ILHA
Oswaldo Antônio Begiato
sou
um
pedaço
de
real
idade
cercado de desenganos
por todos os lados
domingo, 28 de outubro de 2012
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
DESEJOS
DESEJOS
Oswaldo Antônio Begiato
No princípio
ela quis apenas
um instante.
Depois,
quando o céu
era tocável,
desejou muito
o perfume
das horas.
Mais tarde,
cheia da esperança
de quem nasce
livre,
suplicou pelo olhar
da vida inteira.
Algum tempo mais,
radiante
como uma noiva
virgem,
morria pela promessa
de eternidade.
Quando a última lágrima
chegou,
feliz como cuitelinho
diante do açucar,
ela se entregou escrava
de corpo
e alma
ao amor temporal.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
LAVAÇÃO
LAVAÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato
levando
lavando
louvando
cantando
quarando
cansando
passando
passando
passando...
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
MILAGRE
MILAGRE
Oswaldo Antônio Begiato
Infarto fulminante
matou o relojoeiro.
A família descompensada
e descompassada
jogou no lixo
os relógios velhos.
Quanto tempo jogado fora!
Domingo pela manhã,
o padre reza missa
preparando o povo
para o final dos tempos.
Enquanto isso
o catador de entulhos
ajoelhou-se frente a tesouro
tão valioso,
juntou todas as horas mortas,
guardou-as dentro de seu saco
e murmurando uma prece
soprou-lhes vida.
Mais que depressa, as horas voltaram a passar!
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
IRASCÍVEL
IRASCÍVEL
Oswaldo Antônio Begiato
Há em mim vácuos impreenchíveis
pedaços meus arrancados à força
e lançados no espaço vazio
entre corpos indesejados.
Essa sensação de estar isolado
entre tantas pessoas,
entre tantas gargalhadas,
entre tantas viagens
enerva meus sentidos
e minhas mãos tremem.
Já não posso tocar piano,
nem enfiar a linha na agulha,
nem manter o copo cheio,
nem escrever meu nome na linha do tempo...
Já não posso com elas dizer um adeus seguro
(eu não quero por ora dizer adeus).
E as flores?
Ai, as flores, as doces e meigas flores,
tão ternas e tão belas e tão coloridas e tão cheias de
poesias...
Eu nunca quis
me encantar com elas;
elas duram pouco
e eu estou cansado de sofrer
com perdas inesperadas
(eu não quero por ora dizer adeus).
Ando me aninhando com ilusões vagarentas
porque sei que morrerei primeiro;
o caminhar delas me ilude fazendo pensar
que o tempo é lento e que a vida é longa.
Assim sob a luz indo e vindo
entre a entrada e a saída do túnel
vou reiniciando sempre
e iludindo o fim
que me hipnotizou
pelo resto da vida
(por ora, e só por ora, não posso dizer adeus).
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
RENUNCIAÇÃO
RENUNCIAÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato
Amor,
vim buscar
minha presença.
Minha amputada
e doída presença
porque
de tua ausência
longa, fria e pesada
eu desisti.
Vim, pois,
buscar a presença imolada
pelo teu proposital abandono.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
FANTOCHE
FANTOCHE
Oswaldo Antônio Begiato
Levai,
ó vento, levai
as folhas secas
de lá pra cá,
de cá pra lá,
assim como
o tempo leva,
as horas inúteis,
de cá pra lá,
de lá pra cá,
incansavelmente.
Levai,
ó tempo, levai
meu viver fatigado
para outras garras,
por outros amores,
assim como
o vento leva
o pó de minha carne
para outras terras,
por outros mares,
irremediavelmente.
Levai,
ó vento, levai,
pelos cordéis do tempo,
os movimentos desajeitados
de meu corpo já exaurido pela dor
para bem longe dos olhos
de minha gente;
para bem longe da história.
Levai, ó vento, levai.
Levai, ó tempo, levai.
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