Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

FORMOSA


FORMOSA
Oswaldo Antônio Begiato

Minha formosa menina,
Deste teu amado que se fascina
Leva os tolos sonhos, as vãs fantasias,
As ricas notas e as graves melodias.

Minha formosa princesa,
Primeira flor no paraíso acesa,
A ti entrego, manso, meu corpo torto;
De ti faço meu iniludível porto.

Minha formosa donzela,
Vento sereno e firme em minha vela,
Em ti navegam retos meus suplícios;
Para ti ofereço os meus sacrifícios.

Minha formosa amante,
Para quem nunca serei bastante,
É em ti que habitam meus extravios;
É contigo que preencho meus vazios.

Minha formosa escolhida,
Por minha estrela guia recolhida,
Quero-te bela navegando meu mar;
Quero-te infiel esgotando meu amar.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu não queria mais chorar. Nunca mais!
Estou muito velho para chorar. Esgotei, com o tempo, minhas lágrimas.
Mas quando vejo estou chorando.
Choro, mesmo sem lágrimas, porque chorar é preciso.

Sou um produto inacabado. Incapaz de ser saudável.
Incapaz de ser inofensivo.
Vã foi minha vida!
Tão cheia de segredos,
de cadeados,
de senhas,
de mistérios,
de combinações,
de chaves...

Minha vida foi tão cheia de encruzilhadas e tão escassa de retas.

Será que o tempo foi muito e o amor foi pouco,
ou será que o arrependimento por tão pouco amor
fez as pessoas me mimarem tanto?

Será que tenho direito de sonhar?
Toda vez que sonhei apanhei:
- Ou porque tinha sonhado exageros
ou porque não sonhei os sonhos que queriam.

Duro mesmo é se olhar no espelho e ver
que a curva da vida está em declínio,
não no que diz respeito ao tempo,
mas no que diz respeito aos sonhos que não tenho mais.

No entanto, resta-me um pequeno sonho
que escondo sob meu travesseiro para que não seja roubado:
- Eu gostaria que todos os portões fossem abertos
e que ninguém tocasse em nada que é meu;
mas que se houvessem toques,
fossem eles uma espécie de mágica fraterna,
que fizesse tudo virar flor.

Ou beija flor.
Ou borboleta.
Ou inocência...

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

INESPERADO


INESPERADO
Oswaldo Antônio Begiato

Se o teu coração
imenso e veloz
Puder perdoar meu coração
Pequenino e trôpego
Peço perdoar-me
não pelo medo que tive de sofrer
Mas pela ousadia que tive de te amar
Em todas tuas dimensões
Com todas minhas proporções.

Com minh’alma
em contentamentos
Cobri,
com meu norte e meu sul,
teus cantos todos
Porque foram tão singelas
e perenes
As esperanças que tatuaste
em minha solidão:

- O vaso vazio à espera de flores;
Flores repletas
bordadas dentro dos olhos.
- O livro leve à espera de poesias;
Poesias meigas
semeadas por entre lírios.
- A noite nobre à espera de estrelas;
Estrelas meninas
vestidas de cor de rosa.
- A taça tosca à espera do tinto vinho;
Vinho ardente
fermentado no céu da boca.
- A canção límpida à espera da voz;
Voz metálica
apurada nas catedrais.
- O barco brando à espera da tormenta;
Tormenta sem calmaria para amar...
Para te amar!

E nossas bocas bobas
à espera do beijo
- Beijo longo perdido na brevidade da paixão -
É o filme sem cortes
à espera de um final feliz;
Final feliz escrito pelas mãos da própria Felicidade.

Domingo, 28 de Junho de 2009

MAIS UMA TENTATIVA DE CRÔNICA


DIANTE DE SI MESMA
Oswaldo Antônio Begiato

Só, diante de si mesma, se olhava longamente no espelho que a lançava em um mundo feito de inversões. Ao fundo, a cama desarrumada. Nas dobras do lençol se ajeitavam os desarranjos de uma noite de insônia e solidão. As cortinas trepidavam com a brisa; despertavam desesperadamente recordações indesejáveis em sua alma tão feminina e tão sensível e tão distante.

Uma réstia de sol iluminava o porta-retrato fingidamente esquecido sobre a cabeceira. No porta-retrato o corpo do homem não permitia o abraço; inertes, os olhos denunciavam uma presença intocável. Insensível. Uma imagem plana e sem movimentos, onde apenas o tempo se movia ali, deixando na face única e máscula um amarelo indelével.

No ar pairava o perfume que os anos diluíram, mas a memória, teimosamente, não. Nem se diluiu a ilusão de sentir o leve pousar da mão nos cabelos ainda castanhos, ainda que o pouso se fizesse breve. Breve como um suspiro. Carinho frágil, sempre negado.

O espelho retratava tudo mudo e complacente. Havia nele um vácuo inconquistável. Havia na mulher um vácuo inquestionável. Uma espécie de porta se abria sem muitos ruídos, mas que não permitia a entrada do futuro nem permitia a saída do passado. Prisão perpétua.

Que falta lhe faziam agora a formatura do que filho que nunca nasceu, a missa de bodas de prata que nunca aconteceu, o abraço do neto que nunca veio... Os vácuos se multiplicavam dentro do espelho. O Espelho era outro mundo. Outra vida. Outra essência. Nos vácuos que se sucediam, outra história acontecia, ainda que somente no pensamento.

Porém, o espelho também era uma imagem plana e sem movimentos que se dobrava ao inverso para amenizar a crua realidade do tempo que passou, sem deixar muitos vestígios dos sonhos jamais formatados, e tentar apagar as dores e as imagens que se perpetuam na retina cansada de olhar os inversos.

Em vão. O exagero da complacência não permitiu ao espelho notar nele a imagem inversa dos fios brancos de cabelo abraçados à escova.

Abraçados teimosamente à escova posta diante dele.

Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

VILEZA


VILEZA
Oswaldo Antônio Begiato

Venho,
profundamente indignado,
à porta de tua casa para chorar,
não o leite derramado
(este a natureza de algum modo absorverá)
mas a alma vilipendiada,
esta sim irrecuperável.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

MEU NOME


MEU NOME
Oswaldo Antônio Begiato

A vogal “o” do meu nome me faz masculino.
Gosto de ser homem feito.

Ele começa com ela e com ela termina;
a tem bem em seu centro acentuada circunflexamente:
- É a cumeeira do telhado
porque o meu nome é minha morada.

Suas vogais masculinas são as janelas
por onde enxergo as paisagens externas:
- Elas moldam a alma que ainda não é minha,
iluminam as minhas avenidas internas
e fertilizam meus canteiros inacabados.

Meu nome me protege. Meu nome me expõe.
Meu nome me esconde. Meu nome me delata.

Dentro do meu nome guardo todas as sílabas
que penso me pertencerem, mas que não me pertencem.
Guardo um passado que herdei cheio de honras,
um futuro que tento legar inutilmente
e entre eles um presente cuja utilidade não sei ao certo.

Dentro de meu nome guardo todas as poesias:
- As que já escrevi e que não são poesias e as que jamais escreverei.

Meu nome é minha Caixa de Pandora.

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

VÍCIO SUPREMO


VÍCIO SUPREMO
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo.

Estou irremediavelmente apaixonado.
Eu te amo e não sei o que fazer com esse sentimento.
Tudo tão intrigante! Tudo tão sacrossanto! Tudo tão simples:
- Amar.
Sinto o Universo cabendo dentro da mais ingênua declaração de amor:
- Eu te amo! É ou não é um Universo?

Nem mais consigo comer. Pensar em ti me sustenta.
Estou sólido. Colunas gregas: Dórica, Jônica e Coríntia.
Nem mais consigo dormir. Sonho acordado.
Estou viajando. Sonhos muitos: lúcidos, místicos, canalhas...
Vivo embriagado de ti. Sou boêmio de ti e tu és meu vício supremo.
Enquanto me embriago com tuas formas límpidas
vou decifrando a fórmula de um novo perfume,
o perfume de tua insubstituível presença.

Juntos construímos, em meus novos limites,
vitrais, altares, paramentos, flores, sinos...
...enquanto isso te ofereço preces, dádivas, horas, eternidades...

O amor me torna frágil...
...e frágil me ponho a te amar mais ainda
porque, preciosa, tu te tornas minha mais precisa precisão.

Te amar é o Universo todo
contido na mais pequenina declaração de amor:
- Eu te amo! Nada mais se faz necessário sentir.

Há nisso um templo e um tempo que só nós dois podemos entender.

Domingo, 7 de Junho de 2009

SOBRETUDO


SOBRETUDO
Oswaldo Antônio Begiato

Quero te amar
Nas palavras que tu vais,
Pacientemente, me revelando,
Mas, sobretudo, na surdez
Com que interrompes minha fala.

Quero te amar
Na presença com a qual
Vais me consumindo,
Mas, sobretudo, na ausência
Que me dilacera.

Quero te amar
No amor que tu me devotas,
Com solicitude,
Mas, sobretudo, na indiferença
Que me vilipendia.

Quero te amar
Nas verdades que,
Maliciosamente, me escondes,
Mas, sobretudo, nas mentiras
Que me deixam nu.

Quero te amar
Nas cheganças inesperadas
Que me aquecem,
Mas, sobretudo, nas esperas
Que me torturam.

Quero te amar
Sempre que quiseres
Que eu te ame,
Mas, sobretudo,
Quando não quiseres.

Quero te amar
Sempre que eu puder
Te amar,
Mas, sobretudo,
Quando eu não puder.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

AMOR INFINITO

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

IRRACIONAL


IRRACIONAL
Oswaldo Antônio Begiato

E tu, que de tão irracional,
Me veio amar assim tão bela,
Tão intensamente insensata,
Tão espantosamente desregrada.
Tão menina. Tão frágil. Tão volúvel.
Tão corajosa. Tão intrépida.

Dizes-me que eu estou sempre cheio de razão,
Mas dominado pelo medo.
É verdade. Razão e medo são irmãos
Gerados em uma superfecundação heteropaternal:
- Engano e Costume
Aproveitaram-se dos óvulos férteis da insanidade.

A razão enfeia as pessoas.
Quanto mais irracional, mais belas ficam.

Eu cheio de razões e medos fiquei tolo.
Eles me levaram a um enclausuramento de mim mesmo.
Fiquei feio. Fiquei torto.

Bonito é o irracional. Vou ser insensato.
É a insensatez que se engravida dos amores mais belos.

Por isso não chores.
Quero-te olhando, não te quero chorando.
Desejo que possas sempre estar com os olhos livres
Para poder olhar. Poder me olhar.
Olhos livres não se fazem com lágrimas.

Quero, a partir de agora, ser a tua paisagem mais irracional.

Sexta-feira, 15 de Maio de 2009

TEU SERVO E DIAMANTE - DUAS PEQUENAS POESIAS


Terça-feira, 12 de Maio de 2009

O POETA EM SI


O POETA EM SI
Oswaldo Antônio Begiato

Enquanto vela
Me velas.
Enquanto chama
Me chamas.

Defunto obtuso de mim mesmo,
Lacro minha boca cheia de perguntas
Com um silêncio quase eterno.

Há, contudo, um vulcão dentro de mim
Que se torna eruptivo quando tua boca
Toca levianamente este meu silêncio.

E teus beijos impregnados de fogo,
Sob as luzes da vela quase impassível
Vindas da chama quase efêmera,
Ressuscitam os versos que não posso enterrar.

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

SEREIA



SEREIA
Oswaldo Antônio Begiato

Canta-me!

Se me cantares
prometo,
com as mais ternas palavras
que eu puder recolher
no poço dos desejos,
jurar-te amor eterno.

Apenas canta-me,
porque encantado
já estou.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

SEMPRE TE AMO TANTO

Sábado, 25 de Abril de 2009

AMOR SEM SENTIDO


AMOR SEM SENTIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Tu me pedes que eu seja.

Me tomo pelas minhas mãos,
Já cansadas de tantas conduções,
Vou lá e me transformo,
Com o corpo em carne viva,
No que de mais belo posso ser.
Depois, sem mais nem menos, queres que eu deixe de ser
Todos os caminhos que abri.
E lá vou eu, sem eira nem beira, povoar ruas escuras.
- Jogo fora todas as minhas valiosas experiências.

Tu me pedes que eu tenha.

Andarilho sem bens nem heranças,
Deixo as ruas por onde existo,
Vou lá e me empenho,
Com os nervos à flor da pele,
Para ter o que de mais caro posso ter.
Aí me pedes que eu me livre
De todos os sorrisos que inventei.
E lá vou eu, pobre de espírito, buscar o meu tormento.
- No lixo ficam as tantas coisas que tanto me custaram.

Tu me pedes que eu faça,

E eu, feito o Corcunda de Notre Dame,
Apaixonado por uma Esmeralda insensível,
Vou lá e me mutilo,
Das tripas então faço o coração,
E te conquisto o mais belo dos mundos.
Então, descontente e infeliz me mandas desfazer
Todas as plásticas que me serenaram.
E lá vou eu, médico e monstro, suturar todas as feridas.
- Torno-me a cicatriz exata de um amor sem sentido.

Haja paciência!