quarta-feira, 20 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama o vaso solitário
no parapeito da janela
a flor colhida com mãos brancas,
em uma sexta de primavera,
à beira da fonte
onde o arco-íris
costuma revelar
seus segredos
lançar moedas
e fazer pedidos.
 
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a cigarra,
de dentro do mundo
intocável da árvore,
o piano afinado
que toca ao longe,
numa sexta de verão,
músicas de Antônio Carlos
Brasileiro
de Almeida Jobim.
 
 

sábado, 16 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a artista,
que chega em casa
do trabalho,
cansada de esculpir
o mármore
em uma sexta de arte,
o homem  devotado
que a recebe com flores,
janta, velas e vinho
sobre a mesa
esculpida por ele
sob a lua cheia.

quinta-feira, 7 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como se ama
certas coisas perdidas
que aparecem
numa sexta de sol
tomando o lugar
da tristeza.

sexta-feira, 1 de março de 2013

É CHEGADO MARÇO

É CHEGADO MARÇO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eis que chega março
com suas águas
pondo fim ao verão
e você se pondo
a urinar na minha alma
para delimitar seu território.
 
Mas saiba que sou um país
sem território, sem bandeira,
sem hino nacional
e sem capital.
 
Sou um país anárquico
onde ninguém manda
e ninguém obedece.
 
Onde as flores nascem
no meio do leite e do mel
e os rios falam a linguagem líquida das águas.
 
Onde as montanhas se erguem
com suas torres e suas rochas
fazendo sombra sobre as árvores
e as árvores produzem frutos frescos
que namoram a madrugada
e por ela se umedecem de auroras.
 
Eis que chega março
e com ele um país sem marco zero.
 
Não venha, pois, urinar em minha alma.
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

AUTOCRÍTICA


AUTOCRÍTICA
Oswaldo Antônio Begiato

 
                                         “O mal de quase todos nós
                                     é que preferimos ser arruinados pelo elogio
                                     a ser salvos pela crítica.”
                                                                          Norman Vincent Peale

 

Antes a honesta crítica
ao elogio descabido.

Artistas há
cuja razão
é consumida
pelo fogo da vaidade.

Diante disso
preciso recapitular
as coisas
que ando pensando
a meu respeito.

Besta como sou é bem capaz de me julgar poeta.

 

 

 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

DE ENDEREÇO NOVO

DE ENDEREÇO NOVO
Oswaldo Antônio Begiato

No fim da rua,
passando a quitanda,
há uma casinha branca.
Portas e janelas azuis.
É ali. Entre sem bater.

No quarto a cama com lençol e colcha
(foi Teresa quem lavou,
passou bordou suas iniciais e estendeu);
faça neles as dobras que só seu corpo sabe fazer
e entre as dobras esconda seu perfume.

Quando eu chegar
(fui logo ali escrever com o canivete,
no tronco de uma mangueira,
nosso nome dentro de um coração)
vou lhe dar uma rosa vermelha,
deitar-me na cama junto a teus pés
e em seguida morrer de amor.

Como sempre faço quando mudo meu endereço
(Você bem sabe disso)!
 
 

sábado, 26 de janeiro de 2013

AMOR ETERNO

AMOR ETERNO
Oswaldo Antônio Begiato

Conversa boa
era a conversa do botequim;
eles me perguntavam sobre nós
enquanto riam de satisfação
porque sabiam que você,
de alguma forma, me fazia feliz
e eu,
de alguma outra forma,
lhe fazia feliz...

... ou quase feliz.

Por que será que os botequins estão acabando?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A UM POETA





A UM POETA
Oswaldo Antônio Begiato

Olhe dentro desta cesta de vime
o tanto de palavras
que eu encontrei brotando por aí.

Prove-as.

Os poetas têm o direito
de experimentar
todas as palavras,
até mesmo as mais venenosas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DISPARO

DISPARO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Tu negaste
fogo.
 
No tambor
do meu coração
tenho ainda
duas balas;
uma de prata
outra de mel.
 
Não é possível
que elas
me negarão
também.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

AMANHECIMENTO

AMANHECIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Tem dias
em que descubro
a poesia
logo pela manhã,
e minha boca fica com gosto
de flor e orvalho.
 
Tem dias
em que ela
é que me descobre
logo pela manhã
e me põe totalmente nu
diante de um sol novo.
 
Nesses dias
sinto orgulho
de minha
insignificância.

sábado, 15 de dezembro de 2012

APRENDIZADO

APRENDIZADO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Foi caminhando
de mãos dadas
com você
que minhas mãos
aprenderam com as suas
a arte de semear.
 
Foi caminhando
os mesmos destinos
com você
que meus pés
aprenderam com os seus
a arte de chegar.
 
Foi caminhando
os mesmos impossíveis
com você
que meu coração
aprendeu com o seu
a arte de amar.
 
Para sempre.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

NO MEIO DAS POESIAS UMA CRÔNICA

QUANDO A CONFISSÃO NÃO SE FAZ NECESSÁRIA
Oswaldo Antônio Begiato
 
Sou filho de Milton, engenheiro civil prático, com documento e tudo e que carregou o mundo em sua carcaça velha e alquebrada e de dona Regina, rainha e benzedeira inconsciente de quebranto, erisipela, olho gordo e muito mais coisas que a medicina não consegue alcançar, mas os mistérios sim. Eles se amaram com um amor que nunca se viu em tempo algum.
 
Vim aqui para pedir perdão.
 
Já fui monge por cinco anos. Fiquei longe de pai e de mãe, de irmãos e de amigos. Fiquei longe até de mim mesmo. Perdi minha infância. Perdi as guias e os guias todos. Perdi a ilusão.
Comecei a perder a fé. Não em Deus, mas em mim, um caracol sem saída, envernizado até os cotovelos.
 
Já fui ver avião pousar e levantar voo no aeroporto Viracopos. Meu padrinho me levou.
Tive a sensação de que um dia poderia voar. Nunca saí do chão árido. Como o pó que o diabo amassou nunca saí do chão.
 
Andei de trem. Na velha e romântica Sorocabana. Acreditei em sacis. Acreditei em cegonha. Só mesmo em Papai Noel nunca acreditei. Nunca vi vestígios dele na minha casa em noite de Natal.
 
Uma única vez andei a cavalo. Montei um cavalo manso como lobisomem na lua nova.
Caí e temi jamais sentir minhas vértebras. As vértebras senti, mas coragem, nunca mais. Daí nasceu um sonho que nunca realizei; ter um cavalo e uma charrete.
 
Já fui, em um final de ano, passear na Avenida Paulista. No Natal rico do Menino Jesus pobre.
A beleza era tanta que o pouco de fé que tinha me restado, perdi. Mas fé firme mesmo era a minha fé de antes do caracol. Foi-se como se vão as ilusões todas.
 
Já tomei chopp nos bares de Copacabana, à noite. Sem muito dinheiro no bolso, mas com os olhos cheios de novidades. Lá, na conversa solitária da madrugada, aprendi que toda prostituta tem um filho. Se não de verdade, um inventado que sirva para comover os clientes.
 
Já venci, com um barco, as águas do rio Paraguai, onde suas margens eram mais distantes e seu leito mais infinito. Penso que nele fui batizado. Ouvi uma voz me chamando de filho e que em mim tinha colocado todas as complacências. Pensei ser a voz de meu Pai. E era mesmo. Se não era, fingi que era.
 
Já fui à minha própria formatura, enfiado dentro de uma beca. E depois fui à formatura de meu filho. Agora quem usava beca era ele. Depois não fui mais a formatura alguma, e não sinto falta alguma delas.
 
Tive alguns amores e muitos dissabores. Tantos desenganos!  Já me casei. Casei virgem, diante de um sacerdote suspeito. Não valeu a pena. Nem um pouco.
Eu tinha que mutilar mais a alma e casar mais vezes.  Cometer mais pecados. Chorar mais.  Chorar agora. Chorar ontem. Chorar sempre.
 
Já implantaram em mim quatro pontes no coração. Queria que por elas passassem novas caravanas, novos passos, novos amores. Por baixo queria que passassem novo sangue. Nada passou, porque coloquei nelas barreiras intransponíveis. As barreiras trouxe dos meus tempos de crente.
 
Inventei dois mil caminhos, nenhum me levou a lugar algum. Pelo meio dos caminhos foram ficando violinos, letras, pincéis e cinzéis. E ficaram muitos amigos. Voltei de onde sai e por aqui finquei meus calos todos. É onde vou morrer.
 
Mas antes quero me confessar porque espero morrer com os meus pecados perdoados, embora isso já não tenha mais importância diante de tantos pecados que vi pela vida afora sendo cometidos em nome da Santidade e sob o manto protetor dessa mesma Santidade.
Os meus pecados cometi-os em nome da boemia; em nome da poesia, sob o manto protetor da noite. Acho que isso, por si só, merece o perdão. Espero.

domingo, 9 de dezembro de 2012

PERDIÇÃO

PERDIÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Ah, meu amor,
Não estou apaixonado!
Antes tivesse.
 
Antes tivesse
Os olhos brilhando
No infinito de sua presença
E o coração soluçando pela ausência infindável.
 
Antes tivesse
Vivendo o martírio das horas empacadas,
E a promessa de vinho à luz de velas
Com suas chamas bailando entre o silêncio das nossas almas.
 
Antes tivesse
A crença de noivos ingênuos
Que se ajoelham diante das fumaças de futuro
E a doce ilusão de eternidade;
Aquela que se desvanece na próxima esquina sem deixar pegadas.
 
Ah, meu amor,
Não estou apaixonado!
Antes tivesse.
 
Tenho sentido apenas a atormentadora dor da solidão.
 
Não estou apaixonado!
Antes tivesse.
Apenas me assustei diante de tão inesperado abandono.
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

LÍNGUA E PALAVRA

SUAVIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

a palavra
é o gesto
da língua

o poeta
o mímico
obstinado

a poesia
o silêncio
revogado