sábado, 31 de dezembro de 2011

OSSOS E SANGUE


OSSOS E SANGUE
Oswaldo Antônio Begiato

Para que servem
os sonhos que sempre tive,
se o tempo passou
e me petrificou?

Onde posso
encontrar carne e ossos,
se tudo agora
são pedras?

Como verter
das veias, sangue,
e revelar o pulsar do coração
se pertenço ao mundo mineral?

Como amar
se minhas perdas
fizeram de meus sentimentos
uma rua ladrilhada?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DEZEMBRO


DEZEMBRO
Oswaldo Antônio Begiato

No centro da folha
a linha,
no centro da linha
o ponto,
no ponto final
o certo,
no trono certo
o cedro,
atrás do cedro
o rei menino.

José,
o catador de papelão,
mal sabe que faz parte
do presépio.




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

LUZ


MAIS HAICAIS

MÃE
Oswaldo Antônio Begiato

Azulínea é a alma,
A claridade é divina.
Luza luz azul!

MANUEL
Oswaldo Antônio Begiato

Luz fria emanam
as estrelas de Bandeira.
Manuel as ama.

domingo, 13 de novembro de 2011

ALGUNS HAICAIS



------------->(Photo and caption by Nikki Krecicki)


OCEANO

Sol, rede e horizonte.
Trabalhar? Grande tolice.
Que venha a cerveja!

ANOS

Eis a primavera!
Bela e rara, mas cruel.
É o tempo escapando.

PRIMAVERA

Chega a natureza,
Princesa de flor fecunda,
Inundando os olhos.

JAPI

As flores, milagre;
As águas em seu castelo.
No cio, a floresta.

A MORTE

Chegará a que hora
A imponderável senhora?
À noite? Na aurora?

VELHICE

Vésper despertando;
Crepúsculo vespertino.
A vida se finda!

domingo, 30 de outubro de 2011

VARANDA


---------->Maia,Gueifães, varanda antiga / Old balcony

VARANDA
Oswaldo Antônio Begiato

Na varanda da casa que não tenho,
coloco a cabeça no mundo da lua
mas fico com os pés no chão firme.
No chão, teço caminhos e sei que jamais os palmilharei.

Na varanda da casa que não tenho,
rezo o terço de cada dia,
faço a procissão passar com os santos em seus andores.
Caio de joelhos diante de um Deus que não é meu
nem eu sou Dele.

Na varanda da casa que não tenho,
leio o livro do poeta decrépito
cheio de versos moribundos.
Aprendo novas rimas,
nas entrelinhas do pensamento.
Com pena nas mãos escrevo com letras mortas
a poesia que não me ressuscitará.

Na varanda da casa que não tenho,
fico pensando no amor verdadeiro
e de viola em viola componho canções novas.
Os pássaros gostam de ouvir mas meu amor, não.

Meu amor; aquele que não veio nem nunca virá.

domingo, 16 de outubro de 2011

QUARESMA



QUARESMA
Oswaldo Antônio Begiato

a esmo e quando a tristeza era do dia
o mesmo lesma se acasala
com a mesma lesma na árvore virgem

a quaresmeira cheia de cio
acha uma maneira de ser faceira
se florindo feita donzela
diante do apanágio

a lesma dá à luz o roxo
na quaresmeira
enfeitada de semana santa

esperemos a ressurreição

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

QUELHA


QUELHA
Oswaldo Antônio Begiato

As avenidas largas agora me cortam a essência.
Trazem concreto, violência e impersonalidade
E a velocidade do tempo me esgota os poros.
Meus olhos secos sangram ao sol e ao vento.

Quero os caminhos apertados e pequenos
Que me enchiam os olhos de simplicidade
E a boca com o sereno gosto da meninice.
Eles me ninavam com promessas de futuro.

Oxalá, pudesse eu ainda ser acalentado!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

QUE ESPERANÇA!


QUE ESPERANÇA!
Oswaldo Antônio Begiato

Todo dia pela manhã,
arcada pelos pedágios do tempo,
Dona Alzira pega sua vassoura
e silenciosamente põe-se a varrer.
Varre o quintal,
varre a calçada,
varre a sarjeta,
varre a praça...
como quem varre os sonhos ruins que teve à noite.

Depois entra em casa, com passos de relógio,
e ninguém mais vê Dona Alzira.

Dizem que fica arquitetando sonhos bons
na esperança de sonhá-los à noite.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

FLOR BALDIA


FLOR BALDIA
Oswaldo Antônio Begiato

Não sou flor
que se cheire
Nem flor
que se coma.

Não sou flor
que se dá
Nem flor
que se compre.

Não sou flor,
Sou erva daninha.

Tenham cuidado comigo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CALDO DE FEIJÃO


CALDO DE FEIJÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Pela manhã acordei cheio de passado.
Assombrado com a beleza do dia imensamente lúcido
Tive vontade de tomar sopa de caldo de feijão.
De ficar, afagando o frio da tardinha, ao redor do fogão à lenha
Observando minha mãe fazer, como fazia naqueles dias de inverno,
A sopa de caldo de feijão com lingüiça caseira e macarrão Ave Maria.

Ave Maria:
- Era a prece que rezávamos antes da refeição
Nos tempos em que tudo era tão abençoado.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ADORMENTAR


ADORMENTAR
Oswaldo Antônio Begiato

Porque a pele é fina
e o osso fraco
qualquer batida dói
e incha e incha...

Porque a alma é leve
e a mente fraca
qualquer culpa dói
e pesa e pesa...

O corpo imenso
não cabe na cama
miúda de solteiro.
Volta e meia
ele escapa dela
durante a noite
levando junto a alma.

Não sei para onde vão.
Só sei que quando voltam
a alma vem
com um jeito diferente,
assim como quem acabou
de ser desvirginada.
Aí ficam juntos os dois,
alma e corpo,
num encontro só
me deixando abandonado.

Essa é minha tristeza sem fim
e só eu sei dela.

Viver não é tarefa fácil.

Quando eu morrer
quero pois que digam:
- Ele já foi tarde!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

À MAIS BELA AVENIDA DE MINHA CIDADE


NOVE DE JULHO
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu descobri uma poesia nova.
Lindíssima ela fala de canteiros e seus botões,
Fala de luzes e suas alucinações,
Fala de estrelas e seus secretos desejos,
Fala de um córrego que acolhe o choro...

Hoje eu descobri uma poesia lindíssima
Dessas que falam de um amor só visto em cordéis.

Hoje também passei pela Nove de Julho.
Reinaugurada. Belíssima como uma moça apaixonada.

Mais bela até do que a poesia que descobri hoje.

Jundiaí, 10 de julho de 2.011.

sábado, 23 de julho de 2011

NA NAVE


......................................Arte: wado

NA NAVE
Oswaldo Antônio Begiato

Na nave da igreja velha
Às nove horas em ponto
A neve desce pontual.
O noivo, cheio de laços,
De novo, com fé promete,
À noiva cheia de credo
Não lhe ser fiel na vida.

Feito isso foram felizes
Até que a morte os separou.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TOALHA DE MESA


TOALHA DE MESA
Oswaldo Antônio Begiato

No armarinho do Toninho Rosa,
além de aviamentos se vende de tudo;
lá comprei uma toalha nova.
Toda quadradinha, cheia de flores.
Bonita. Feita de matéria plástica. Prática.
Tão fácil de deixá-la limpa. Basta um pano com sabão.
Quando está limpa
a deusa do perdão se debruça sobre ela
e minha mesa pode receber o pão e o vinho.

Gostaria que minha alma fosse assim.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

INCUMBÊNCIA


INCUMBÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Levar a trouxa
Lavar a roupa
Secar a louça
Tirar a poupa
Limpar a bolsa
Olhar a lousa
Ouvir a mouca
Curar a bouba
Amar a louca
Casar c’a moura

terça-feira, 21 de junho de 2011

TOLO


TOLO
Oswaldo Antônio Begiato

A hora que puderes vem te despedir de mim. Sem óculos escuros.
Não tragas rosas vermelhas. Traze margaridas brancas.
Ou não tragas flor alguma.
Canta a minha música preferida. Se possível duas, três...
Canta baixo para que só eu ouça. Ou não cantes nada.
Não dês ouvidos às coisas ruins que falarem de mim. Ouve somente as boas.
Ou não ouças nada.
As boas coisas guarde-as como alívio para ti, desse velho tolo que não soube amar.
Ou não quis, e que parte agora, feito um cusco de três pernas,
Sem descobrir o quanto tu foste capaz de amar um rabugento.

A hora que puderes vem me observar, imóvel. Frio. Findo.
Traze olhos cheios de ternura e mel na boca. Sem lágrimas. Sem amargor.
Recita versos do sul. Os mais bonitos que eu já ouvi. Quintana. Lupicínio.
Não, melhor recitares os teus.
Ou não recita nada.
Não notes meu estado esquelético e feio, mas veja a alma singela
Que escapou do corpo arruinado pela arrogância e pela boemia
De um velho tolo que nunca soube escrever um poema de amor. Um poema de amor pra ti.

A hora que puderes vem me ensinar a não ser tolo.
A não ser tolo na eternidade. Se é que eternidade existe, porque tu, agora, sei que existes.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ZÉS


ZÉS
Oswaldo Antônio Begiato

No tempo do zagaia
(meu amigo Zé dizia tempo do Zé do Gaio)
havia umas rosinhas
feitas por doceiras com amêndoas e clara de ovo
para enfeitar bolos de noiva;
rosa, azul, branca, verde...

Eu era criança
nem ligava para o bolo,
só queria saber delas, as rosas;
chamavam-se marzipã
(meu amigo Zé dizia Maria do Zé Pão).

Eu gostava de ouvir as coisas novas da língua que meu amigo Zé inventava.
Eram tempos de muitos Zés e poucas escolas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

QUIMERAS E VEREDAS


arte: wado

QUIMERAS E VEREDAS
Oswaldo Antônio Begiato

poetas são luas
poetas são
loucos

poetas são ruas
poetas são
poucos

poetas são poetas
poetas são
poetas

quarta-feira, 11 de maio de 2011

MEU PAI, MEU POETA!


MEU PAI, MEU POETA!
Oswaldo Antônio Begiato

Meu pai foi poeta sem nunca ter escrito um único verso.
Poeta do amor mais puro e profundo que já vi.

No dia em que completei trinta anos
mandou buscar para minha mãe a orquídea mais bonita de Jundiaí.
O cartão dizia que há trinta anos ela o tinha feito, pela primeira vez,
o homem mais feliz do mundo
(sou o primeiro filho deles).
Minha mãe disse com todo encanto do mundo:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Minha irmã caçula, depois de onze outros partos de minha mãe,
nasceu no dia nove de maio de mil novecentos e setenta e um
(dia das Mães, naquele ano).

Meu pai deu a ela o mesmo nome de minha mãe Regina – Rainha.
Quando chegou com a certidão de nascimento em casa
minha mãe com o mesmo encanto de sempre disse:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Quando estou muito triste gosto de imaginar
o quanto de poesia ele fez entre o primogênito e a caçula deles. E rio. Apenas rio.

Com eles aprendi que poetas são bobos.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

NA RUA DE MINHA CASA


NA RUA DE MINHA CASA
Oswaldo Antônio Begiato

Enquanto o Reino Unido se encantava com o casamento de seus príncipes,
No agora deserto de meu pequenino reino,
Formado por paralelepípedos, asfaltos e concretos,
Uma maria-sem-vergonha decidiu nascer dentro do bueiro
(Oásis inóspito de um progresso desenfreado ).

Nasceu cor-de-rosa com pintas brancas.
Lá dentro foi se fazendo feminina;
Vestiu-se como uma promessa atrevida
E rindo foi brincando com o impossível.

De flor assim tão frágil
nunca vi tanta meiguice.
Nunca vi tanta coragem.

sábado, 16 de abril de 2011

OLHARES DIURNOS


OLHARES DIURNOS
Oswaldo Antônio Begiato

Há tanta veracidade em ver a cidade
sem muitas flores em seus concretos,
sem muitas almas em suas carnes e seus ossos
movendo-se como um turbilhão infindável.

Quando eu era menino
guardava sempre pétalas de flores
no meio de meus livros. Eu preferia os livros de poesia.

A flor da qual eu mais gostava de guardar as pétalas
era a rosa.

Um dia arrumei uma namorada que se chamava Rosa.
Contei isso pra ela e ela nem ligou.
Então eu desisti dela e fui namorar uma brinco-de-princesa:
- Hoje somos unha e carne.

Ela me ensinou a questionar a quem pertence a alma:

Ao osso,
ao sangue
à carne?

A alma pertence à unha, dizia ela
com sua sabedoria de flor.

Dizia mais:

- Há em cada porto uma porta aberta.
Há em cada linho uma linha reta.
(Sempre é possível começar uma vida nova com uma roupa limpa.)

Planejei mil folhas de alecrim
sem pauta e sem nervuras,
todas brancas como almas de criança,
a fim de escrever um lindo verso de amor.

Mas aí aconteceu essa brinco-de-princesa
fazendo-me poeta e urubu rei, dono de todas as alturas,
e meu verso ficou tão bonito que passaram a me chamar de o poeta das nuvens.

Sei que isso é exagero, mas gosto porque me deixa mais apaixonado ainda
pela flor que se instalou na orelha da princesa.
Azar o meu que fui brincar com o amor. Ou será sorte?

terça-feira, 12 de abril de 2011

INGLÓRIA


INGLÓRIA
Oswaldo Antônio Begiato

Quando eu me encontro comigo mesmo
Dentro de minha consciência,
Acontece ali um duelo de vida e morte
Entre minha alma boa e meus ímpetos ruins,
Onde não há vencedor, apenas extenuado.

Preciso criar coragem e perder o escrúpulo.
Aprender a lutar comigo mesmo buscando a paz
Escondida no equilíbrio do bem e do mal,
Como se eu fosse dois usando a mesma armadura.

Há males que vêm para o bem; a derrota.
E há bens que vêm para o mal; a vitória.
Até aonde vencer uma batalha é coisa boa?

O sol hoje vai nascer às seis e trinta e três
E se pôr às dezoito e trinta e seis.

Recolherá pela manhã com seus braços de calor
O orvalho que a noite deixou esgotado sobre as folhagens,
E ao se pôr à tardinha devolverá à noite
O orvalho, agora purificado, forte e apaixonado
Para se cumprir mais uma rotina:
- Amar com seu frescor a noite que se encherá de estúrdia.

Quem sabe eu me encontrarei na busca inglória do aprumo!
Tenho desde o nascer até o pôr do sol para descobrir meu eixo.

É dessas coisas que meus dias são extraídos. Santamente extraídos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

OVO CEGO


OVO CEGO
Oswaldo Antônio Begiato

Filho no trilho
Folha na trolha
Falha na tralha

Trilho sem filho
Trolha em folha
Tralha quem falha

sábado, 26 de março de 2011

TRÊS PEQUENAS PORÇÕES




CATECISMO

- Que horas são?
- Oração?
Oração é a elevação da alma a Deus!

SAGRAÇÃO AO PÉ DA LETRA
Para Valquiria Gesqui Malagoli

Poeta,
eis aí a tua poesia.
Poesia,
eis aí a tua rainha!

CANTO DE FADAS
Para Renata Iacovino

Não sei se sou nota
ou se sou palavra.

Quando sou nota
dispo a palavra.
Quanto sou palavra
visto a nota.

E assim vamos os três,
enfrentando lobos
e despertando princesas.

sábado, 12 de março de 2011

NOTÍCIA DE UM ROUBO



NOTÍCIA DE UM ROUBO
Oswaldo Antônio Begiato

Um ladrão pulou o muro de uma casa na noite desta segunda-feira
e roubou três enfeites de jardim:
Um gnomo, um sapo e uma centopéia.

Segundo a polícia, há marcas de pés sujos nas paredes do local.

O ladrão de gnomo de jardim,
apesar de seus pés sujos,
não foi encontrado pela polícia.

Isso é que é ter sorte na vida!

domingo, 6 de março de 2011

ATENDIMENTO



ATENDIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

Você me pediu uma poesia;
resmungou alguma coisa parecida com uma exposição.
Não entendi muito bem não!
Mas com você é assim mesmo:
Pede e eu simplesmente obedeço.

Logo você me pede uma poesia.
Você, que tanto tem de margarida
mas que a última pétala jamais será um malmequer.
Aliás, pétala alguma sua é malmequer.

Com você tem que se saber brincar;
puxa-se uma pétala e diz-se assim:
- Bem-me-quer!
Puxa-se outra pétala e de novo se diz:
- Bem-me-quer!

Com você tem que se saber falar.
Seu encanto é ser meio muda e esperar mudez,
meio sem jeito de falar e com todo jeito de ouvir o silêncio das coisas,
mas quando fala a gente escuta atento e quieto e submisso.

Com você tem que se saber estar.
Não se pode olhar de frente.
Avermelha-se toda. Perde o rebolado.
Por certo um buquê feito com você, com seus olhos
com seu branco e seu amarelo diáfanos
iluminaria todas as sombras do mundo.
Você é a mais bonita dentre todas as outras flores.

Com você tem que se saber fazer.
Quando pede uma poesia
sei que quer somente uma poesia.
Você nem sabe que é a mais pura poesia,
em carne e osso, ou se sabe, disfarça.
Você é a minha poesia predileta. A única.

Então eu finjo que escrevo uma poesia,
todo mundo vê que eu escrevi você;
só você não vê
(ou finge que não vê).

E me fazes o homem mais feliz do mundo.
Chego e pensar que sou mesmo poeta.
Caramba!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

QUANDO AS PRIMAVERAS APRENDEM A VOAR


QUANDO AS PRIMAVERAS APRENDEM A VOAR
Oswaldo Antônio Begiato

Canso-me, antes do anúncio da chegada do trem
Pelo sino fatal escondido na torre da estação,
Mas quero manter-me desperto. Vivo.

Não quero mais janelas no meu quarto.
As janelas me deixam enrugado. Por elas entra o tempo.
Quero só primaveras. Primaveras quentes.
Que elas invadam paredes adentro,
Se instalem em minha cama. Em meu corpo.
Me cubram de flores. Me façam feliz.

Que as primaveras não me deixem esquecer de amar.
Quero ter a esperança de corações buliçosos.

Um coração envelhecido dói.
Coberto por terminações nervosas e sentimentais
Dói como qualquer outro órgão. E dói muito!

Quem me dera não doesse. Não sentisse.
Quem me dera não amasse tanto,
Nessa idade cheia de curtos anos.
Cheia de desenganos.

O que será que envelhece tão bruscamente o coração de um homem?
As ilusões? As desilusões?
...
Os jovens não envelhecem nunca.
Os anos dos jovens são longos. Demoram findar.
Eles têm a pela lisinha,
o rosto ingênuo,
o andar desleixado,
uma liberdade que
só eles conseguem espalhar,
por conta dos sonhos.
Por conta de um coração invulnerável.
Isso os torna fascinantes. Têm eles um amor ágil e fácil.

A nós, velhos,
só resta aceitar as mazelas e delas debochar.
...
O que me mantém vivo é o pé de moleque;
brejeiro fica invertendo a direção dos sentidos
e mandando a morte passar adiante.

Teimosamente, permaneço amando.
Não sei como. Não sei o por quê. Não sei quem.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

QUE PENA ISSO!



-------------------->Tela: Caminhante, de Daniel de Oliveira - Dany

QUE PENA ISSO!
Oswaldo Antônio Begiato

Prosternado
Pelo teu impetuoso lado
Deixo esfolamentos
Ficarem nos muitos momentos
Que deserdei
Quando ainda eu era rei

Consternado
Por meu imprevisível lado
Fico muito triste
Na ausência tola que insiste
Na minha vida
Como vida removida

E assim vou bastardo, de déu em déu

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

IMPRESCINDIBILIDADE


IMPRESCINDIBILIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

No principal cruzamento do Butão,
um pequeno e fechado reino nos Himalaias,
instalaram um semáforo.

O rei, por decreto, mandou derrubar
sob o argumento de que aquilo era muito deprimente.

Mandou colocar no lugar um ser humano.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CÂNDIDO


..................................................Foto: Milene Sarquissiano

CÂNDIDO
Oswaldo Antônio Begiato

O Mestiço, moço, negro, sem camisa e belo,
veio, candidamente, me visitar no museu que construí,
com as coisas recolhidas no sótão de minhas anamneses.

Trouxe-me um cacho de lichias
maduras, docinhas e geladinhas.
Trouxe-o dentro de uma vasta cesta de vime
forrada com um pano de prato prata, bordado à mão.
Tudo interioranamente paulista.

No cartão de visita uma dedicatória e uma lição:
“Não perca seu tempo com santidades nem com sanidades;
as coisas mundanas e insanas é que são inolvidáveis.”

Trouxe-me, pois, essas réstias de esperança
só encontradas no sol e no solo de Brodowski.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

PRINCÍPIO E PRECIPÍCIO


PRINCÍPIO E PRECIPÍCIO
Oswaldo Antônio Begiato

De onde partiu o golpe que partiu meu coração
partiu também a flecha reta que me faz compor por linhas curvas.
Cansei-me de vaguear por águas turvas.

Dentro de ti aprendi, deusa da fertilidade,
a navegar e a fundear nas bacias floridas de tua alma casta e me fizeste estreme.
Com asas coloridas por entre tuas flores aprendi a voar e a fecundar;
a fecundar e a voar, em nome do vento e da multiplicação.

Foi dentro de ti, celeiro de virtudes robustas,
que encontrei, de olhos fechados, a retidão.

E não queiram agora me apartar de minhas convicções,
elas me acompanham desde os tempos de borboleta razoável.

(O fim dos princípios é o princípio do fim;
abismo de onde só volta quem tiver asas arco-irisadas.)

Quero, pois, viver a beleza imortal do presente, afortunado que sou,
e desatar-me de um passado duramente gravado no anel de compromisso
como obra de arte - natureza morta emoldurada de saudades -
cuja utilidade única é a de ficar exposta no museu do inalterável.

Queria tanto te deixar um presente, em forma de poesia fecunda.

Não a poesia ordinária que ando fazendo,
feita de palavras, de métricas, de rimas, de regras tantas...
Mas uma poesia feita de gestos onde o olhar se adentra pela alma afora
perfura as blindagens e desperta o inusitado.

(A expressão de um olhar apaixonado
é mais bela e profunda do que qualquer poesia escrita.)

Essa é a poesia que quero te deixar. O meu olhar belo e profundo,
capaz de conferir asas coloridas a quem quiser escapulir de abismos.

Mas como ando cego e acanhado
não serei capaz de compor a poesia de meu amor.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

PINCÉIS EM MOVIMENTO


.................................................Abaporu - Tarsila do Amaral

PINCÉIS EM MOVIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

a Rita
acaba de descobrir
a rota

a rota
acaba de descobrir
a reta

a reta
acaba de descobrir
a roda

a roda
acaba de descobrir
a Rita...

...de uma das estáticas paredes
do Museu de Arte
Latino-Americana
de Buenos Aires
Abaporu
espia demoradamente
o desenho dos gestos
mudando as alavancas
que movem a terra
inventando inocentes
uma nova técnica
para curar a poesia

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

QUANDO CHEGA O CHEIRO DA UVA


QUANDO CHEGA O CHEIRO DA UVA
Oswaldo Antônio Begiato

Com o final do ano chegam à minha cidade
as barraquinhas onde se vende uva em caixas de madeira.
Elas se proliferam nas esquinas. Nas encruzilhadas.
Nas ruas estreitas. Nas ruas largas.
Nas estradas. Nos becos sem saídas.

Há na minha cidade sítios onde mãos rudes
na iminente chegada do Natal,
santamente se aveludam para a colheita da uva.
(É um ritual onde veludos se abençoam;
o da mão do viticultor
e o da pele do fruto maduro.)

Minha cidade é a terra da uva;
Uva Niágara -
rosada, branca.
Uvas de mesa.
Minha cidade é terra de uvas e de mesas.

Quando a uva por aqui chega
chega também a chuva.
Chuva de fim de tarde. Chuva fina.
Chuva de verão. Tempestuosa.
Chuva de granizo. Chuva granítica.
Tem chuva que a uva gosta, porque acaricia.
Tem chuva que a uva não gosta, porque machuca.

Minha terra é terra de uva no final do ano.
Minha terra é terra de chuva no final do ano.

E quando as uvas passam e as barraquinhas se vão,
pode-se ver por toda a cidade
flores brancas e dóceis,
pequeninas como um olhar
ternas como um perdão;
e minha cidade hospeda em suas ruas poesias órfãs.

Minha terra é terra de flor o ano todo,
de poesia dentro de mim desde sempre.

E é por isso que a lua,
tão distante, tão fria, tão pálida
vez por outra se despenca do céu
enfeita-se de flores
e se embebeda de vinho
nas noites chuvosas de minha cidade.

O alto falante do serviço de som da quermesse,
onde acontece a Festa Italiana
anuncia que o desvio de conduta não será tolerado.
E não será mesmo.

É nessa ocasião que a lua se parteja toda
em poesias rubras. Em poesias prateadas.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

PENITENTE INAMÁVEL


PENITENTE INAMÁVEL
Oswaldo Antônio Begiato

Onde há cruz não há manto.
Onde há manto, lança-se a sorte
Pois o manto não se divide
(Ele é peça única, sem costura
e a ele dono único será dado).

Não padeço de males pequenos.
Meus males vão além do túmulo.
Vão além da esperança. Além do material.

Aqui jaz o corpo novo de uma alma velha.
Nunca amada, nunca amou.
(Assim quero escrito com letra de forma
na minha pedra tumular)

Pois assim foi minha vida,
Que seja assim também minha eternidade.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

NASCIMENTO


NASCIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

Recobertas com pedras assimétricas
as ruas parecem guardar com precisão
a alma generosa das gentes
e a alma enigmática da cidade
onde a vida se transforma minuciosa
e as vertentes se põem à mostra
nos rejuntes graves das rochas,
guiando os passos incontáveis
a alisar as superfícies de um caminho
forjado a tempo e passagens.
Eles nunca são os mesmos,
mas deixam rastros invisíveis
nas entranhas do solo pétreo
e no polimento de suas faces.

Uma cidade é um canto
dentro de sua gente
e sua gente é vento
que carrega o canto
pelo mundo todo,
em alto e bom som,
ainda que pese a dissonância
de quem a quer demolida
e reconstruída em três dias.

Uma cidade é um canto do mundo
e o mundo de sua gente.

Um dia o asfalto vai cobrir,
contra vossa vontade,
as pedras indefesas de vossa memória,
e dentro delas manterá lacrada
a história de toda gente,
no instante em que a cidade,
embrulhada para presente,
se entristecerá de esquecimentos
e as almas se perderão no limbo da ignorância.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

MÚTUO


MÚTUO
Oswaldo Antônio Begiato

Tua chegada inesperada
quando o sal fazia suas flores na pele do mar,
afastou as ciladas da minha solitude
e trouxe a aliança que serviçal fundi pra ti
com o metal de minhas abnegações;

...ela combina com o colar;
o colar com o colo;
o colo com a busca;
a busca com o suor;
o suor com a dona;
a dona com o servo;
o servo com a aliança...

...e de tudo isso
fizeste-me dono único,
e dono de ti me fizeste
para sempre...

Tua entrega irrestrita
conferiu à minha alma
a chancela indelével
de minha pertinência a ti.

sábado, 8 de janeiro de 2011

FRÁGUA


FRÁGUA
Oswaldo Antônio Begiato

Às quintas-feiras a solidão te consome como uma frágua.
Nesse vácuo te abraça a morte dizendo tantas bobagens
Que os vales de teu rosto se enchem de uma nova água.

O coração empedernido teimosamente bate se abrindo.
Alado se põe nas alturas inventando inusitadas viagens
Por países onde as frutas são maduras e o absurdo é lindo.

Mas como vencer a luta inglória se lutas como Dom Quixote?

Humilde, pobre e casto permaneces irremediável sacerdote.

sábado, 1 de janeiro de 2011

FRANZIMENTO


FRANZIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Com precisão
a indignação
é revelada pelo
franzimento da testa,
vociferadora severa
contra a iniquidade.
 
Por onde andam
a cesta de pão,
o litro de leite,
a festa feita,
o médico do caso,
o médio prazo,
o livro certo,
a escola aberta,
a escolha do chão?
 
Por onde anda
a terra prometida,
da qual fluirá
leite e mel?