sábado, 25 de abril de 2009

AMOR SEM SENTIDO


AMOR SEM SENTIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Tu me pedes que eu seja.

Me tomo pelas minhas mãos,
Já cansadas de tantas conduções,
Vou lá e me transformo,
Com o corpo em carne viva,
No que de mais belo posso ser.
Depois, sem mais nem menos, queres que eu deixe de ser
Todos os caminhos que abri.
E lá vou eu, sem eira nem beira, povoar ruas escuras.
- Jogo fora todas as minhas valiosas experiências.

Tu me pedes que eu tenha.

Andarilho sem bens nem heranças,
Deixo as ruas por onde existo,
Vou lá e me empenho,
Com os nervos à flor da pele,
Para ter o que de mais caro posso ter.
Aí me pedes que eu me livre
De todos os sorrisos que inventei.
E lá vou eu, pobre de espírito, buscar o meu tormento.
- No lixo ficam as tantas coisas que tanto me custaram.

Tu me pedes que eu faça,

E eu, feito o Corcunda de Notre Dame,
Apaixonado por uma Esmeralda insensível,
Vou lá e me mutilo,
Das tripas então faço o coração,
E te conquisto o mais belo dos mundos.
Então, descontente e infeliz me mandas desfazer
Todas as plásticas que me serenaram.
E lá vou eu, médico e monstro, suturar todas as feridas.
- Torno-me a cicatriz exata de um amor sem sentido.

Haja paciência!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

LENDAS PERDIDAS


Tela de Leonid Afrenov

LENDAS PERDIDAS
Oswaldo Antônio Begiato

É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam do mundo
Meu mundo azul e coberto de quimeras.

Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.

terça-feira, 7 de abril de 2009

DECLARAÇÃO DE DESEJO


DECLARAÇÃO DE DESEJO
Oswaldo Antônio Begiato

Minha querida e minha amada,
enamorado de ti mulher
e de teu corpo repleto de cio
ardo em febre,
sonho contigo e não te deixo saber.

De um lado do alforje
que trago nos ombros
(o lado virado para a terra)
guardo tantas estrelas,
recolhidas de minhas alucinações,
que possível seria inventar um céu
só para acolher teu corpo desvelado.

Do outro lado do alforje
(o lado virado para o mar)
guardo tantas tormentas
e tantos raios e tantos relâmpagos
- eles criam meus desejos
consumados em fogo eterno -
que seriam capazes de me deixar louco
e virar-me ao avesso
enquanto que enfebreço
com o cheiro de fêmea que exala
o teu corpo tenro e arrepiado.

Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.

Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.

Toda minha volúpia incandescente
Se faz acabada quando doce me permites,
com meus dedos bobos e trêmulos
E minha língua ágil e salivada,
Te vasculhar as fendas mais lúbricas.

Todos meus ímpetos insopitáveis
São amainados pelo teu ventre
Que acolhe meu sêmem
Quando, com meu sexo rijo,
Te penetro como homem
E te amo como anjo saciado.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

SEMEADORES DE DESVELOS


SEMEADORES DE DESVELOS
Oswaldo Antônio Begiato

Há dias em que
o mundo cheira mal.

As notícias cheiram mal.
Os valores cheiram mal.
As atitudes cheiram mal.
Os homens cheiram mal.

Há dias em que
há no ar um forte cheiro
de desesperança.
Há no ar um forte cheiro
de indelicadezas.

Nesses dias
sinto uma saudade imensa
do pé de dama da noite
que minha mãe regava,
toda tardinha,
nos tempos de estiagem
e das mudas de lichia e jabuticaba,
produzindo,
com as quais meu pai
presenteava os amigos
que tinham quintal.

Havia no gesto delicado deles
uma indescritível esperança.

Uma esperança de perfume!