domingo, 15 de janeiro de 2012

DESMAZELO


DESMAZELO
Oswaldo Antônio Begiato

Meu doce amor, que essa vá lhe achar com saúde.
Tenho sofrido o suplício de sua ausência,
Sentido uma saudade dura e incontrolável
Rasgando as águas turvas de meu coração.

Navalha impiedosa incisa sem deixar sangrar;
Dói feito a penetração pungente da espada.
Do beijo além do cheiro formoso da aurora
Sinto falta do despertar florido e fresco

E do adormecer nos braços do entardecer.
Do corpo retenho a ardência e o forte perfume
Da ambrosia e do néctar que, distraída, trouxeste

Por conta de um descuido dos deuses do Olimpo.
Meu doce amor vem, nem que seja por desleixo,
Cuidar das dobras bobas de meus sentimentos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

MENINA


MENINA
Oswaldo Antônio Begiato

Caia, ó pétala, no chão;
caia branca e translúcida.

Caia leve e demorada,
castidade rebelde e silenciosa.

Caia,
pois a melodia de tua queda
será anunciada pela voz rouca
de um anjo pequeno.

Caia
e o nosso mundo nunca mais será de castigo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

MAIS ALGUNS HAICAIS


MAIS ALGUNS HAICAIS
Oswaldo Antônio Begiato

AO CAIR DA TARDE

Corre corruíra;
A tarde espera teu canto.
Vem me fazer triste.

EBRIEDADE

Conhaque divino
Flamba o coração doído
Até eu morrer de amor.

HIROKO

Para onde vais mulher?
Colher estrelas no céu
Ou nova luz parir?

LAÇOS

Na mesa a toalha.
Sobre a toalha a comida.
Amizade forte.

SERENIDADE

Nascemos brigões.
Quem tem rugas, não tem rusgas;
O tempo serena.

SIMPLICIDADE

Retalhos de manga,
Fiapos na camisa velha.
Vida de menino.

SUGESTÃO

A gota de orvalho,
O guri sem agasalho...
A foto; retalho.

VIVA

Fogos de artifício;
Ano Novo, vida velha!
Eis nossa arte e ofício.

sábado, 31 de dezembro de 2011

OSSOS E SANGUE


OSSOS E SANGUE
Oswaldo Antônio Begiato

Para que servem
os sonhos que sempre tive,
se o tempo passou
e me petrificou?

Onde posso
encontrar carne e ossos,
se tudo agora
são pedras?

Como verter
das veias, sangue,
e revelar o pulsar do coração
se pertenço ao mundo mineral?

Como amar
se minhas perdas
fizeram de meus sentimentos
uma rua ladrilhada?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

DEZEMBRO


DEZEMBRO
Oswaldo Antônio Begiato

No centro da folha
a linha,
no centro da linha
o ponto,
no ponto final
o certo,
no trono certo
o cedro,
atrás do cedro
o rei menino.

José,
o catador de papelão,
mal sabe que faz parte
do presépio.




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

LUZ


MAIS HAICAIS

MÃE
Oswaldo Antônio Begiato

Azulínea é a alma,
A claridade é divina.
Luza luz azul!

MANUEL
Oswaldo Antônio Begiato

Luz fria emanam
as estrelas de Bandeira.
Manuel as ama.

domingo, 13 de novembro de 2011

ALGUNS HAICAIS



------------->(Photo and caption by Nikki Krecicki)


OCEANO

Sol, rede e horizonte.
Trabalhar? Grande tolice.
Que venha a cerveja!

ANOS

Eis a primavera!
Bela e rara, mas cruel.
É o tempo escapando.

PRIMAVERA

Chega a natureza,
Princesa de flor fecunda,
Inundando os olhos.

JAPI

As flores, milagre;
As águas em seu castelo.
No cio, a floresta.

A MORTE

Chegará a que hora
A imponderável senhora?
À noite? Na aurora?

VELHICE

Vésper despertando;
Crepúsculo vespertino.
A vida se finda!

domingo, 30 de outubro de 2011

VARANDA


---------->Maia,Gueifães, varanda antiga / Old balcony

VARANDA
Oswaldo Antônio Begiato

Na varanda da casa que não tenho,
coloco a cabeça no mundo da lua
mas fico com os pés no chão firme.
No chão, teço caminhos e sei que jamais os palmilharei.

Na varanda da casa que não tenho,
rezo o terço de cada dia,
faço a procissão passar com os santos em seus andores.
Caio de joelhos diante de um Deus que não é meu
nem eu sou Dele.

Na varanda da casa que não tenho,
leio o livro do poeta decrépito
cheio de versos moribundos.
Aprendo novas rimas,
nas entrelinhas do pensamento.
Com pena nas mãos escrevo com letras mortas
a poesia que não me ressuscitará.

Na varanda da casa que não tenho,
fico pensando no amor verdadeiro
e de viola em viola componho canções novas.
Os pássaros gostam de ouvir mas meu amor, não.

Meu amor; aquele que não veio nem nunca virá.

domingo, 16 de outubro de 2011

QUARESMA



QUARESMA
Oswaldo Antônio Begiato

a esmo e quando a tristeza era do dia
o mesmo lesma se acasala
com a mesma lesma na árvore virgem

a quaresmeira cheia de cio
acha uma maneira de ser faceira
se florindo feita donzela
diante do apanágio

a lesma dá à luz o roxo
na quaresmeira
enfeitada de semana santa

esperemos a ressurreição

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

QUELHA


QUELHA
Oswaldo Antônio Begiato

As avenidas largas agora me cortam a essência.
Trazem concreto, violência e impersonalidade
E a velocidade do tempo me esgota os poros.
Meus olhos secos sangram ao sol e ao vento.

Quero os caminhos apertados e pequenos
Que me enchiam os olhos de simplicidade
E a boca com o sereno gosto da meninice.
Eles me ninavam com promessas de futuro.

Oxalá, pudesse eu ainda ser acalentado!

terça-feira, 27 de setembro de 2011

QUE ESPERANÇA!


QUE ESPERANÇA!
Oswaldo Antônio Begiato

Todo dia pela manhã,
arcada pelos pedágios do tempo,
Dona Alzira pega sua vassoura
e silenciosamente põe-se a varrer.
Varre o quintal,
varre a calçada,
varre a sarjeta,
varre a praça...
como quem varre os sonhos ruins que teve à noite.

Depois entra em casa, com passos de relógio,
e ninguém mais vê Dona Alzira.

Dizem que fica arquitetando sonhos bons
na esperança de sonhá-los à noite.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

FLOR BALDIA


FLOR BALDIA
Oswaldo Antônio Begiato

Não sou flor
que se cheire
Nem flor
que se coma.

Não sou flor
que se dá
Nem flor
que se compre.

Não sou flor,
Sou erva daninha.

Tenham cuidado comigo!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

CALDO DE FEIJÃO


CALDO DE FEIJÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Pela manhã acordei cheio de passado.
Assombrado com a beleza do dia imensamente lúcido
Tive vontade de tomar sopa de caldo de feijão.
De ficar, afagando o frio da tardinha, ao redor do fogão à lenha
Observando minha mãe fazer, como fazia naqueles dias de inverno,
A sopa de caldo de feijão com lingüiça caseira e macarrão Ave Maria.

Ave Maria:
- Era a prece que rezávamos antes da refeição
Nos tempos em que tudo era tão abençoado.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

ADORMENTAR


ADORMENTAR
Oswaldo Antônio Begiato

Porque a pele é fina
e o osso fraco
qualquer batida dói
e incha e incha...

Porque a alma é leve
e a mente fraca
qualquer culpa dói
e pesa e pesa...

O corpo imenso
não cabe na cama
miúda de solteiro.
Volta e meia
ele escapa dela
durante a noite
levando junto a alma.

Não sei para onde vão.
Só sei que quando voltam
a alma vem
com um jeito diferente,
assim como quem acabou
de ser desvirginada.
Aí ficam juntos os dois,
alma e corpo,
num encontro só
me deixando abandonado.

Essa é minha tristeza sem fim
e só eu sei dela.

Viver não é tarefa fácil.

Quando eu morrer
quero pois que digam:
- Ele já foi tarde!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

À MAIS BELA AVENIDA DE MINHA CIDADE


NOVE DE JULHO
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu descobri uma poesia nova.
Lindíssima ela fala de canteiros e seus botões,
Fala de luzes e suas alucinações,
Fala de estrelas e seus secretos desejos,
Fala de um córrego que acolhe o choro...

Hoje eu descobri uma poesia lindíssima
Dessas que falam de um amor só visto em cordéis.

Hoje também passei pela Nove de Julho.
Reinaugurada. Belíssima como uma moça apaixonada.

Mais bela até do que a poesia que descobri hoje.

Jundiaí, 10 de julho de 2.011.