segunda-feira, 21 de maio de 2012
PENSAMENTO
PENSAMENTO
Oswaldo Antônio Begiato
olhando teu corpo nu
fiquei pensando com meus botões:
quantas entranhas,
quantas entradas,
quantas entrelinhas,
quantos entraves,
quantas gavetas,
quantas vidraças,
quantos cômodos,
quantas chaves,
quantas curvas,
quantas medidas,
quantos desejos,
quantas senhas,
quantos mistérios...
meu Deus! quantos perigos, meu Deus!
segunda-feira, 14 de maio de 2012
RESMUNGO
RESMUNGO
Oswaldo Antônio Begiato
Enquanto inocente,
Repetia palavras pequenas.
Enquanto apaixonada,
Repetia palavras fêmeas.
Enquanto enferma,
Repetia palavras resignadas.
Enquanto bêbeda,
Repetia palavras disparatadas.
Enquanto ensandecida,
Repetia palavras insensatas.
Enquanto poeta,
Repetia palavras novas.
Alheia de si, nada mais resmunga,
A não ser palavras sintéticas.
domingo, 6 de maio de 2012
SACRIFÍCIO
SACRIFÍCIO
Oswaldo Antônio Begiato
quantas avenidas
terei de transpassar
para chegar puro junto a ti
nesta noite livre?
quantas pétalas,
neste concreto,
terei de juntar
para fazer o buquê
que sonha tua idade,
que sonha tua cidade?
quantas abnegações,
nesta parcimônia,
terei que te oferecer
para mostrar um coração
rondando despojado,
rondando despejado?
quantos silêncios,
nesta catedral,
terei de violentar
para dizer o quanto te busquei
nas afiadas esquinas,
nas afiadas quinas?
quanto sal,
neste deserto,
terei de lamber
para provar um amor
sem nenhuma fresta,
sem nenhuma aresta?
quantas mortificações,
neste calvário,
terei de beber
para te oferecer o sangue
das largas feridas,
das largas avenidas?
quantas avenidas
terei de transpassar
para chegar puro junto a ti
nesta noite livre?
segunda-feira, 23 de abril de 2012
SOL
terça-feira, 10 de abril de 2012
BEIJOS

BEIJOS
Oswaldo Antônio Begiato
Você vem cantando uma canção.
eu julgo ser uma antiga canção de amor
(você a canta sempre quando me entristeço).
Fala coisas e fala coisas e fala coisas...
mas eu não compreendo sua pronúncia.
É que você vem com a língua úmida
desesperadamente ávida por beijos.
Aí a beijo com minha boca sóbria
consumindo toda sua sofreguidão.
Devagar vou decifrando sua voz,
suas palavras brandas,
sua canção dando prazer aos sentidos...
Fala que me ama e que me ama e que me ama...
E eu a venero ainda mais por isso
e vou ficando com a língua úmida
e ávida...
...desesperadamente ávida
por beijos.
Desesperadamente ávida por seus beijos sagrados.
domingo, 1 de abril de 2012
sexta-feira, 23 de março de 2012
MAIS ALGUNS HAICAIS

CHÃO E CÉU
A Guilherme de Almeida, príncipe dos poetas
Guilherme, tão príncipe,
Tão principio, fim e verso
Inversos do chão.
AGRADECIMENTO
Para Luís, de quem ganhei uma fita métrica.
Sou grato, Luís!
Posso medir as palavras
Com mais precisão.
DEMORA
Durmo em paz no banco.
Manco sonho em ser andejo
Vejo a praça: - Fico.
MUDANÇA
Foi-se o caminhão.
De onde saí nada tem,
Pra onde vou agora?
MOTIVO PARA A MORTE
A Federico Garcia Lorca
Lorca, mais temido
Com sua caneta do que
Outros com revólver.
NERUDA
Canta, canta, Pablo,
Um Canto que seja Geral!
O povo é sofrido.
PALIAÇÃO
O espelho quebrou,
De sorte sete anos terei;
Não me verei triste.
PERPLEXIDADE
Frente ao mundo vasto,
Hesitante pensa o espelho:
- Dobro-o ou inverto-o?
SÁ-CARNEIRO
Se pôs fim Sá, o outro.
Aqueles que os deuses amam
Sempre morrem cedo.
sexta-feira, 16 de março de 2012
IDADE
terça-feira, 6 de março de 2012
SEJA QUAL FLOR

SEJA QUAL FLOR
Oswaldo Antônio Begiato
A única coisa da terra que existe no céu é a música.
A única coisa do céu que existe na terra são as novidades.
Já se foi o tempo em que eu chegava da rua,
entrava em casa com as mãos cheias de cartas
e o coração vazio de razões.
Hoje entro com as mãos vazias de cartas
e o coração cheio de desesperanças.
Fazer o quê?
Quem nasceu com o pé redondo
tem que morrer com a boca verde.
Há na vida uma hora em que as pedras preciosas
tornam-se inúteis nos acostamentos do tempo.
(E pensar que já tive relógios com dezessete rubis.)
Mas há sempre um tamanco de bom tamanho
para quem caminha a pé e sem muita fé
mas com muito amor para despedaçar por aí.
Queres que eu veja
com olhos isentos
tuas velhas veredas.
Verei.
Com calma, verei.
Com alma, verei.
Afinal é tão delicado ver passar mulheres
e seus vestidos rodados
e suas sandálias coloridas
e seus cabelos enfeitados com flores
e seus pensamentos nas asas do incompreensível.
O bom jardineiro sabe
que não se planta a haste de uma rosa
como se planta a haste da mandioca.
Bem, hoje vou me deitar cedo.
Amanhã preciso levantar cedo.
Já pensou se me amanheço com rugas
justo no dia em que as flores passarão por mim no cabelo de Isabel?
Seja o que for,
Seja qual flor.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
GOSTO
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
ENGODO

ENGODO
Oswaldo Antônio Begiato
Por aqui, na minha pequenina vila,
enganamos a morte assim:
Reunimos-nos no bar
todos os dias ás onze horas da manhã,
ali ficamos tomando uísque
e rindo.
Nessa hora a morte passa caçando.
Vem com a foice afiada e os olhos esbugalhados.
Ela olha pra dentro do boteco
e quando vê a gente bebendo e rindo
pensa assim:
- Esses aí, estão rindo e bebendo,
não devem ter doença alguma.
Deixa-nos e vai embora caçar em outro mato.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
sábado, 4 de fevereiro de 2012
MEDO

MEDO
Oswaldo Antônio Begiato
Há vidas
e há vidas
havidas
ávidas.
Não se chegue
muito perto;
se chegar
fique em silêncio.
Posso apenas
prender firmemente
meus olhos desordenados
aos seus olhos
(há neles um conforto,
um nível
e uma infinitude
só vistos
nos oceanos
serenos).
Nada mais posso.
Se eu for além,
ou vier do além
corro o risco de lhe invadir
rompendo seus vínculos.
É que o medo que me cerca
vem de dentro de mim.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
E AGORA?

E AGORA?
Oswaldo Antônio Begiato
jogam uma veste
negra
confusa
sobre os paralelepípedos
da rua
e a lua
desesperadamente
lança sobre tudo
uma luz prateada...
...em vão
já não são mais
paralelepípedos
já não são mais
histórias petrificadas
apenas uma manta
uma manta negra
asfáltica
onde
não faz morada
nem a lua
nem a rua
nem luzes
nem caminhos
e a história...
...não se revela.
sábado, 21 de janeiro de 2012
ARMADILHAS E FRONTEIRAS

ARMADILHAS E FRONTEIRAS
Oswaldo Antônio Begiato
Passei por tantas armadilhas,
Cruzei muitas fronteiras
Durante o tempo em que renascia
Nessa minha vida de errante.
Bonecos, somos todos modelados com o mesmo barro,
Pelas mesmas mãos.
De que me serviu dizer sempre a verdade?
Venci na vida?
Venci nada. Indigente envelheci.
E não é o tempo que envelhece,
É o abandono,
A falta de perdão.
(Aprendi que o dinheiro compra todos os perdões,
O resto é léria.)
E eu que sou inhenho incorrigível
Fui morrendo de tristeza e de vergonha.
Se eu soubesse que iriam espalhar pela internet
A foto descolorida de um escravo morto
Com os cabelos presos e a pele tenra
Eu teria colocado uma camisa mais bonita,
Dessas que obrigam o sol a nascer
Seis horas antes do funeral.
Talvez eu fosse festejado.
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