domingo, 16 de outubro de 2011

QUARESMA



QUARESMA
Oswaldo Antônio Begiato

a esmo e quando a tristeza era do dia
o mesmo lesma se acasala
com a mesma lesma na árvore virgem

a quaresmeira cheia de cio
acha uma maneira de ser faceira
se florindo feita donzela
diante do apanágio

a lesma dá à luz o roxo
na quaresmeira
enfeitada de semana santa

esperemos a ressurreição

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

QUELHA


QUELHA
Oswaldo Antônio Begiato

As avenidas largas agora me cortam a essência.
Trazem concreto, violência e impersonalidade
E a velocidade do tempo me esgota os poros.
Meus olhos secos sangram ao sol e ao vento.

Quero os caminhos apertados e pequenos
Que me enchiam os olhos de simplicidade
E a boca com o sereno gosto da meninice.
Eles me ninavam com promessas de futuro.

Oxalá, pudesse eu ainda ser acalentado!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

QUE ESPERANÇA!


QUE ESPERANÇA!
Oswaldo Antônio Begiato

Todo dia pela manhã,
arcada pelos pedágios do tempo,
Dona Alzira pega sua vassoura
e silenciosamente põe-se a varrer.
Varre o quintal,
varre a calçada,
varre a sarjeta,
varre a praça...
como quem varre os sonhos ruins que teve à noite.

Depois entra em casa, com passos de relógio,
e ninguém mais vê Dona Alzira.

Dizem que fica arquitetando sonhos bons
na esperança de sonhá-los à noite.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

FLOR BALDIA


FLOR BALDIA
Oswaldo Antônio Begiato

Não sou flor
que se cheire
Nem flor
que se coma.

Não sou flor
que se dá
Nem flor
que se compre.

Não sou flor,
Sou erva daninha.

Tenham cuidado comigo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CALDO DE FEIJÃO


CALDO DE FEIJÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Pela manhã acordei cheio de passado.
Assombrado com a beleza do dia imensamente lúcido
Tive vontade de tomar sopa de caldo de feijão.
De ficar, afagando o frio da tardinha, ao redor do fogão à lenha
Observando minha mãe fazer, como fazia naqueles dias de inverno,
A sopa de caldo de feijão com lingüiça caseira e macarrão Ave Maria.

Ave Maria:
- Era a prece que rezávamos antes da refeição
Nos tempos em que tudo era tão abençoado.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ADORMENTAR


ADORMENTAR
Oswaldo Antônio Begiato

Porque a pele é fina
e o osso fraco
qualquer batida dói
e incha e incha...

Porque a alma é leve
e a mente fraca
qualquer culpa dói
e pesa e pesa...

O corpo imenso
não cabe na cama
miúda de solteiro.
Volta e meia
ele escapa dela
durante a noite
levando junto a alma.

Não sei para onde vão.
Só sei que quando voltam
a alma vem
com um jeito diferente,
assim como quem acabou
de ser desvirginada.
Aí ficam juntos os dois,
alma e corpo,
num encontro só
me deixando abandonado.

Essa é minha tristeza sem fim
e só eu sei dela.

Viver não é tarefa fácil.

Quando eu morrer
quero pois que digam:
- Ele já foi tarde!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

À MAIS BELA AVENIDA DE MINHA CIDADE


NOVE DE JULHO
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu descobri uma poesia nova.
Lindíssima ela fala de canteiros e seus botões,
Fala de luzes e suas alucinações,
Fala de estrelas e seus secretos desejos,
Fala de um córrego que acolhe o choro...

Hoje eu descobri uma poesia lindíssima
Dessas que falam de um amor só visto em cordéis.

Hoje também passei pela Nove de Julho.
Reinaugurada. Belíssima como uma moça apaixonada.

Mais bela até do que a poesia que descobri hoje.

Jundiaí, 10 de julho de 2.011.

sábado, 23 de julho de 2011

NA NAVE


......................................Arte: wado

NA NAVE
Oswaldo Antônio Begiato

Na nave da igreja velha
Às nove horas em ponto
A neve desce pontual.
O noivo, cheio de laços,
De novo, com fé promete,
À noiva cheia de credo
Não lhe ser fiel na vida.

Feito isso foram felizes
Até que a morte os separou.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TOALHA DE MESA


TOALHA DE MESA
Oswaldo Antônio Begiato

No armarinho do Toninho Rosa,
além de aviamentos se vende de tudo;
lá comprei uma toalha nova.
Toda quadradinha, cheia de flores.
Bonita. Feita de matéria plástica. Prática.
Tão fácil de deixá-la limpa. Basta um pano com sabão.
Quando está limpa
a deusa do perdão se debruça sobre ela
e minha mesa pode receber o pão e o vinho.

Gostaria que minha alma fosse assim.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

INCUMBÊNCIA


INCUMBÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Levar a trouxa
Lavar a roupa
Secar a louça
Tirar a poupa
Limpar a bolsa
Olhar a lousa
Ouvir a mouca
Curar a bouba
Amar a louca
Casar c’a moura

terça-feira, 21 de junho de 2011

TOLO


TOLO
Oswaldo Antônio Begiato

A hora que puderes vem te despedir de mim. Sem óculos escuros.
Não tragas rosas vermelhas. Traze margaridas brancas.
Ou não tragas flor alguma.
Canta a minha música preferida. Se possível duas, três...
Canta baixo para que só eu ouça. Ou não cantes nada.
Não dês ouvidos às coisas ruins que falarem de mim. Ouve somente as boas.
Ou não ouças nada.
As boas coisas guarde-as como alívio para ti, desse velho tolo que não soube amar.
Ou não quis, e que parte agora, feito um cusco de três pernas,
Sem descobrir o quanto tu foste capaz de amar um rabugento.

A hora que puderes vem me observar, imóvel. Frio. Findo.
Traze olhos cheios de ternura e mel na boca. Sem lágrimas. Sem amargor.
Recita versos do sul. Os mais bonitos que eu já ouvi. Quintana. Lupicínio.
Não, melhor recitares os teus.
Ou não recita nada.
Não notes meu estado esquelético e feio, mas veja a alma singela
Que escapou do corpo arruinado pela arrogância e pela boemia
De um velho tolo que nunca soube escrever um poema de amor. Um poema de amor pra ti.

A hora que puderes vem me ensinar a não ser tolo.
A não ser tolo na eternidade. Se é que eternidade existe, porque tu, agora, sei que existes.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ZÉS


ZÉS
Oswaldo Antônio Begiato

No tempo do zagaia
(meu amigo Zé dizia tempo do Zé do Gaio)
havia umas rosinhas
feitas por doceiras com amêndoas e clara de ovo
para enfeitar bolos de noiva;
rosa, azul, branca, verde...

Eu era criança
nem ligava para o bolo,
só queria saber delas, as rosas;
chamavam-se marzipã
(meu amigo Zé dizia Maria do Zé Pão).

Eu gostava de ouvir as coisas novas da língua que meu amigo Zé inventava.
Eram tempos de muitos Zés e poucas escolas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

QUIMERAS E VEREDAS


arte: wado

QUIMERAS E VEREDAS
Oswaldo Antônio Begiato

poetas são luas
poetas são
loucos

poetas são ruas
poetas são
poucos

poetas são poetas
poetas são
poetas

quarta-feira, 11 de maio de 2011

MEU PAI, MEU POETA!


MEU PAI, MEU POETA!
Oswaldo Antônio Begiato

Meu pai foi poeta sem nunca ter escrito um único verso.
Poeta do amor mais puro e profundo que já vi.

No dia em que completei trinta anos
mandou buscar para minha mãe a orquídea mais bonita de Jundiaí.
O cartão dizia que há trinta anos ela o tinha feito, pela primeira vez,
o homem mais feliz do mundo
(sou o primeiro filho deles).
Minha mãe disse com todo encanto do mundo:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Minha irmã caçula, depois de onze outros partos de minha mãe,
nasceu no dia nove de maio de mil novecentos e setenta e um
(dia das Mães, naquele ano).

Meu pai deu a ela o mesmo nome de minha mãe Regina – Rainha.
Quando chegou com a certidão de nascimento em casa
minha mãe com o mesmo encanto de sempre disse:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Quando estou muito triste gosto de imaginar
o quanto de poesia ele fez entre o primogênito e a caçula deles. E rio. Apenas rio.

Com eles aprendi que poetas são bobos.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

NA RUA DE MINHA CASA


NA RUA DE MINHA CASA
Oswaldo Antônio Begiato

Enquanto o Reino Unido se encantava com o casamento de seus príncipes,
No agora deserto de meu pequenino reino,
Formado por paralelepípedos, asfaltos e concretos,
Uma maria-sem-vergonha decidiu nascer dentro do bueiro
(Oásis inóspito de um progresso desenfreado ).

Nasceu cor-de-rosa com pintas brancas.
Lá dentro foi se fazendo feminina;
Vestiu-se como uma promessa atrevida
E rindo foi brincando com o impossível.

De flor assim tão frágil
nunca vi tanta meiguice.
Nunca vi tanta coragem.