segunda-feira, 23 de abril de 2012

SOL


SOL
Oswaldo Antônio Begiato

faceira
não faça eira
não faça beira

sem eira nem beira
faça-se morenada
faça amor e mais nada

terça-feira, 10 de abril de 2012

BEIJOS


BEIJOS
Oswaldo Antônio Begiato

Você vem cantando uma canção.
eu julgo ser uma antiga canção de amor
(você a canta sempre quando me entristeço).

Fala coisas e fala coisas e fala coisas...
mas eu não compreendo sua pronúncia.
É que você vem com a língua úmida
desesperadamente ávida por beijos.

Aí a beijo com minha boca sóbria
consumindo toda sua sofreguidão.
Devagar vou decifrando sua voz,
suas palavras brandas,
sua canção dando prazer aos sentidos...

Fala que me ama e que me ama e que me ama...

E eu a venero ainda mais por isso
e vou ficando com a língua úmida
e ávida...
...desesperadamente ávida
por beijos.

Desesperadamente ávida por seus beijos sagrados.

domingo, 1 de abril de 2012

sexta-feira, 23 de março de 2012

MAIS ALGUNS HAICAIS


CHÃO E CÉU
A Guilherme de Almeida, príncipe dos poetas

Guilherme, tão príncipe,
Tão principio, fim e verso
Inversos do chão.

AGRADECIMENTO
Para Luís, de quem ganhei uma fita métrica.

Sou grato, Luís!
Posso medir as palavras
Com mais precisão.

DEMORA

Durmo em paz no banco.
Manco sonho em ser andejo
Vejo a praça: - Fico.

MUDANÇA

Foi-se o caminhão.
De onde saí nada tem,
Pra onde vou agora?

MOTIVO PARA A MORTE
A Federico Garcia Lorca

Lorca, mais temido
Com sua caneta do que
Outros com revólver.

NERUDA

Canta, canta, Pablo,
Um Canto que seja Geral!
O povo é sofrido.

PALIAÇÃO

O espelho quebrou,
De sorte sete anos terei;
Não me verei triste.

PERPLEXIDADE

Frente ao mundo vasto,
Hesitante pensa o espelho:
- Dobro-o ou inverto-o?

SÁ-CARNEIRO

Se pôs fim Sá, o outro.
Aqueles que os deuses amam
Sempre morrem cedo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

IDADE


IDADE
Oswaldo Antônio Begiato

Minha cadeira
quebrou de novo.
É a terceira vez
que se põe a quebrar
impiedosamente.

Penso que apesar de estar
definhando
ando pesado demais.
Ando pensando demais.

Será a idade?

terça-feira, 6 de março de 2012

SEJA QUAL FLOR


SEJA QUAL FLOR
Oswaldo Antônio Begiato

A única coisa da terra que existe no céu é a música.
A única coisa do céu que existe na terra são as novidades.

Já se foi o tempo em que eu chegava da rua,
entrava em casa com as mãos cheias de cartas
e o coração vazio de razões.
Hoje entro com as mãos vazias de cartas
e o coração cheio de desesperanças.

Fazer o quê?
Quem nasceu com o pé redondo
tem que morrer com a boca verde.

Há na vida uma hora em que as pedras preciosas
tornam-se inúteis nos acostamentos do tempo.
(E pensar que já tive relógios com dezessete rubis.)

Mas há sempre um tamanco de bom tamanho
para quem caminha a pé e sem muita fé
mas com muito amor para despedaçar por aí.

Queres que eu veja
com olhos isentos
tuas velhas veredas.

Verei.
Com calma, verei.
Com alma, verei.

Afinal é tão delicado ver passar mulheres
e seus vestidos rodados
e suas sandálias coloridas
e seus cabelos enfeitados com flores
e seus pensamentos nas asas do incompreensível.

O bom jardineiro sabe
que não se planta a haste de uma rosa
como se planta a haste da mandioca.

Bem, hoje vou me deitar cedo.
Amanhã preciso levantar cedo.
Já pensou se me amanheço com rugas
justo no dia em que as flores passarão por mim no cabelo de Isabel?

Seja o que for,
Seja qual flor.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

GOSTO


GOSTO
Oswaldo Antônio Begiato

Por que devo gostar das uvas?

Prefiro os charutos
feitos por dona Jandira
com as folhas verdes
da parreira.

Ela os colocava na marmita
todas as primeiras segundas-feiras do mês.

Isso sim era gosto bom!

As uvas deixo às raposas.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ENGODO


ENGODO
Oswaldo Antônio Begiato

Por aqui, na minha pequenina vila,
enganamos a morte assim:
Reunimos-nos no bar
todos os dias ás onze horas da manhã,
ali ficamos tomando uísque
e rindo.

Nessa hora a morte passa caçando.
Vem com a foice afiada e os olhos esbugalhados.
Ela olha pra dentro do boteco
e quando vê a gente bebendo e rindo
pensa assim:

- Esses aí, estão rindo e bebendo,
não devem ter doença alguma.

Deixa-nos e vai embora caçar em outro mato.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

DECREPIDEZ




DECREPIDEZ
Oswaldo Antônio Begiato


capto
a mente
insana
mente

mente
capto

sábado, 4 de fevereiro de 2012

MEDO


MEDO
Oswaldo Antônio Begiato

Há vidas
e há vidas
havidas
ávidas.

Não se chegue
muito perto;
se chegar
fique em silêncio.

Posso apenas
prender firmemente
meus olhos desordenados
aos seus olhos
(há neles um conforto,
um nível
e uma infinitude
só vistos
nos oceanos
serenos).

Nada mais posso.
Se eu for além,
ou vier do além
corro o risco de lhe invadir
rompendo seus vínculos.

É que o medo que me cerca
vem de dentro de mim.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

E AGORA?


E AGORA?
Oswaldo Antônio Begiato

jogam uma veste
negra
confusa
sobre os paralelepípedos
da rua
e a lua
desesperadamente
lança sobre tudo
uma luz prateada...
...em vão

já não são mais
paralelepípedos
já não são mais
histórias petrificadas
apenas uma manta
uma manta negra
asfáltica
onde
não faz morada
nem a lua
nem a rua
nem luzes
nem caminhos
e a história...
...não se revela.

sábado, 21 de janeiro de 2012

ARMADILHAS E FRONTEIRAS


ARMADILHAS E FRONTEIRAS
Oswaldo Antônio Begiato

Passei por tantas armadilhas,
Cruzei muitas fronteiras
Durante o tempo em que renascia
Nessa minha vida de errante.

Bonecos, somos todos modelados com o mesmo barro,
Pelas mesmas mãos.

De que me serviu dizer sempre a verdade?
Venci na vida?
Venci nada. Indigente envelheci.
E não é o tempo que envelhece,
É o abandono,
A falta de perdão.

(Aprendi que o dinheiro compra todos os perdões,
O resto é léria.)

E eu que sou inhenho incorrigível
Fui morrendo de tristeza e de vergonha.

Se eu soubesse que iriam espalhar pela internet
A foto descolorida de um escravo morto
Com os cabelos presos e a pele tenra
Eu teria colocado uma camisa mais bonita,
Dessas que obrigam o sol a nascer
Seis horas antes do funeral.

Talvez eu fosse festejado.

domingo, 15 de janeiro de 2012

DESMAZELO


DESMAZELO
Oswaldo Antônio Begiato

Meu doce amor, que essa vá lhe achar com saúde.
Tenho sofrido o suplício de sua ausência,
Sentido uma saudade dura e incontrolável
Rasgando as águas turvas de meu coração.

Navalha impiedosa incisa sem deixar sangrar;
Dói feito a penetração pungente da espada.
Do beijo além do cheiro formoso da aurora
Sinto falta do despertar florido e fresco

E do adormecer nos braços do entardecer.
Do corpo retenho a ardência e o forte perfume
Da ambrosia e do néctar que, distraída, trouxeste

Por conta de um descuido dos deuses do Olimpo.
Meu doce amor vem, nem que seja por desleixo,
Cuidar das dobras bobas de meus sentimentos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

MENINA


MENINA
Oswaldo Antônio Begiato

Caia, ó pétala, no chão;
caia branca e translúcida.

Caia leve e demorada,
castidade rebelde e silenciosa.

Caia,
pois a melodia de tua queda
será anunciada pela voz rouca
de um anjo pequeno.

Caia
e o nosso mundo nunca mais será de castigo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

MAIS ALGUNS HAICAIS


MAIS ALGUNS HAICAIS
Oswaldo Antônio Begiato

AO CAIR DA TARDE

Corre corruíra;
A tarde espera teu canto.
Vem me fazer triste.

EBRIEDADE

Conhaque divino
Flamba o coração doído
Até eu morrer de amor.

HIROKO

Para onde vais mulher?
Colher estrelas no céu
Ou nova luz parir?

LAÇOS

Na mesa a toalha.
Sobre a toalha a comida.
Amizade forte.

SERENIDADE

Nascemos brigões.
Quem tem rugas, não tem rusgas;
O tempo serena.

SIMPLICIDADE

Retalhos de manga,
Fiapos na camisa velha.
Vida de menino.

SUGESTÃO

A gota de orvalho,
O guri sem agasalho...
A foto; retalho.

VIVA

Fogos de artifício;
Ano Novo, vida velha!
Eis nossa arte e ofício.