quinta-feira, 24 de setembro de 2009

EU TE DESEJO UM SONHO


EU TE DESEJO UM SONHO
Oswaldo Antônio Begiato

Desejos são coisas simples:

Andar de mãos dadas no meio da noite,
Fazê-la parecer nunca terminar
Enquanto estrelas travessas nos espiam
Remexendo com suas pontas ligeiras
Nossos corações distraídos;

Colher flores amarelas amadurecidas no campo,
Ataviar teus cabelos longos e leves
Enquanto o vento os toca com suavidade
Embalando nossas secretas
Vontades de perdição eterna...

Sonhos, porém, são mais complexos;
Eu por exemplo sonho te fazer feliz.

Viu como é complexo?

domingo, 20 de setembro de 2009

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

VIAGEM


VIAGEM
Oswaldo Antônio Begiato

Que praias selvagens são essas
onde tuas curvas ostentam
despudores?

Que matas virgens são essas
onde tuas vergonhas delatam
indiscrições?

Que desertos abismáticos são esses
onde meus destinos se precipitam
suicidamente?

Que montanhas íngremes são essas
onde minhas mãos serpenteiam
cheias de malícia?

Que lugares fascinantes são esses
delicadamente tatuados em teu corpo
amorenado?

Onde ficam esses lugares inóspitos?
Eu preciso, mulher, conhecê-los
urgentemente!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

TIROCÍNIO


TIROCÍNIO
Oswaldo Antônio Begiato

Aprendi com
as coisas novas,
a compreender
as pessoas velhas.
E aprendi com
as pessoas velhas
a compreender
as coisas novas.

Aprendi com
os homens céticos,
a ter uma fé feroz.
E aprendi com
o fanatismo desmedido
que a descrença
nasce nas crianças
ao lhes ser negadas,
estupidamente, as fantasias
quando as ilusões
lhes são mais necessárias.

Aprendi com
as privações me impostas,
em nome de uma felicidade
assustadora,
a somente ter direito
à felicidade
o dia em que,
com meus olhos
encharcados,
minhas mágoas
forem maiores
que meus sonhos.

Aprendi com
minhas quedas
a suportar a dor
física de meu corpo
porque as feridas
perspécticas d’alma
doem mais,
e sangram
um sangue perene
que não as deixa
estancarem.

Aprendi com a vida
que a vida é breve;
que não há nela
sentido algum
além da brevidade.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

ABRAÇADO PELO MEDO


ABRAÇADO PELO MEDO
Oswaldo Antônio Begiato

Quero trocar essa trincheira onde me colocaram
Menino ainda, com o coração farejando seus rumos,
Por uma bandeira branca na ponta de meu fuzil.

Quero trocar essa farda manchada com o sangue,
Extirpado de minha pele contaminada furtadamente,
Por um terno risca de giz com uma orquídea na lapela.

Em tua boca cálida quero provar um tango vermelho.

Meu Deus, não suporto essa fé pálida e essa luta pávida!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

LUA MIÚDA


LUA MIÚDA
Oswaldo Antônio Begiato

Mais do que
qualquer coisa,
nesta minha vida
de hospedeiro,
queria te amar
ardentemente
com minhas portas
escancaradas
e minhas janelas
descortinadas.

Mas tu és estrela
e eu lua miúda.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?


SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?
Oswaldo Antônio Begiato

Zelador, queria cultivar um jardim encantador
cheio de rosas perfumadas e distraídas,
- amarelas e promíscuas -
cheio de cravos etéreos e exibidos,
- escarlates e apaixonados -
cheio de violetas pequenas e atrevidas,
- brancas e meigas.

Cheio de flores da idade que nascem no verso do tempo.
Cheio de flores que não se cheira com segundas intenções.

Sonhador, queria inventar um bailar encantador,
cheio de valsas a seus pés suaves e lépidos,
- sonho de bailarino -
cheio de tangos a seus quadris sensuais e curvos,
- sonho de amante -
cheio de danças a seu ventre livre e inocente,
- sonho de dançador.

Cheio dos passos que aprisionam os sonhos e me fazem teu anjo.
Cheio dos passos imprudentes com os quais zelo pelas tuas asas.

E com as mãos cheias de flores, queria tirar-lhe para dançar;
para dançar em teus braços longos e atemporais.
Mas, como sabes bem, sou bobo. Sou tímido. Perdoe-me.
Por favor, tire-me tu, senhorita, para dançar!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

INCÔNSCIO


INCÔNSCIO
Oswaldo Antônio Begiato

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos inversos
deixando-os, para quem os vê de fora,
parecidos com a ilusória linha reta
por onde caminham nossos pés tortos,
por onde caminham os desejos de nossos corpos.

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos erros
a ponto de parecermos a retidão dos profetas,
legada desde o princípio dos tempos
por nossos deuses externos,
quando ainda não existiam pecados veniais; nem mortais.

Há pessoas que nos amam intensamente;
e nem Deus, com toda sua onisciência,
sabe o porquê.

Essas pessoas merecem a nossa mais inalienável gratidão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

PURA E SIMPLES


PURA E SIMPLES
Oswaldo Antônio Begiato

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro da tua inusitada alma
dizer que você é mais bonita
do que o avental pintado à mão
que minha mãe colocava aos domingos,
quando se preparava para fazer o nosso almoço,
em frente ao fogão à lenha.
Foi minha primeira visão de suavidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de tuas meiguices raras
dizer que você é mais bonita
do que a gravata borboleta azul marinho
que meu pai, orgulhoso de sua fé
e orgulhoso da fé que imaginou que eu tivesse,
enfeitou meu pescoço
quando fiz a primeira comunhão.
Foi minha primeira visão de santidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus lugares ocultos
dizer que você é mais bonita
do que a doída canção “Santa Lucia”
que meu avô ouvia sua gente cantar nos casamentos
e chorava e soluçava e se lembrava da Itália
de onde tinha partido muito moço com o coração partido.
Foi minha primeira visão de saudade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus olhos rimados
dizer que você é mais bonita
do que o soneto de Vinícius de Moraes
com que minha primeira namorada,
equivocadamente apaixonada,
fez a dedicatória no livro que me deu de presente,
quando demos o nosso primeiro beijo.
Foi minha primeira visão de eternidade!

Mas escolhi dizer:
- Você é linda!
Puramente.

domingo, 2 de agosto de 2009

AMOR ALÉM


AMOR ALÉM
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu quis te amar de um modo diferente;
Diferente de como sempre te amei.
Quis te amar modestamente. Despojado de todas minhas coisas.
Despojado de meus versos despudorados,
De minhas rimas enlouquecidas.

Hoje eu quis te amar
Simplesmente, como pombas,
No mais singelo dos vôos;
Intemporalmente, como pedras polidas
Que a água frágil acariciou por milênios.

Quis um amor desses que a história grava
Nas memórias mais amnésicas e distraídas
Com fios d’ouro indeléveis,
Com despercebidas entregas,
Com pungentes sentimentos...

Hoje eu quis te amar de um modo diferente.
Sem os dentes com os quais sempre lhe mordi a presença,
Sem flores insossas com as quais sempre enfeitei a entrada de seu corpo,
Sem o céu cheio das estrelas falsas que nele acendi para te iluminar,
Sem perfumes insontes
Na nossa pele, nos nossos poros, nas nossas veias, no nosso juízo;
Sem seios divididos ao meio pelo mar morto,
Sem véus impávidos escondendo a paúra.
Sem palavras bonitas, sem palavras difíceis. Sem palavras.
Sem espelhos convexos que invertem as imagens magras de nossos desejos.
Sem olhares, sem segredos, sem vestidos vermelhos, sem projetos.
Sem passado, sem princípio.
Sem presente, sem instantes.
Sem futuro, sem eternidade.

Apenas quis hoje te amar de um modo diferente.
Modestamente, quis te amar.

E tu vieste envolta em uma luz tão incandescente,
Tão cheia de coisas que em ti guardaste pra mim a vida inteira,
Que mais do que te amar diferente e perdidamente
Morri por ti. Morri repleto de ti. Morri somente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

TODOS OS DIAS


TODOS OS DIAS
Oswaldo Antônio Begiato

Penso como homem;
Sinto como menino.

Faço como homem;
Sonho como menino.

Olho como homem;
Amo como menino.

Luto como homem;
Choro como menino.

Morro como homem;
Broto como menino.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ALEITAÇÃO MATERNA


ALEITAÇÃO MATERNA
Oswaldo Antônio Begiato

e porque é branco
o leite materno
os seios oferecem
à boca miúda
e ávida por uma vida longa
todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

a
lei
t
ação
ma
terna

e porque são maternos
os seios nus
sem serem nus
oferecem
o leite
dádiva materna da vida
anunciado ainda no quarto
pelo parto

ele nunca é fraco
ele nunca é parco

ele é terno
ele é materno
ele é brando
ele é branco

o leite é terno e materno e brando e branco

e porque é branco
sempre
sempre
sempre...
tem todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

e porque é materno
sempre
sempre
sempre ...
a vida se esconde nele
como que a brincar
de eternidade
de eterna idade

terça-feira, 14 de julho de 2009

ENRUBESCIDO


ENRUBESCIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Era alvorejar no campo.
No ar um forte desejo de vôo se espalhava com a primavera.
O dia se mantinha adormecido,
cinza e frio;
sem sinos,
sem pincéis
e sem fornalhas.

O sol se ocupava em acariciar as outras faces da terra
onde os rios não se congelam e as sombras se multiplicam.

O beija-flor
- menino leve no meio de tão brusco abandono -
olhava a distância sem pensamento algum.
Onde estariam as flores de outrora?
Onde estariam as luzes da aurora?
Onde estaria o passar das horas?

Foi quando a mais delicada das orquídeas
aquecida pelas fornalhas do desejo intenso,
cheia de pétalas voláteis extraídas dos esplendores,
sem pudores,
e a alma pairadora em completa nudez
postou-se ao lado dele, toda promissora,
sob o repique brônzeo dos sinos,
enchendo-lhe os olhos de distâncias
e de asas seus pensamentos.

O beija-flor
enternecido de beijos e flores,
pejou-se todo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

FORMOSA


FORMOSA
Oswaldo Antônio Begiato

Minha formosa menina,
Deste teu amado que se fascina
Leva os tolos sonhos, as vãs fantasias,
As ricas notas e as graves melodias.

Minha formosa princesa,
Primeira flor no paraíso acesa,
A ti entrego, manso, meu corpo torto;
De ti faço meu iniludível porto.

Minha formosa donzela,
Vento sereno e firme em minha vela,
Em ti navegam retos meus suplícios;
Para ti ofereço os meus sacrifícios.

Minha formosa amante,
Para quem nunca serei bastante,
É em ti que habitam meus extravios;
É contigo que preencho meus vazios.

Minha formosa escolhida,
Por minha estrela guia recolhida,
Quero-te bela navegando meu mar;
Quero-te infiel esgotando meu amar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu não queria mais chorar. Nunca mais!
Estou muito velho para chorar. Esgotei, com o tempo, minhas lágrimas.
Mas quando vejo estou chorando.
Choro, mesmo sem lágrimas, porque chorar é preciso.

Sou um produto inacabado. Incapaz de ser saudável.
Incapaz de ser inofensivo.
Vã foi minha vida!
Tão cheia de segredos,
de cadeados,
de senhas,
de mistérios,
de combinações,
de chaves...

Minha vida foi tão cheia de encruzilhadas e tão escassa de retas.

Será que o tempo foi muito e o amor foi pouco,
ou será que o arrependimento por tão pouco amor
fez as pessoas me mimarem tanto?

Será que tenho direito de sonhar?
Toda vez que sonhei apanhei:
- Ou porque tinha sonhado exageros
ou porque não sonhei os sonhos que queriam.

Duro mesmo é se olhar no espelho e ver
que a curva da vida está em declínio,
não no que diz respeito ao tempo,
mas no que diz respeito aos sonhos que não tenho mais.

No entanto, resta-me um pequeno sonho
que escondo sob meu travesseiro para que não seja roubado:
- Eu gostaria que todos os portões fossem abertos
e que ninguém tocasse em nada que é meu;
mas que se houvessem toques,
fossem eles uma espécie de mágica fraterna,
que fizesse tudo virar flor.

Ou beija flor.
Ou borboleta.
Ou inocência...