sexta-feira, 10 de julho de 2015

CLAUSURA

CLAUSURA
Oswaldo Antônio Begiato

Mais doído do que
Amar e não ser amado
É sair da clausura interna
E descobrir conventos misteriosos.

Sair dos conventos
E descobrir catedrais despojadas.

Sair das catedrais
E matar todos os deuses céticos.

E depois voltar à clausura interna
Como homem envelhecido pelas dores
Provocadas pelo rasgar d’alma.

domingo, 5 de julho de 2015

ASSOMBRAMENTO

ASSOMBRAMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

Quando te vejo
Encho a boca de cadeados
E os olhos de chaves,
Aprisiono-me nos encantamentos

E morro encharcado de horizontes.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

HAICAIS

MAR E AMOR

Onda fragorosa.
De porre também se morre;
Ressaca amorosa.


TERNO E SILENTE

Pacto silencioso
No olhar no olho quando amar.
Momento precioso.

MANUEL

Assim tão menina,
Estrela, quem há de tê-la?
Noite pequenina.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

FINADOS

FINADOS
Oswaldo Antônio Begiato

Ninguém deveria ter seus parafusos
E porcas
E neurônios soltos
Por conta de estradas ruins
Que a vida constrói para nossa viagem.

Ninguém deveria perder nada;
Nem cabelos,
Nem olhos,
Nem a vista,
Nem o juízo.

Ninguém deveria adoecer.

Ninguém deveria sofrer a dor do envelhecimento.

E a morte deveria ser
Como se fosse a composição de nosso sonho final.


Serena como o amanhecer na primavera.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

RECAÍDA

RECAÍDA
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje achei,
perdido na rua,
um brinco de pérola.

Pérola crua.

Na veia do brinco veio
a cor da pele da lua
e o perfume dela,
da dona do brinco.

Um perfume assim,
cheio de ciúme.

Um perfume feito
de ardume.

Extrato de ardume tratado
em laboratório.


Me deu uma vontade insana de me apaixonar novamente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

REENCONTRO

REENCONTRO
Oswaldo Antônio Begiato

E quando menos esperar
terás me lapidado
em bloqueamentos entre eu e tu
e com dop
feito com as folhas
do calendário.

E quando tudo parecer perdido
me encontrarás
dentro de um diamante perfeito,
de oito faces,

repleto de tuas mãos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

SANTIDADE


SANTIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

Quando as palavras
não me alcançam
o silêncio me asila
com sua profundidade inimaginável.

Dentro do silêncio
encontro caminhos
que não palmilho com pés calçados,
mas com desadornos;
eles me levam à sabedoria.

É um silêncio santo.
Santo silêncio que me faz ajoelhar!

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

SAUDADES


SAUDADES
Oswaldo Antônio Begiato

você vinha caminhando tão meiga
tão cheia de veludos
parecendo uma flor
brotando entre pétalas
na aridez das descobertas

tão cheia de cristais
parecendo um arco íris
fazendo curvas
no voo reto do horizonte

eu tinha só cinco anos
e logo aprendi a dizer
- amo você minha pequena namorada

e nunca mais esqueci a leveza de seus passos

temo, porém, que meu coração esqueceu

terça-feira, 5 de agosto de 2014

ATELIÊ


ATELIÊ
Oswaldo Antônio Begiato

Toda poesia é igualmente
nua.

Os poetas é que a vestem
com trajes diferentes.

Às vezes com alta costura,
outras com vestido de chita.

Uns a cobrem com fantasia
outros com paramentos.

Já vi poesia desfilando pela passarela
com roupas transparentes.

Mas há poetas delicados
que as deixam nua;
esses são os que têm os olhos mais puros.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

ALGUNS OUTROS MEUS HAICAIS


OCEANO

Sol, rede e horizonte.
Trabalhar? Grande tolice.
Que venha a cerveja!

ANOS

Eis a primavera!
Bela e rara, mas cruel.
É o tempo escapando.

PRIMAVERA

Chega a natureza,
Princesa de flor fecunda,
Inundando os olhos.

JAPI

As flores, milagre;
As águas em seu castelo.
No cio, a floresta.

domingo, 13 de julho de 2014

EU

EU
Oswaldo Antônio Begiato
 
Tenho vícios redibitórios.
Nem tente me comprar,
Vai precisar devolver.
 
Meu coração é muito medroso.
O que minha alma tem de coragem
Meu coração tem de covardia.
 
Ah, se eu pudesse dividir os vícios que tenho!
Mas estou velho demais para divisões.
 
Melhor procurar outra mercadoria.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

ENTRELINHAS

ENTRELINHAS
Oswaldo Antônio Begiato
 
Tu me perguntas o porquê de vivermos rindo um do outro.
Nas entrelinhas sabes que rio somente de mim,
e sei que é porque sou tolo.
De sua parte,
certamente é porque me sabes tolo,
e um pobre diabo que nem juízo tem.
 
De ti jamais rio. Ainda que rio de esperas eu seja.
 
As entrelinhas são um caso sério
nas mãos dos dementes.
Eu ainda estou aprendendo a escrever nas entrelinhas.
 
Preciso aprender o perfume de sua alma
e a suavidade de sua pele,
e aí poderei desvendar os segredos das entrelinhas.
 
Quero nelas escrever meus fingimentos,
assim deixarei Pessoa com razão.
 
E que todos meus fingimentos
sejam pra te dizer que te amo;
sejam pra provar que te amo,
nas entrelinhas;
nas estrelinhas que caem de ti
quando passas generosamente.
 
Quando a palavra é do cio
a entrelinha é dócil.

domingo, 25 de maio de 2014

OSTRACISMO

OSTRACISMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Não quero mais
ser visível nos jornais.
 
Não quero mais
aparecer em colunas sociais.
 
Não quero mais
meu nome escrito
em letras garrafais.
 
Quero apenas
me esconder em algum verso
de alguma poesia feminina.

domingo, 18 de maio de 2014

FIÁVEL

FIÁVEL
Oswaldo Antônio Begiato
 
No quintal de minha casa
caiu um raio cor-de-rosa;
caiu um anteontem
caiu um ontem
caiu um hoje...
 
Amanhã eu quero ficar esperando cair outro,
mas o pé de alecrim me garantiu
que raios não caem duas vezes no mesmo lugar.
 
Acho que mesmo assim vou ficar esperando;
o pé de alecrim não sabe que se trata
de um raio cor-de-rosa
e que raios cor-de-rosa caem tantas vezes quantas forem as esperanças.

domingo, 27 de abril de 2014

POTE D'ÁGUA

POTE D’ÁGUA
Oswaldo Antônio Begiato
 
Quando o contentamento
ou a tristeza
fogem de suas medidas
razoáveis
perturbando minha serena
mas soberana paz interior
acabo por tomar três
ou quatro doses de uísque.
 
E assim vou levando
minha vida,
até quando a cirrose,
essa inconveniente madrasta
dos boêmios
resolver tomar conta
de meu fígado e
de minhas fugas
trancafiando-me dentro
de um pote d’água. Paciência!
 
Afinal, paz mesmo,
só se encontra na morte,
gota derradeira.