segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ESTÁTUA DE SAL


ESTÁTUA DE SAL
Oswaldo Antônio Begiato

Então...
Não estranhe o meu andejar manco
de lá pra cá, de cá pra lá, sem muito critério;
sou apenas o luar insano e débil
se perdendo da lua;
a lua transviada no meio da poça
se perdendo da noite;
a noite embriagada de solidão
se perdendo do amor;
o amor se perdendo... Se perdendo!

Não me trate como se eu tivesse quinze anos.
Não se iluda. Tenho algumas eternidades,
e um monte de fotos a serem desvendadas
(de um semblante que encontrei enrugado
no reflexo proporcionalmente inverso
à imagem paralisada de meu rosto
amando a face oculta da lua, à meia noite.)
- Isso sim é perdição!

Estou aqui desde ontem
com a mesma roupa no avesso,
o mesmo sapato sem sola,
a mesma rua e a mesma esquina sem saídas,
os mesmos eclipses sem placas,
as mesmas corrosões velozes,
os mesmos medos fotografados,
e o mesmo olho inchado de tanto te olhar:
- É olhar-te em vão que tem me apequenado.

Então...
É que quando te olho me vejo dízima periódica;
cavalo de São Vicente:
- Carrega peso e não sente.
Sentimentos meus que os fatos iludiram.
Eles não têm mais importância alguma.
Eles não têm razão nenhuma para me furtar o sorriso,
mas eles fazem as lágrimas me beijarem palpitantes
as minhas horas mais frágeis.
Frágil, venho abaixo. Viro sal.

Não visses ainda que quando abotoas
no meio de meus confins
enche meus olhos de jardins
e meu coração de espinhos?
Ajardinado, vou-me fugaz... Sem olhar para trás.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

FORASTEIRA


FORASTEIRA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com meus olhos sagazes,
Com minhas sardas censuradas,
Com minha boca enfeitada,
Com meus seios valentes,
Com minhas coxas atrevidas,
Com meu sexo forasteiro...

Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com minhas pernas próprias.
Com minhas pernas sóbrias.

sábado, 21 de novembro de 2009


ROSA MENINA DOS OLHOS DE ROSA
Oswaldo Antônio Begiato

Foi quando me ofertaste doce a rosa;
- Rosa menina dos olhos de rosa -
E perdão pediste por ser menina
Nas ecos vazios da vida menina
Ofertando a mim, menino pequeno
No meu viver de menino pequeno,
A rosa menina mais só do mundo;
- Linda menina dos olhos do mundo -
É que me fizeste tão apaixonado,
Eu, menino do mundo, apaixonado
Por ti e por teus olhos cor-de-rosa;
- Rosa menina dos olhos de rosa.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

PROMESSAS CUMPRIDAS


PROMESSAS CUMPRIDAS
Oswaldo Antônio Begiato

Venha ver o que, rara, nasceu ignota
Atrás de nossa casa velha e relha,
Em frente à varanda, ausente de nós,
Sob a sombra fria de nossas janelas.

Um pezinho inocente de margarida,
Pálida como a lua cheia no inverno
E frágil como as entregas ingênuas
Em noite de bem-me-quer dissimulado.

Por um instante completaremos o vazio
Que ficou no avesso do vaso colocado
Ao lado da foto de nossas promessas
Quando éramos esperanças mútuas.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

ALTIVEZ


ALTIVEZ
Oswaldo Antônio Begiato

Depois de percorrer
meus pensamentos confusos,
rebentado e escasso,
termino de escrever
a poesia nova,
rebento indócil
que me rasga todo dia.
Olho pra ela e dela rio. Sem muita razão.

E quando vou repousar
deixando-a no livro aberto
de quem a lê sem sofrimentos
com os olhos gordos,
ela livre e de ninguém,
fica toda cheia de zombas.
Olha para mim e de mim ri também. Com razão.

Deixamos assim
os pratos da balança
no mesmo nível. E o fiel com ciúmes.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

RODA GIGANTE

Esta foto a poesia ganhou da poeta Ana Paula Perissé.

RODA GIGANTE
Oswaldo Antônio Begiato

Busquei-te na eternidade
Que o tempo esconde
Nas entrelinhas do instante,
E só fui te encontrar,
Segundos adiante,
No meio de uma festa alheia,
Dançando sozinha, alheia,
Com tua cadeira de rodas
Como se a existência fosse
Uma roda gigante iluminada
Girando em falso.
E tu, a Senhora do Espaço,
Inconsumível,
Ilimitada.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

CHAMADO





CHAMADO
Oswaldo Antônio Begiato

Aqui no
Sul
Tem um
Sol
Que é só
Seu.

Venha!

Aqui tem
Céu,
Sempre
Cio
E pouco
Sal.

Venha!

Aqui eu
Sou.

Tenha!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009


NOSSOS OSSOS
Oswaldo Antônio Begiato

Quando me avisto
- ocluso e escuro -
polindo impávido
tua prata e teu ouro
fico a pensar se a espécie
de porcelana fina
com que me modelaram
não foi a feita com a cinza
de meus ossos
que o tempo exumou.

Quando me desespero
- recluso e confuso -
apalpando pávido
minhas vias e minhas veias
descubro a espécie de amor
com que me forjaste:
- Aquele, cheio de afetos,
feito com a lágrima
que te lavou e me levou
a morrer de saudades
quando morreste tu
de amor por mim.

Partiste tão sem demora
que nem pude eu fazer
das cinzas de teus ossos
a porcelana única e alva
para fundir-te altar
onde eu queria ver
entronizado meu amor por ti
- meu imorredouro amor por ti -
no supremo sacrário
de nossas rendições.

sábado, 17 de outubro de 2009

CONTRADANÇA


CONTRADANÇA
Oswaldo Antônio Begiato

Te quero rubra
Te fazes branca
Te quero branca
Te fazes água
Te quero água
Te fazes jóia
Te quero jóia
Te fazes mulher

Te quero rosa
Te fazes nuvem
Te quero nuvem
Te fazes solo
Te quero solo
Te fazes vôo
Te quero vôo
Te fazes mulher

Te quero brisa
Te fazes vácuo
Te quero vácuo
Te fazes sopro
Te quero sopro
Te fazes vida
Te quero vida
Te fazes mulher

Te quero carne
Te fazes sonho
Te quero sonho
Te fazes pele
Te quero pele
Te fazes cheiro
Te quero cheiro
Te fazes mulher

Te quero rasa
Te fazes poço
Te quero poço
Te fazes seca
Te quero seca
Te fazes doce
Te quero doce
Te fazes mulher

Te quero terna
Te fazes vulcão
Te quero vulcão
Te fazes neve
Te quero neve
Te fazes fogo
Te quero fogo
Te fazes mulher

Te quero fênix
Te fazes cinza
Te quero cinza
Te fazes cheia
Te quero cheia
Te fazes colo
Te quero colo
Me fazes homem

terça-feira, 13 de outubro de 2009

PÉTALAS PLENAS


PÉTALAS PLENAS
Oswaldo Antônio Begiato

Leve meu peso leve
No teu cair descuidado
E me deixes vulnerável.

Serei, a ti, eternamente grata
Por teres chovido pedra
Nas minhas pétalas.

Pode agora a luz me atravessar sem dor.

Sou, sem ser efêmera, fêmea incólume.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

FORA DE PRUMO


FORA DE PRUMO
Oswaldo Antônio Begiato

Não quero ser
linha reta!

Não quero estar
no prumo.
Não quero estar
no nível.

Quero ser curvo!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

TANTO É


TANTO É
Oswaldo Antônio Begiato

Tanto é
Que estou aqui de mãos postas,
Pernas em genuflexão e olhos alagados
Fingindo rezar uma prece de luz em plena obcecação.

Tanto é
Que não sei o fuso horário;
O dia, o mês e o ano em que estou pulsando.
Fiquei atemporal, sem medidas e incorpóreo. Intangível.

Tanto é
Que não tenho residência fixa.
Não tenho cadastros. Não tenho verdades.
Carrego somente as sombras que me conspurcaram.

Tanto é
Que já ultrapassei minha permanência,
Diluindo-me em partidas intolerantes à volta.
Não penso e não existo mais. Sou espectro. Fio de vida.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

EU TE DESEJO UM SONHO


EU TE DESEJO UM SONHO
Oswaldo Antônio Begiato

Desejos são coisas simples:

Andar de mãos dadas no meio da noite,
Fazê-la parecer nunca terminar
Enquanto estrelas travessas nos espiam
Remexendo com suas pontas ligeiras
Nossos corações distraídos;

Colher flores amarelas amadurecidas no campo,
Ataviar teus cabelos longos e leves
Enquanto o vento os toca com suavidade
Embalando nossas secretas
Vontades de perdição eterna...

Sonhos, porém, são mais complexos;
Eu por exemplo sonho te fazer feliz.

Viu como é complexo?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

VIAGEM


VIAGEM
Oswaldo Antônio Begiato

Que praias selvagens são essas
onde tuas curvas ostentam
despudores?

Que matas virgens são essas
onde tuas vergonhas delatam
indiscrições?

Que desertos abismáticos são esses
onde meus destinos se precipitam
suicidamente?

Que montanhas íngremes são essas
onde minhas mãos serpenteiam
cheias de malícia?

Que lugares fascinantes são esses
delicadamente tatuados em teu corpo
amorenado?

Onde ficam esses lugares inóspitos?
Eu preciso, mulher, conhecê-los
urgentemente!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

TIROCÍNIO


TIROCÍNIO
Oswaldo Antônio Begiato

Aprendi com
as coisas novas,
a compreender
as pessoas velhas.
E aprendi com
as pessoas velhas
a compreender
as coisas novas.

Aprendi com
os homens céticos,
a ter uma fé feroz.
E aprendi com
o fanatismo desmedido
que a descrença
nasce nas crianças
ao lhes ser negadas,
estupidamente, as fantasias
quando as ilusões
lhes são mais necessárias.

Aprendi com
as privações me impostas,
em nome de uma felicidade
assustadora,
a somente ter direito
à felicidade
o dia em que,
com meus olhos
encharcados,
minhas mágoas
forem maiores
que meus sonhos.

Aprendi com
minhas quedas
a suportar a dor
física de meu corpo
porque as feridas
perspécticas d’alma
doem mais,
e sangram
um sangue perene
que não as deixa
estancarem.

Aprendi com a vida
que a vida é breve;
que não há nela
sentido algum
além da brevidade.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ABRAÇADO PELO MEDO


ABRAÇADO PELO MEDO
Oswaldo Antônio Begiato

Quero trocar essa trincheira onde me colocaram
Menino ainda, com o coração farejando seus rumos,
Por uma bandeira branca na ponta de meu fuzil.

Quero trocar essa farda manchada com o sangue,
Extirpado de minha pele contaminada furtadamente,
Por um terno risca de giz com uma orquídea na lapela.

Em tua boca cálida quero provar um tango vermelho.

Meu Deus, não suporto essa fé pálida e essa luta pávida!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

LUA MIÚDA


LUA MIÚDA
Oswaldo Antônio Begiato

Mais do que
qualquer coisa,
nesta minha vida
de hospedeiro,
queria te amar
ardentemente
com minhas portas
escancaradas
e minhas janelas
descortinadas.

Mas tu és estrela
e eu lua miúda.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?


SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?
Oswaldo Antônio Begiato

Zelador, queria cultivar um jardim encantador
cheio de rosas perfumadas e distraídas,
- amarelas e promíscuas -
cheio de cravos etéreos e exibidos,
- escarlates e apaixonados -
cheio de violetas pequenas e atrevidas,
- brancas e meigas.

Cheio de flores da idade que nascem no verso do tempo.
Cheio de flores que não se cheira com segundas intenções.

Sonhador, queria inventar um bailar encantador,
cheio de valsas a seus pés suaves e lépidos,
- sonho de bailarino -
cheio de tangos a seus quadris sensuais e curvos,
- sonho de amante -
cheio de danças a seu ventre livre e inocente,
- sonho de dançador.

Cheio dos passos que aprisionam os sonhos e me fazem teu anjo.
Cheio dos passos imprudentes com os quais zelo pelas tuas asas.

E com as mãos cheias de flores, queria tirar-lhe para dançar;
para dançar em teus braços longos e atemporais.
Mas, como sabes bem, sou bobo. Sou tímido. Perdoe-me.
Por favor, tire-me tu, senhorita, para dançar!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

INCÔNSCIO


INCÔNSCIO
Oswaldo Antônio Begiato

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos inversos
deixando-os, para quem os vê de fora,
parecidos com a ilusória linha reta
por onde caminham nossos pés tortos,
por onde caminham os desejos de nossos corpos.

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos erros
a ponto de parecermos a retidão dos profetas,
legada desde o princípio dos tempos
por nossos deuses externos,
quando ainda não existiam pecados veniais; nem mortais.

Há pessoas que nos amam intensamente;
e nem Deus, com toda sua onisciência,
sabe o porquê.

Essas pessoas merecem a nossa mais inalienável gratidão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

PURA E SIMPLES


PURA E SIMPLES
Oswaldo Antônio Begiato

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro da tua inusitada alma
dizer que você é mais bonita
do que o avental pintado à mão
que minha mãe colocava aos domingos,
quando se preparava para fazer o nosso almoço,
em frente ao fogão à lenha.
Foi minha primeira visão de suavidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de tuas meiguices raras
dizer que você é mais bonita
do que a gravata borboleta azul marinho
que meu pai, orgulhoso de sua fé
e orgulhoso da fé que imaginou que eu tivesse,
enfeitou meu pescoço
quando fiz a primeira comunhão.
Foi minha primeira visão de santidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus lugares ocultos
dizer que você é mais bonita
do que a doída canção “Santa Lucia”
que meu avô ouvia sua gente cantar nos casamentos
e chorava e soluçava e se lembrava da Itália
de onde tinha partido muito moço com o coração partido.
Foi minha primeira visão de saudade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus olhos rimados
dizer que você é mais bonita
do que o soneto de Vinícius de Moraes
com que minha primeira namorada,
equivocadamente apaixonada,
fez a dedicatória no livro que me deu de presente,
quando demos o nosso primeiro beijo.
Foi minha primeira visão de eternidade!

Mas escolhi dizer:
- Você é linda!
Puramente.

domingo, 2 de agosto de 2009

AMOR ALÉM


AMOR ALÉM
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu quis te amar de um modo diferente;
Diferente de como sempre te amei.
Quis te amar modestamente. Despojado de todas minhas coisas.
Despojado de meus versos despudorados,
De minhas rimas enlouquecidas.

Hoje eu quis te amar
Simplesmente, como pombas,
No mais singelo dos vôos;
Intemporalmente, como pedras polidas
Que a água frágil acariciou por milênios.

Quis um amor desses que a história grava
Nas memórias mais amnésicas e distraídas
Com fios d’ouro indeléveis,
Com despercebidas entregas,
Com pungentes sentimentos...

Hoje eu quis te amar de um modo diferente.
Sem os dentes com os quais sempre lhe mordi a presença,
Sem flores insossas com as quais sempre enfeitei a entrada de seu corpo,
Sem o céu cheio das estrelas falsas que nele acendi para te iluminar,
Sem perfumes insontes
Na nossa pele, nos nossos poros, nas nossas veias, no nosso juízo;
Sem seios divididos ao meio pelo mar morto,
Sem véus impávidos escondendo a paúra.
Sem palavras bonitas, sem palavras difíceis. Sem palavras.
Sem espelhos convexos que invertem as imagens magras de nossos desejos.
Sem olhares, sem segredos, sem vestidos vermelhos, sem projetos.
Sem passado, sem princípio.
Sem presente, sem instantes.
Sem futuro, sem eternidade.

Apenas quis hoje te amar de um modo diferente.
Modestamente, quis te amar.

E tu vieste envolta em uma luz tão incandescente,
Tão cheia de coisas que em ti guardaste pra mim a vida inteira,
Que mais do que te amar diferente e perdidamente
Morri por ti. Morri repleto de ti. Morri somente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

TODOS OS DIAS


TODOS OS DIAS
Oswaldo Antônio Begiato

Penso como homem;
Sinto como menino.

Faço como homem;
Sonho como menino.

Olho como homem;
Amo como menino.

Luto como homem;
Choro como menino.

Morro como homem;
Broto como menino.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ALEITAÇÃO MATERNA


ALEITAÇÃO MATERNA
Oswaldo Antônio Begiato

e porque é branco
o leite materno
os seios oferecem
à boca miúda
e ávida por uma vida longa
todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

a
lei
t
ação
ma
terna

e porque são maternos
os seios nus
sem serem nus
oferecem
o leite
dádiva materna da vida
anunciado ainda no quarto
pelo parto

ele nunca é fraco
ele nunca é parco

ele é terno
ele é materno
ele é brando
ele é branco

o leite é terno e materno e brando e branco

e porque é branco
sempre
sempre
sempre...
tem todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

e porque é materno
sempre
sempre
sempre ...
a vida se esconde nele
como que a brincar
de eternidade
de eterna idade

terça-feira, 14 de julho de 2009

ENRUBESCIDO


ENRUBESCIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Era alvorejar no campo.
No ar um forte desejo de vôo se espalhava com a primavera.
O dia se mantinha adormecido,
cinza e frio;
sem sinos,
sem pincéis
e sem fornalhas.

O sol se ocupava em acariciar as outras faces da terra
onde os rios não se congelam e as sombras se multiplicam.

O beija-flor
- menino leve no meio de tão brusco abandono -
olhava a distância sem pensamento algum.
Onde estariam as flores de outrora?
Onde estariam as luzes da aurora?
Onde estaria o passar das horas?

Foi quando a mais delicada das orquídeas
aquecida pelas fornalhas do desejo intenso,
cheia de pétalas voláteis extraídas dos esplendores,
sem pudores,
e a alma pairadora em completa nudez
postou-se ao lado dele, toda promissora,
sob o repique brônzeo dos sinos,
enchendo-lhe os olhos de distâncias
e de asas seus pensamentos.

O beija-flor
enternecido de beijos e flores,
pejou-se todo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

FORMOSA


FORMOSA
Oswaldo Antônio Begiato

Minha formosa menina,
Deste teu amado que se fascina
Leva os tolos sonhos, as vãs fantasias,
As ricas notas e as graves melodias.

Minha formosa princesa,
Primeira flor no paraíso acesa,
A ti entrego, manso, meu corpo torto;
De ti faço meu iniludível porto.

Minha formosa donzela,
Vento sereno e firme em minha vela,
Em ti navegam retos meus suplícios;
Para ti ofereço os meus sacrifícios.

Minha formosa amante,
Para quem nunca serei bastante,
É em ti que habitam meus extravios;
É contigo que preencho meus vazios.

Minha formosa escolhida,
Por minha estrela guia recolhida,
Quero-te bela navegando meu mar;
Quero-te infiel esgotando meu amar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu não queria mais chorar. Nunca mais!
Estou muito velho para chorar. Esgotei, com o tempo, minhas lágrimas.
Mas quando vejo estou chorando.
Choro, mesmo sem lágrimas, porque chorar é preciso.

Sou um produto inacabado. Incapaz de ser saudável.
Incapaz de ser inofensivo.
Vã foi minha vida!
Tão cheia de segredos,
de cadeados,
de senhas,
de mistérios,
de combinações,
de chaves...

Minha vida foi tão cheia de encruzilhadas e tão escassa de retas.

Será que o tempo foi muito e o amor foi pouco,
ou será que o arrependimento por tão pouco amor
fez as pessoas me mimarem tanto?

Será que tenho direito de sonhar?
Toda vez que sonhei apanhei:
- Ou porque tinha sonhado exageros
ou porque não sonhei os sonhos que queriam.

Duro mesmo é se olhar no espelho e ver
que a curva da vida está em declínio,
não no que diz respeito ao tempo,
mas no que diz respeito aos sonhos que não tenho mais.

No entanto, resta-me um pequeno sonho
que escondo sob meu travesseiro para que não seja roubado:
- Eu gostaria que todos os portões fossem abertos
e que ninguém tocasse em nada que é meu;
mas que se houvessem toques,
fossem eles uma espécie de mágica fraterna,
que fizesse tudo virar flor.

Ou beija flor.
Ou borboleta.
Ou inocência...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

INESPERADO


INESPERADO
Oswaldo Antônio Begiato

Se o teu coração
imenso e veloz
Puder perdoar meu coração
Pequenino e trôpego
Peço perdoar-me
não pelo medo que tive de sofrer
Mas pela ousadia que tive de te amar
Em todas tuas dimensões
Com todas minhas proporções.

Com minh’alma
em contentamentos
Cobri,
com meu norte e meu sul,
teus cantos todos
Porque foram tão singelas
e perenes
As esperanças que tatuaste
em minha solidão:

- O vaso vazio à espera de flores;
Flores repletas
bordadas dentro dos olhos.
- O livro leve à espera de poesias;
Poesias meigas
semeadas por entre lírios.
- A noite nobre à espera de estrelas;
Estrelas meninas
vestidas de cor de rosa.
- A taça tosca à espera do tinto vinho;
Vinho ardente
fermentado no céu da boca.
- A canção límpida à espera da voz;
Voz metálica
apurada nas catedrais.
- O barco brando à espera da tormenta;
Tormenta sem calmaria para amar...
Para te amar!

E nossas bocas bobas
à espera do beijo
- Beijo longo perdido na brevidade da paixão -
É o filme sem cortes
à espera de um final feliz;
Final feliz escrito pelas mãos da própria Felicidade.

domingo, 28 de junho de 2009

MAIS UMA TENTATIVA DE CRÔNICA


DIANTE DE SI MESMA
Oswaldo Antônio Begiato

Só, diante de si mesma, se olhava longamente no espelho que a lançava em um mundo feito de inversões. Ao fundo, a cama desarrumada. Nas dobras do lençol se ajeitavam os desarranjos de uma noite de insônia e solidão. As cortinas trepidavam com a brisa; despertavam desesperadamente recordações indesejáveis em sua alma tão feminina e tão sensível e tão distante.

Uma réstia de sol iluminava o porta-retrato fingidamente esquecido sobre a cabeceira. No porta-retrato o corpo do homem não permitia o abraço; inertes, os olhos denunciavam uma presença intocável. Insensível. Uma imagem plana e sem movimentos, onde apenas o tempo se movia ali, deixando na face única e máscula um amarelo indelével.

No ar pairava o perfume que os anos diluíram, mas a memória, teimosamente, não. Nem se diluiu a ilusão de sentir o leve pousar da mão nos cabelos ainda castanhos, ainda que o pouso se fizesse breve. Breve como um suspiro. Carinho frágil, sempre negado.

O espelho retratava tudo mudo e complacente. Havia nele um vácuo inconquistável. Havia na mulher um vácuo inquestionável. Uma espécie de porta se abria sem muitos ruídos, mas que não permitia a entrada do futuro nem permitia a saída do passado. Prisão perpétua.

Que falta lhe faziam agora a formatura do filho que nunca nasceu, a missa de bodas de prata que nunca aconteceu, o abraço do neto que nunca veio... Os vácuos se multiplicavam dentro do espelho. O Espelho era outro mundo. Outra vida. Outra essência. Nos vácuos que se sucediam, outra história acontecia, ainda que somente no pensamento.

Porém, o espelho também era uma imagem plana e sem movimentos que se dobrava ao inverso para amenizar a crua realidade do tempo que passou, sem deixar muitos vestígios dos sonhos jamais formatados, e tentar apagar as dores e as imagens que se perpetuam na retina cansada de olhar os inversos.

Em vão. O exagero da complacência não permitiu ao espelho notar nele a imagem inversa dos fios brancos de cabelo abraçados à escova.

Abraçados teimosamente à escova posta diante dele.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

VILEZA


VILEZA
Oswaldo Antônio Begiato

Venho,
profundamente indignado,
à porta de tua casa para chorar,
não o leite derramado
(este a natureza de algum modo absorverá)
mas a alma vilipendiada,
esta sim irrecuperável.

terça-feira, 16 de junho de 2009

MEU NOME


MEU NOME
Oswaldo Antônio Begiato

A vogal “o” do meu nome me faz masculino.
Gosto de ser homem feito.

Ele começa com ela e com ela termina;
a tem bem em seu centro acentuada circunflexamente:
- É a cumeeira do telhado
porque o meu nome é minha morada.

Suas vogais masculinas são as janelas
por onde enxergo as paisagens externas:
- Elas moldam a alma que ainda não é minha,
iluminam as minhas avenidas internas
e fertilizam meus canteiros inacabados.

Meu nome me protege. Meu nome me expõe.
Meu nome me esconde. Meu nome me delata.

Dentro do meu nome guardo todas as sílabas
que penso me pertencerem, mas que não me pertencem.
Guardo um passado que herdei cheio de honras,
um futuro que tento legar inutilmente
e entre eles um presente cuja utilidade não sei ao certo.

Dentro de meu nome guardo todas as poesias:
- As que já escrevi e que não são poesias e as que jamais escreverei.

Meu nome é minha Caixa de Pandora.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

VÍCIO SUPREMO


VÍCIO SUPREMO
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo.

Estou irremediavelmente apaixonado.
Eu te amo e não sei o que fazer com esse sentimento.
Tudo tão intrigante! Tudo tão sacrossanto! Tudo tão simples:
- Amar.
Sinto o Universo cabendo dentro da mais ingênua declaração de amor:
- Eu te amo! É ou não é um Universo?

Nem mais consigo comer. Pensar em ti me sustenta.
Estou sólido. Colunas gregas: Dórica, Jônica e Coríntia.
Nem mais consigo dormir. Sonho acordado.
Estou viajando. Sonhos muitos: lúcidos, místicos, canalhas...
Vivo embriagado de ti. Sou boêmio de ti e tu és meu vício supremo.
Enquanto me embriago com tuas formas límpidas
vou decifrando a fórmula de um novo perfume,
o perfume de tua insubstituível presença.

Juntos construímos, em meus novos limites,
vitrais, altares, paramentos, flores, sinos...
...enquanto isso te ofereço preces, dádivas, horas, eternidades...

O amor me torna frágil...
...e frágil me ponho a te amar mais ainda
porque, preciosa, tu te tornas minha mais precisa precisão.

Te amar é o Universo todo
contido na mais pequenina declaração de amor:
- Eu te amo! Nada mais se faz necessário sentir.

Há nisso um templo e um tempo que só nós dois podemos entender.

domingo, 7 de junho de 2009

SOBRETUDO


SOBRETUDO
Oswaldo Antônio Begiato

Quero te amar
Nas palavras que tu vais,
Pacientemente, me revelando,
Mas, sobretudo, na surdez
Com que interrompes minha fala.

Quero te amar
Na presença com a qual
Vais me consumindo,
Mas, sobretudo, na ausência
Que me dilacera.

Quero te amar
No amor que tu me devotas,
Com solicitude,
Mas, sobretudo, na indiferença
Que me vilipendia.

Quero te amar
Nas verdades que,
Maliciosamente, me escondes,
Mas, sobretudo, nas mentiras
Que me deixam nu.

Quero te amar
Nas cheganças inesperadas
Que me aquecem,
Mas, sobretudo, nas esperas
Que me torturam.

Quero te amar
Sempre que quiseres
Que eu te ame,
Mas, sobretudo,
Quando não quiseres.

Quero te amar
Sempre que eu puder
Te amar,
Mas, sobretudo,
Quando eu não puder.

terça-feira, 26 de maio de 2009

IRRACIONAL


IRRACIONAL
Oswaldo Antônio Begiato

E tu, que de tão irracional,
Me veio amar assim tão bela,
Tão intensamente insensata,
Tão espantosamente desregrada.
Tão menina. Tão frágil. Tão volúvel.
Tão corajosa. Tão intrépida.

Dizes-me que eu estou sempre cheio de razão,
Mas dominado pelo medo.
É verdade. Razão e medo são irmãos
Gerados em uma superfecundação heteropaternal:
- Engano e Costume
Aproveitaram-se dos óvulos férteis da insanidade.

A razão enfeia as pessoas.
Quanto mais irracional, mais belas ficam.

Eu cheio de razões e medos fiquei tolo.
Eles me levaram a um enclausuramento de mim mesmo.
Fiquei feio. Fiquei torto.

Bonito é o irracional. Vou ser insensato.
É a insensatez que se engravida dos amores mais belos.

Por isso não chores.
Quero-te olhando, não te quero chorando.
Desejo que possas sempre estar com os olhos livres
Para poder olhar. Poder me olhar.
Olhos livres não se fazem com lágrimas.

Quero, a partir de agora, ser a tua paisagem mais irracional.

terça-feira, 12 de maio de 2009

O POETA EM SI


O POETA EM SI
Oswaldo Antônio Begiato

Enquanto vela
Me velas.
Enquanto chama
Me chamas.

Defunto obtuso de mim mesmo,
Lacro minha boca cheia de perguntas
Com um silêncio quase eterno.

Há, contudo, um vulcão dentro de mim
Que se torna eruptivo quando tua boca
Toca levianamente este meu silêncio.

E teus beijos impregnados de fogo,
Sob as luzes da vela quase impassível
Vindas da chama quase efêmera,
Ressuscitam os versos que não posso enterrar.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

SEREIA



SEREIA
Oswaldo Antônio Begiato

Canta-me!

Se me cantares
prometo,
com as mais ternas palavras
que eu puder recolher
no poço dos desejos,
jurar-te amor eterno.

Apenas canta-me,
porque encantado
já estou.

sábado, 25 de abril de 2009

AMOR SEM SENTIDO


AMOR SEM SENTIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Tu me pedes que eu seja.

Me tomo pelas minhas mãos,
Já cansadas de tantas conduções,
Vou lá e me transformo,
Com o corpo em carne viva,
No que de mais belo posso ser.
Depois, sem mais nem menos, queres que eu deixe de ser
Todos os caminhos que abri.
E lá vou eu, sem eira nem beira, povoar ruas escuras.
- Jogo fora todas as minhas valiosas experiências.

Tu me pedes que eu tenha.

Andarilho sem bens nem heranças,
Deixo as ruas por onde existo,
Vou lá e me empenho,
Com os nervos à flor da pele,
Para ter o que de mais caro posso ter.
Aí me pedes que eu me livre
De todos os sorrisos que inventei.
E lá vou eu, pobre de espírito, buscar o meu tormento.
- No lixo ficam as tantas coisas que tanto me custaram.

Tu me pedes que eu faça,

E eu, feito o Corcunda de Notre Dame,
Apaixonado por uma Esmeralda insensível,
Vou lá e me mutilo,
Das tripas então faço o coração,
E te conquisto o mais belo dos mundos.
Então, descontente e infeliz me mandas desfazer
Todas as plásticas que me serenaram.
E lá vou eu, médico e monstro, suturar todas as feridas.
- Torno-me a cicatriz exata de um amor sem sentido.

Haja paciência!

segunda-feira, 13 de abril de 2009

LENDAS PERDIDAS


Tela de Leonid Afrenov

LENDAS PERDIDAS
Oswaldo Antônio Begiato

É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam do mundo
Meu mundo azul e coberto de quimeras.

Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.

terça-feira, 7 de abril de 2009

DECLARAÇÃO DE DESEJO


DECLARAÇÃO DE DESEJO
Oswaldo Antônio Begiato

Minha querida e minha amada,
enamorado de ti mulher
e de teu corpo repleto de cio
ardo em febre,
sonho contigo e não te deixo saber.

De um lado do alforje
que trago nos ombros
(o lado virado para a terra)
guardo tantas estrelas,
recolhidas de minhas alucinações,
que possível seria inventar um céu
só para acolher teu corpo desvelado.

Do outro lado do alforje
(o lado virado para o mar)
guardo tantas tormentas
e tantos raios e tantos relâmpagos
- eles criam meus desejos
consumados em fogo eterno -
que seriam capazes de me deixar louco
e virar-me ao avesso
enquanto que enfebreço
com o cheiro de fêmea que exala
o teu corpo tenro e arrepiado.

Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.

Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.

Toda minha volúpia incandescente
Se faz acabada quando doce me permites,
com meus dedos bobos e trêmulos
E minha língua ágil e salivada,
Te vasculhar as fendas mais lúbricas.

Todos meus ímpetos insopitáveis
São amainados pelo teu ventre
Que acolhe meu sêmem
Quando, com meu sexo rijo,
Te penetro como homem
E te amo como anjo saciado.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

SEMEADORES DE DESVELOS


SEMEADORES DE DESVELOS
Oswaldo Antônio Begiato

Há dias em que
o mundo cheira mal.

As notícias cheiram mal.
Os valores cheiram mal.
As atitudes cheiram mal.
Os homens cheiram mal.

Há dias em que
há no ar um forte cheiro
de desesperança.
Há no ar um forte cheiro
de indelicadezas.

Nesses dias
sinto uma saudade imensa
do pé de dama da noite
que minha mãe regava,
toda tardinha,
nos tempos de estiagem
e das mudas de lichia e jabuticaba,
produzindo,
com as quais meu pai
presenteava os amigos
que tinham quintal.

Havia no gesto delicado deles
uma indescritível esperança.

Uma esperança de perfume!

sexta-feira, 27 de março de 2009

OS OLHOS VIVOS DELA


OS OLHOS VIVOS DELA
Oswaldo Antônio Begiato

Ela amava aquele homem
Intensamente.

Passou a vida inteira
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.

A vida inteira
Lavou sua roupa,
Alvejou,
Engomou,
Passou...
... e cuidou do vinco
e do vínculo.

A vida inteira
Preparou sua comida,
Escolheu,
Temperou,
Cozinhou...
...e conservou a louça
e os laços.

A vida inteira
Cortou suas unhas,
Limpou,
Lixou,
Beijou...
... e as recolheu nas entranhas,
às vezes estranhas.

A vida inteira
Amou aquele homem
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.

Contudo,
manteve,
a vida inteira,
os olhos vivos
onde se podia ler
a mais bela
declaração de amor.

E quando ele morreu,
de velho,
Ela morreu em seguida,
de saudades.

Ainda tinha os olhos vivos.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ARRISQUEI-ME EM UMA CRÔNICA - ME PERDOEM


MÃE NOSSA

Tendo sido eu plantado, crescido, florido e amadurecido à sombra da torre de um Santuário dedicado a Nossa Senhora, acredito em Deus, embora quase sempre e diante de tantas coisas por mim incompreendidas julgo-me, até certo ponto, ateu.

Porém, não consigo explicar para o meu coração exigente e vazio a face desse Deus que me faz rezar logo pela manhã quando ainda estou despertando de meus sonhos, e à noitinha quando estou me preparando para adormecer santificado, na esperança de obter sonhos bons.

Rezo tanto por mim como por todas as pessoas do mundo, cujos ombros suportam algum tipo de sacrifício ou sofrimento inexplicáveis. Rezo apenas. Faz algum tempo já que não procuro mais explicações.

Assim, quando me lembro do ensinamento a mim legado, eu menino ainda, de olhos crédulos e alma repleta de culpa, de que somente Deus é onipresente, onipotente e onisciente, caio na tentação de ficar imaginando ser Deus fruto de nosso pensamento humano e frágil.

Ocorre-me então uma idéia fascinante. Quase chego ao convencimento de que há uma grande possibilidade de Deus ser a própria Natureza, ou quem sabe, a Natureza ser o próprio Deus. Já imaginaram um Deus fêmeo? Em vez de Pai, Mãe?

Senão vejamos.

Com a vida, por onde perambulo há mais de meio século, aprendi que a Natureza tudo pode. Se tudo pode é onipotente. É dela todas as formas de milagre que se conhecem, desde os mais simples, como um copo cheio de água ou uma pequena semente se traduzindo em flor, até os mais complexos, como as infinitas combinações do DNA, permitindo a cada ser vivo ter sua única e exclusiva identidade e ter seu próprio pensamento, aproximando-o das raias doces da loucura.

A natureza é onipresente. Fascina-me pensar poder encontrá-la no mesmo copo de água que saciará nossa sede como encontrá-la no cálice da flor que saciará os nossos olhos sedentos de poesia. Assim ela está também presente na combinação do DNA que nos foi destinada e determinou essa nossa loucura santa, a nos encher de tantas incertezas.

E Ela é finalmente onisciente. De tudo sabe. É bem verdade que às vezes custa a se revelar, mas que de tudo sabe , sabe. Sabe quando estamos tristes e nos alimenta os olhos com lágrimas e flores, sabe quando estamos felizes e se derrama sobre nós em sorrisos e esperanças. É Ela a manipuladora do remédio certo para cada dor nossa, para cada amor nosso não correspondido. É Ela a Mestra através da qual aprendemos os caminhos precisos a seguir para cumprir nosso destino. Quando vai chover o céu se escurece. Quando vai esfriar os joelhos enrijem-se. Quando há olhos as flores nascem. E a cada DNA novo uma esperança nova reedita o milagre da criação.

E quando vai acontecer alguma criação, Ela se enfeita toda, e enche nossos olhos de surpresas e encantos.

Fico eu aqui com meus botões, indagando:

Não seria por isso que os indígenas, de quem roubamos e vilipendiamos a terra, certamente mais sábios que nós, já tivessem lá seus deuses com inspiração nessa Natureza?

Catú, o deus outonal; Mutin, o deus da primavera; Peurê, o senhor do verão; Nhará, que preside o inverno...

E quando constato, que nós homens, somos os seus filhos mais ilustres, fico sobremaneira assustado. Porque como filhos mais ilustres, fomos por Ela elevados à condição de anjos. E aí meu coração entende o Arcanjo Miguel e Lúcifer e certo Livro que fala abundantemente deles.
Diz-se nesse Livro que Deus criou inumeráveis anjos com a finalidade de Lhe servirem de mensageiros, mas decidiu colocá-los à prova para ver se eles eram capazes de amá-Lo e respeitá-Lo para sempre. O bando de Lúcifer, querendo tirar, com certeza todos os proveitos possíveis e imagináveis, se rebelou e se tornou a Legião de anjos maus.

Pois é o que somos. Uma grande maioria de anjos bons tratando a Natureza como nossa Mãe e sendo dela mensageiros, amando-a e respeitando-a sobre todas as coisas. E uma pequena minoria de anjos maus que vivem no inferno e querem o inferno para todos, agredindo-a, poluindo suas águas e seu ar, queimando suas florestas, dando mau uso a seus frutos, com o único intuito egoísta de provar serem tão deus quanto Ela, feito Adão no paraíso seduzido pela serpente.

Se me fosse dada a missão de fazer um pedido aos homens de boa vontade, pediria a cada um, que fizesse todo dia uma prece curtinha. Mas que a fizesse com devoção profunda, o coração cheio de ternura e o espírito de preservação sincero. Uma oraçãozinha pequenina inspirada em outra oração que o mundo inteiro já reza. É assim:

“Mãe Nossa, Mãe Natureza que estais aqui, respeitado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O ar nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas agressões, assim como nós perdoamos a quem nos tem agredido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal da ganância. Amém.”

Glória ao Ar Puro, à Água cristalina, e ao Alimento bem distribuído, assim como era no princípio, agora e sempre.