sábado, 16 de abril de 2011

OLHARES DIURNOS


OLHARES DIURNOS
Oswaldo Antônio Begiato

Há tanta veracidade em ver a cidade
sem muitas flores em seus concretos,
sem muitas almas em suas carnes e seus ossos
movendo-se como um turbilhão infindável.

Quando eu era menino
guardava sempre pétalas de flores
no meio de meus livros. Eu preferia os livros de poesia.

A flor da qual eu mais gostava de guardar as pétalas
era a rosa.

Um dia arrumei uma namorada que se chamava Rosa.
Contei isso pra ela e ela nem ligou.
Então eu desisti dela e fui namorar uma brinco-de-princesa:
- Hoje somos unha e carne.

Ela me ensinou a questionar a quem pertence a alma:

Ao osso,
ao sangue
à carne?

A alma pertence à unha, dizia ela
com sua sabedoria de flor.

Dizia mais:

- Há em cada porto uma porta aberta.
Há em cada linho uma linha reta.
(Sempre é possível começar uma vida nova com uma roupa limpa.)

Planejei mil folhas de alecrim
sem pauta e sem nervuras,
todas brancas como almas de criança,
a fim de escrever um lindo verso de amor.

Mas aí aconteceu essa brinco-de-princesa
fazendo-me poeta e urubu rei, dono de todas as alturas,
e meu verso ficou tão bonito que passaram a me chamar de o poeta das nuvens.

Sei que isso é exagero, mas gosto porque me deixa mais apaixonado ainda
pela flor que se instalou na orelha da princesa.
Azar o meu que fui brincar com o amor. Ou será sorte?

terça-feira, 12 de abril de 2011

INGLÓRIA


INGLÓRIA
Oswaldo Antônio Begiato

Quando eu me encontro comigo mesmo
Dentro de minha consciência,
Acontece ali um duelo de vida e morte
Entre minha alma boa e meus ímpetos ruins,
Onde não há vencedor, apenas extenuado.

Preciso criar coragem e perder o escrúpulo.
Aprender a lutar comigo mesmo buscando a paz
Escondida no equilíbrio do bem e do mal,
Como se eu fosse dois usando a mesma armadura.

Há males que vêm para o bem; a derrota.
E há bens que vêm para o mal; a vitória.
Até aonde vencer uma batalha é coisa boa?

O sol hoje vai nascer às seis e trinta e três
E se pôr às dezoito e trinta e seis.

Recolherá pela manhã com seus braços de calor
O orvalho que a noite deixou esgotado sobre as folhagens,
E ao se pôr à tardinha devolverá à noite
O orvalho, agora purificado, forte e apaixonado
Para se cumprir mais uma rotina:
- Amar com seu frescor a noite que se encherá de estúrdia.

Quem sabe eu me encontrarei na busca inglória do aprumo!
Tenho desde o nascer até o pôr do sol para descobrir meu eixo.

É dessas coisas que meus dias são extraídos. Santamente extraídos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

OVO CEGO


OVO CEGO
Oswaldo Antônio Begiato

Filho no trilho
Folha na trolha
Falha na tralha

Trilho sem filho
Trolha em folha
Tralha quem falha