da mulher que meu coração escolher,
Mesmo sabendo-o impossível
Porque nasci sem lábios,
E vou morrer sem lábios.

Um beijo,
Nem que fosse um beijo ligeiro
Feito a prece incônscia do louva-a-deus.
Um beijo,
Nem que fosse um beijo frio
Feito o gotejar acetinado do orvalho.

Mas partiste levando contigo
O desencanto que eu não inventei,
E o sonho que ousei sonhar:
- Um beijo da mulher amada.

Comigo deixaste apenas
Uma espantosa certeza:
Maior que a tristeza de saber
Que nunca me amaste
Foi a alegria de descobrir
Que nunca te amei.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

CONCLUSIVA


CONCLUSIVA
Oswaldo Antônio Begiato

não tenho saudades
de quase nada
a não ser
do tempo em que,
embriagado de pólen,
fui flor,
fluí flor;
flor incurável
que durou uma juventude
inacabada

eu tinha cor
eu tinha cheiro
eu tinha luz

eu tinha um tinteiro
escarlate
onde mergulhava
meu caule rígido
encharcando-o de sangue
espesso e grave
para escrever poesias
que hoje estão gravadas
nas paredes dos jardins
que já não existem mais

tudo se consumiu
entre o tempo que não passou
e a alegria que nunca
pude provar
com meus lábios roxos
e minha face pálida

porque foi com lesões
deformações
e murchamentos
que a vida escreveu minha história
no meu próprio corpo

hoje estou um baú
que carrega dentro de si
apenas o sentimento do vazio
e todo o meu resto incomunicável

quarta-feira, 28 de maio de 2008

POUQUIDÃO

POUQUIDÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Dar-te-ia pétalas d´uma avenca preta
E a mais preguiçosa estrela do universo
E dar-te-ia a magia d´um cometa
E o maior diamante na terra imerso.

Dar-te-ia o perfume de nossa gaveta.
Dar-te-ia tudo, mas ando tão inverso:
Sobra-me só o exprimir da caneta
Que me faz poeta sem muito verso.

Sou pobre, pobre... Sequer tenho alegria.
Quase nada sou. Quase sou indigente.
Mas nos meus trapos eu te amo todo dia.

E por nada ter pra te deixar contente
Dou-te então o arroubo de minha poesia:
- É só o que tenho pra te dar de presente.

terça-feira, 27 de maio de 2008

VIAGEM

VIAGEM
Oswaldo Antônio Begiato

Com a trava que de meu olho tirei
Fiz uma canoa, dois remos e um olhar
Com os quais de Sul a Norte
Naveguei... naveguei... naveguei...

Fui em busca de minha sorte
E fui ficando forte... forte...
Um belo dia era eu belo também;
Fora banhado pelo mar,
Penteado pela brisa,
E enfeitado pelas nativas bonitas,
Filhas da praia;
Elas deixaram em meu pescoço
Colares de conchas coloridas.

Assim me fiz marinheiro;
Pelos sete mares,
Com muitos amores
E nenhum porto,
Naveguei... naveguei... naveguei...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

CORES


CORES
Oswaldo Antônio Begiato

Não fossem
o arco íris,
as flores,
as borboletas
e os beija-flores
minhas candências
seriam somente
tardes cinzentas
e meus enlevos
filmes mudos.

Eu não passaria
de um vidro,
conspurcado,
de nanquim preto,
nas mãos
de um desenhista
descuidado.

É dele a imagem,
em branco e preto,
do espinho encravado
que carrego no peito
como prova de meu amor,
esse imenso amor
que sinto por ti
e que estará eternamente
matizado de cores,
das mesmas cores
que me ofertaram
o arco-íris,
as flores,
as borboletas
e os beija-flores.

domingo, 25 de maio de 2008

IRRECOBRÁVEL



IRRECOBRÁVEL
Oswaldo Antônio Begiato

Em toda minha vida
tive um único instante
de lucidez.

Foi quando invadiram-me
e roubaram-me
a precisão.

Não consigo mais
colocar o pingo nos is.

Não consigo mais
soletrar as palavras.

Já não sou mais preciso.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

OLHOS

OLHOS
Oswaldo Antônio Begiato

Minha morada tem janelas
Por onde entram imagens
Invertidas e pervertidas,
Cujas vidraças e vitrais,
Presos às esquadrias de minhas seguranças,
Ocupam-se em traduzi-las
E transformá-las em imagens doces.

São imagens de minha liberdade
E de minha demência
Que minhas paredes impermeáveis
Impedem-me de tocar
Aprisionando-me em meus tantos temores.

Mas cuido para que minhas janelas,
Seus parapeitos e paralelos,
Estejam sempre perfumados e enfeitados
Com pétalas e parapétalas
De florestas encharcadas de cores.
E que seus vidros e olvidos
Estejam sempre aquecidos
Com luzes encantadas e lustrais
E com uma luz azul sem fim
Capaz de produzir universos
Inventar canções eternas,
E desenhar um céu cheio de horizontes.

Porque é por elas que um dia,
Arrebentando todas minhas resistências,
Fugirei, voando, para bem longe de mim.

terça-feira, 20 de maio de 2008

AVENTAL

AVENTAL
Oswaldo Antônio Begiato

se do avental
em vez de trigo
avencas às pencas
caem das palhas
do espantalho
(uma espécie
de Isabel santa)
a poesia nasce
espontânea
e premonitória
porque a quem é dado
operar milagres
não suporta castigos

nem se pode imaginar
o quanto a alma
se mantém elevada e distante
de outras almas
quando o corpo
é deformado
é mutilado

e nem se pode imaginar
o quanto o corpo
se mantém receoso e distante
dos outros corpos
quando a alma
é perfurada
é vilipendiada

não pense, pois,
que ele derrama poesias
pensando em ti

tens o corpo perfeito
como uma avenca
sem palhas
sem castigos
e a alma pequena
como um avental
sem remendos
sem milagres

ele está óleo
tu estás água

FLOR BRANCA

FLOR BRANCA
Oswaldo Antônio Begiato

Que você nunca se aparte
Da delicada orquídea branca
Que traz em seus cabelos;
Pedra rara em jóia única.

Que você nunca ceife
Seus cabelos alongados
Que lhe cingem a cintura;
Mistério feminino do existir.

Que você nunca negue
Sua cintura às minhas mãos;
Elas ainda têm o brando perfume,
Da orquídea branca que lhe ofertei.

Que você nunca se aparte
Da imaculada orquídea branca
Que traz em seus cabelos;
Insígnia de meu devotamento.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

BEIJO

"O Beijo", de Augste Rodin

BEIJO
Oswaldo Antônio Begiato

Tenho
meu espaço
e meu tempo.

Não me busque
no sol
se estou no chão.
Não me busque
no chão
se estou nos sonhos.

Não chegue
adiantado.
Não chegue
atrasado.

Adiantado,
ainda não sou;
atrasado,
já fui.

Beije-me
sempre.
Assim
permito-me
ser matéria e espírito,
infinito e eternidade.

domingo, 18 de maio de 2008

SINGULAR

SINGULAR
Oswaldo Antônio Begiato

Dou-te uma rosa,
Primeira,
Com o espinho consagrando
O sangue
Que de minha mão roubou.

Dou-te meu amor,
Primeiro,
Com a saudade estrangulando
O ângulo
Que de tua alma roubei.

sábado, 17 de maio de 2008

CÍRCULO VIRTUOSO

CÍRCULO VIRTUOSO
Oswaldo Antônio Begiato
*
O amor é maior que a vida
Posto que existe
É maior que a existência
Posto que explode
É maior que a explosão
Posto que queima
É maior que o incêndio
Posto não ter fim
É maior que o fim
Posto começar
É maior que o começo
Posto ser criação
É maior que a criação
Posto que é eterno
É maior que a eternidade
Posto que é do homem
É maior que o ser humano
Posto ser da alma
É maior que a alma
Posto que a contém
É maior que o conteúdo
Posto transbordar
É maior que o transbordo
Posto que alça vôo
É maior que o voar
Posto ser do céu
É maior que o céu
Posto ser tudo
É maior que o tudo
Posto entristecer
É maior que a tristeza
Posto que morre
É maior do que a morte
Posto que é vida...

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Alfredo Munhoz - Caminhos

NO NÃO DIZER
Oswaldo Antônio Begiato

Não estou
Não sou
Não vou

Não mudo
Não quero
Não pode

Não

Pronto
E ponto.

Há no não dizer
Uma inescrutável euforia
Uma inestimável alforria

quinta-feira, 15 de maio de 2008

RECORDAÇÃO


RECORDAÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato

É sua essa tardinha
Perfumada de jasmim.
Guarde-a com esmero
Em sua caixinha de costura.
Assim, toda vez
Que for pregar um botão
Em seu vestido carmim
Vai se lembrar do meu amor:
Ele foi perfumado
Como o botão de jasmim
Que se enamorou dela, tardinha,
E a perfumou todinha.