sexta-feira, 16 de setembro de 2016

SEM MAIS DIREÇÕES

SEM MAIS DIREÇÕES
Oswaldo Antônio Begiato

Eu vou indo... Vou indo;
Lidando com minhas sequelas,
Ingerindo inúmeras drágeas,
Frequentando agulhas
E rindo de minhas impotências.

Parte de minha feição ficou pelo caminho,
Pelo caminho ficou também parte de meu coração.
De sorte que perdi  a pouca beleza que me fortalecia
E o pouco amor que me sacudia.

Não sou mais tormenta. Não sou mais demência.
Repouso sereno como olhos sobre flores.

Não consigo encontrar meu sexo;
Não fico afoito.
Não consigo encontrar meu prazer;
Não fico febril.

Por dentro sou manso;
Um barquinho ancorado num lago entre montanhas verdes
Sem movimentos. Quando consigo me mover, movo-me com lentidão.

Não sou mais homem de arroteamentos,
De horizontes longínquos,
De sonhos arrebatadores.

De tantas direções restou-me apenas uma:

- O silêncio derradeiro.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

EM LUGAR ALGUM

EM LUGAR ALGUM
Oswaldo Antônio Begiato

o teu olhar, um poço
fundo, fundo, fundo,
penetra meu pensamento
doce, doce, docemente
e fecunda minha alma
com o sêmen da ternura

e como as primaveras azuis
broto, broto, broto
e abotoo no canteiro das hortênsias
tenras, tenras, tenro
me apaixono pelo teu cantar
perdidamente perdido

sem saber mais quem sou
ando, ando, ando
a teu lado, de mãos dadas
terno, terno, eterno
na estrada que fim não terá
nem aqui, nem em lugar algum.

sábado, 30 de abril de 2016

CARÍCIAS

CARÍCIAS
Oswaldo Antônio Begiato

Suas mãos acariciando o meu corpo
Na cama grávida de lençóis perfumados
Sacodem meu coração de um lado pra outro
Feito areia na peneira entre as mãos do pedreiro.

Arrepio meus pelos e meus polos suados
Na pele que moldo com o tesão de meu sexo
Mergulhado dentro de sua ternura escultural
Feito porco espinho frente ao perigo.

Fecho meus olhos com a força de meus desejos
Cego-me com uma cegueira repleta de paisagens
Onde minha alma percorre a sua com malícias
Feito uma viagem ao país utópico de seu corpo.

E assim corpo a corpo desnudados em permissões
Amo-te tanto a alma, como a carne, como o sangue,
No abismo suave do tempo que nos esquece
Feito eternidade que nos adota em seu segredo.

domingo, 17 de abril de 2016

ÓTICA

ÓTICA
Oswaldo Antônio Begiato

Que minhas lágrimas se despenquem,
caiam sobre a terra
e que na terra germinem
fazendo brotar palavras
e que, enquanto palavras,
se façam silêncio.

Que me levem ao mundo
e que me tragam alimentos, ilusões
e um pouco de desenganos.

Que a vida possa me ofertar
mais caminhos para meus pés
e menos fardos para meus ombros.

Mas ando achando a vida
uma senhora muito maliciosa,
chata e melindrosa.

É preciso cuidado!

Ela é negociadora de sonhos

e sonegadora de esperanças.

domingo, 6 de março de 2016

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo
como ama a carne
impregnada de multiplicações,
dores e incertezas,
numa sexta de alívios,
o bisturi
que lhe rasga a massa disforme
e lhe livra do desespero
da vergonha
do medo e da morte.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

FORTALEZA

FORTALEZA
Oswaldo Antônio Begiato

Será que um dia,
depois do serão
cearei no Ceará?

Será?

Será que faremos
serenatas
dentro do Coração
do Ceará?

Será?

Ceará comigo,
no Ceará, essa mulher
cearense como o sertão?

Não sei
se será.

Se será
saberei
no Ceará
e serenarei.


O Ceará sempre serena!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo
como ama a bailarina
desenhada sobre sapatilhas de algodão e cetim
e redesenhada nos movimentos
angelicais
que lhe atribuem graça e leveza
em uma sexta de suavidades
a caixinha de espelhos
encantados por  ”Für Elise” de Beethoven
refletindo multiplamente
seus medos,
seus desejos,
seus avessos,
suas delicadezas...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ESTÁTUA

ESTÁTUA
Oswaldo Antônio Begiato

Se for de pedra sabão
levá-la-ei pelas bandas
das Minas Gerais
ao lado de outras
de Antônio Lisboa
deixarei ficar observando o céu...
O céu interno que me devora
as mãos, a carne, o tempo...

Se for de madeira,
colocarei no altar de minhas desconfianças
onde faço pobres preces
pedindo um mundo de terços, de piedades,
de ladainhas, de misericórdia,
de tolerância...

Se for de bronze,
recolherei-a dentro de meus olhos,
e banhada em lágrimas
fixá-la-ei com minhas dores
nas minhas lembranças
de homem tímido e nítido.

Se for de barro
amadurecerei-a ao fogo,
para que rígida
sirva de expectadora
das velas que acendo
cheio de vãs esperanças,
de fés abaláveis,
de razões obtusas...

Agora se for de chocolate,
deixá-la-ei para ti.
Que ela te faça
vício em teu corpo límpido,
saliva em tua boca árida
e prazer em tua língua insaciável.

Beijo-te assim
eternamente c ativo
e sabendo que de teu livro
não passo de folhas de recordações.
Mal escritas. Mal deixadas.

Folhas amareladas que guardam
uma pétala já sem perfume algum,

estátua de minha devoção silenciosa.

sábado, 2 de janeiro de 2016

AMÁLGAMA

AMÁLGAMA
Oswaldo Antônio Begiato

A terra é líquida;
Líquido é o aço.
Teus olhos são líquidos;
Líquida é a tristeza.

A carne é sólida;
Sólido é o osso.
Teus braços são sólidos;
Sólida é saudade.

A rosa é líquida;
Líquido é o espinho.
Teus ouvidos são líquidos;
Líquida é a música.

A estrada é sólida;
Sólido é o destino.
Teus pés são sólidos;
Sólida é passagem.

A paixão é líquida;
Líquido é o sofrimento.
Teus lábios são líquidos;
Líquida é a eternidade.

A ferida é sólida;
Sólido é o sangue.
Teus nervos são sólidos;
Sólida é a esperança.

A vida é líquida;
Líquido é o tempo.
Teus poros são líquidos;
Líquida é a morte.


Líquida e certa!

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O TEMPO E OS OLHOS

O TEMPO E OS OLHOS
Oswaldo Antônio Begiato

minhas mãos
como eu
estão velhas e empacadas

o tempo
foi me levando aos poucos
e me deixando aqui só
com a pele solta
e os olhos míopes

não encontro meu semblante
entre as rugas

mal consigo enxergar
a mim mesmo
no espelho

a vida
é tão sacana
que nos colocou
no rosto
um monte de músculos
para nos fazer chorar
e poucos
para nos fazer sorrir

o riso, portanto, é coisa rara

a lágrima constante e doída

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

SONHO AO SOM DO MAR



SONHO AO SOM DO MAR
Oswaldo Antônio Begiato

Sonhei com você esta noite.

Tinha a seu lado um recém-nascido terno,
Lindo como sua testa séria,
Limpo como suas vestes brancas,
Sereno como suas renúncias.

Ele tinha olhos verdes e claros
Como a luz do sol, logo pela manhãzinha,
Penetrando o mar de Ubatuba,
Mesclando algas, o azul e a profundidade.

O menino era tão lindo! Você estava tão linda!

Trazia nos braços flores transparentes,
No colo uma cicatriz de estrelas,
No sorriso um futuro de caminhos retos
E uma porta que me convidava à sua alma.

Você me chamou para junto de ti com mãos de chegança.

Quando eu, incrédulo, lhe sorri uma promessa etérea
Seu corpo esvaneceu-se delicado entre as horas
Lançando-me para fora de minhas paredes foscas
Entre um soluço de dor e um pedaço de impotência.

Despertei carinhosamente triste.

Despertei com as mãos entre o espírito e a carne.

domingo, 20 de setembro de 2015

CANTIGA DE CRIANÇA

CANTIGA DE CRIANÇA
Oswaldo Antônio Begiato

Se essa lua
Fosse minha
Eu mandava
Ladrilhar
Com ladrilhos
De Portugal
Só para
O meu amor passar...

Mas quem passou
Foi o dragão
E levou o meu amor 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

DIA DOS PAIS

DIA DOS PAIS
Oswaldo Antônio Begiato

Ouvido atento
duvido do vento
nas horas de honras.

Cadeira de madeira,
mágoa d’ água,
braço de aço.

A morte
não chega
antes do tempo.


Nem depois.

sábado, 11 de julho de 2015

DIQUE

DIQUE
Oswaldo Antônio Begiato

Quando eu pensar em ti
E minha boca se esgotar em saudades,
(Tu sempre saberás com uma eternidade de antecedência
quando minha boca estiver se rompendo de saudades)
Venha!

Venha e venha logo, mulher!
Tu não sabes o quanto sofro nessas horas,
De mais sincera angústia,
Com tua ausência inexplicavelmente infinita,
Infinitamente inexplicável.

Há uma dor que vem de dentro de meus vulcões,
Corrói toda sanidade que trago nos olhos
E jorra boca afora como se fossem serpentes
Se misturando às minhas multiplicadas línguas,
Línguas na saudade estupidamente esculpidas.

São beijos quentes e não dados
Que o tempo acumulou nos bueiros que me habitam
E meu corpo não suportou conter dentro de si,
Brasas que são à busca do oxigênio de seu hálito.

Quando eu pensar em ti, pois,
E minha boca se esgotar em saudades,
Venha e venha logo, mulher,
Com a boca dilatada e afogada em generosidades,
Porque só tu podes hospedar
Os beijos que eu nunca quis que fossem de mais ninguém.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CLAUSURA

CLAUSURA
Oswaldo Antônio Begiato

Mais doído do que
Amar e não ser amado
É sair da clausura interna
E descobrir conventos misteriosos.

Sair dos conventos
E descobrir catedrais despojadas.

Sair das catedrais
E matar todos os deuses céticos.

E depois voltar à clausura interna
Como homem envelhecido pelas dores
Provocadas pelo rasgar d’alma.