sábado, 23 de julho de 2011

NA NAVE


......................................Arte: wado

NA NAVE
Oswaldo Antônio Begiato

Na nave da igreja velha
Às nove horas em ponto
A neve desce pontual.
O noivo, cheio de laços,
De novo, com fé promete,
À noiva cheia de credo
Não lhe ser fiel na vida.

Feito isso foram felizes
Até que a morte os separou.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

TOALHA DE MESA


TOALHA DE MESA
Oswaldo Antônio Begiato

No armarinho do Toninho Rosa,
além de aviamentos se vende de tudo;
lá comprei uma toalha nova.
Toda quadradinha, cheia de flores.
Bonita. Feita de matéria plástica. Prática.
Tão fácil de deixá-la limpa. Basta um pano com sabão.
Quando está limpa
a deusa do perdão se debruça sobre ela
e minha mesa pode receber o pão e o vinho.

Gostaria que minha alma fosse assim.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

INCUMBÊNCIA


INCUMBÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Levar a trouxa
Lavar a roupa
Secar a louça
Tirar a poupa
Limpar a bolsa
Olhar a lousa
Ouvir a mouca
Curar a bouba
Amar a louca
Casar c’a moura

terça-feira, 21 de junho de 2011

TOLO


TOLO
Oswaldo Antônio Begiato

A hora que puderes vem te despedir de mim. Sem óculos escuros.
Não tragas rosas vermelhas. Traze margaridas brancas.
Ou não tragas flor alguma.
Canta a minha música preferida. Se possível duas, três...
Canta baixo para que só eu ouça. Ou não cantes nada.
Não dês ouvidos às coisas ruins que falarem de mim. Ouve somente as boas.
Ou não ouças nada.
As boas coisas guarde-as como alívio para ti, desse velho tolo que não soube amar.
Ou não quis, e que parte agora, feito um cusco de três pernas,
Sem descobrir o quanto tu foste capaz de amar um rabugento.

A hora que puderes vem me observar, imóvel. Frio. Findo.
Traze olhos cheios de ternura e mel na boca. Sem lágrimas. Sem amargor.
Recita versos do sul. Os mais bonitos que eu já ouvi. Quintana. Lupicínio.
Não, melhor recitares os teus.
Ou não recita nada.
Não notes meu estado esquelético e feio, mas veja a alma singela
Que escapou do corpo arruinado pela arrogância e pela boemia
De um velho tolo que nunca soube escrever um poema de amor. Um poema de amor pra ti.

A hora que puderes vem me ensinar a não ser tolo.
A não ser tolo na eternidade. Se é que eternidade existe, porque tu, agora, sei que existes.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

ZÉS


ZÉS
Oswaldo Antônio Begiato

No tempo do zagaia
(meu amigo Zé dizia tempo do Zé do Gaio)
havia umas rosinhas
feitas por doceiras com amêndoas e clara de ovo
para enfeitar bolos de noiva;
rosa, azul, branca, verde...

Eu era criança
nem ligava para o bolo,
só queria saber delas, as rosas;
chamavam-se marzipã
(meu amigo Zé dizia Maria do Zé Pão).

Eu gostava de ouvir as coisas novas da língua que meu amigo Zé inventava.
Eram tempos de muitos Zés e poucas escolas.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

QUIMERAS E VEREDAS


arte: wado

QUIMERAS E VEREDAS
Oswaldo Antônio Begiato

poetas são luas
poetas são
loucos

poetas são ruas
poetas são
poucos

poetas são poetas
poetas são
poetas

quarta-feira, 11 de maio de 2011

MEU PAI, MEU POETA!


MEU PAI, MEU POETA!
Oswaldo Antônio Begiato

Meu pai foi poeta sem nunca ter escrito um único verso.
Poeta do amor mais puro e profundo que já vi.

No dia em que completei trinta anos
mandou buscar para minha mãe a orquídea mais bonita de Jundiaí.
O cartão dizia que há trinta anos ela o tinha feito, pela primeira vez,
o homem mais feliz do mundo
(sou o primeiro filho deles).
Minha mãe disse com todo encanto do mundo:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Minha irmã caçula, depois de onze outros partos de minha mãe,
nasceu no dia nove de maio de mil novecentos e setenta e um
(dia das Mães, naquele ano).

Meu pai deu a ela o mesmo nome de minha mãe Regina – Rainha.
Quando chegou com a certidão de nascimento em casa
minha mãe com o mesmo encanto de sempre disse:
- Como você é bobo, Milton! E riram um riso casto.

Quando estou muito triste gosto de imaginar
o quanto de poesia ele fez entre o primogênito e a caçula deles. E rio. Apenas rio.

Com eles aprendi que poetas são bobos.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

NA RUA DE MINHA CASA


NA RUA DE MINHA CASA
Oswaldo Antônio Begiato

Enquanto o Reino Unido se encantava com o casamento de seus príncipes,
No agora deserto de meu pequenino reino,
Formado por paralelepípedos, asfaltos e concretos,
Uma maria-sem-vergonha decidiu nascer dentro do bueiro
(Oásis inóspito de um progresso desenfreado ).

Nasceu cor-de-rosa com pintas brancas.
Lá dentro foi se fazendo feminina;
Vestiu-se como uma promessa atrevida
E rindo foi brincando com o impossível.

De flor assim tão frágil
nunca vi tanta meiguice.
Nunca vi tanta coragem.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

sábado, 16 de abril de 2011

OLHARES DIURNOS


OLHARES DIURNOS
Oswaldo Antônio Begiato

Há tanta veracidade em ver a cidade
sem muitas flores em seus concretos,
sem muitas almas em suas carnes e seus ossos
movendo-se como um turbilhão infindável.

Quando eu era menino
guardava sempre pétalas de flores
no meio de meus livros. Eu preferia os livros de poesia.

A flor da qual eu mais gostava de guardar as pétalas
era a rosa.

Um dia arrumei uma namorada que se chamava Rosa.
Contei isso pra ela e ela nem ligou.
Então eu desisti dela e fui namorar uma brinco-de-princesa:
- Hoje somos unha e carne.

Ela me ensinou a questionar a quem pertence a alma:

Ao osso,
ao sangue
à carne?

A alma pertence à unha, dizia ela
com sua sabedoria de flor.

Dizia mais:

- Há em cada porto uma porta aberta.
Há em cada linho uma linha reta.
(Sempre é possível começar uma vida nova com uma roupa limpa.)

Planejei mil folhas de alecrim
sem pauta e sem nervuras,
todas brancas como almas de criança,
a fim de escrever um lindo verso de amor.

Mas aí aconteceu essa brinco-de-princesa
fazendo-me poeta e urubu rei, dono de todas as alturas,
e meu verso ficou tão bonito que passaram a me chamar de o poeta das nuvens.

Sei que isso é exagero, mas gosto porque me deixa mais apaixonado ainda
pela flor que se instalou na orelha da princesa.
Azar o meu que fui brincar com o amor. Ou será sorte?

terça-feira, 12 de abril de 2011

INGLÓRIA


INGLÓRIA
Oswaldo Antônio Begiato

Quando eu me encontro comigo mesmo
Dentro de minha consciência,
Acontece ali um duelo de vida e morte
Entre minha alma boa e meus ímpetos ruins,
Onde não há vencedor, apenas extenuado.

Preciso criar coragem e perder o escrúpulo.
Aprender a lutar comigo mesmo buscando a paz
Escondida no equilíbrio do bem e do mal,
Como se eu fosse dois usando a mesma armadura.

Há males que vêm para o bem; a derrota.
E há bens que vêm para o mal; a vitória.
Até aonde vencer uma batalha é coisa boa?

O sol hoje vai nascer às seis e trinta e três
E se pôr às dezoito e trinta e seis.

Recolherá pela manhã com seus braços de calor
O orvalho que a noite deixou esgotado sobre as folhagens,
E ao se pôr à tardinha devolverá à noite
O orvalho, agora purificado, forte e apaixonado
Para se cumprir mais uma rotina:
- Amar com seu frescor a noite que se encherá de estúrdia.

Quem sabe eu me encontrarei na busca inglória do aprumo!
Tenho desde o nascer até o pôr do sol para descobrir meu eixo.

É dessas coisas que meus dias são extraídos. Santamente extraídos.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

OVO CEGO


OVO CEGO
Oswaldo Antônio Begiato

Filho no trilho
Folha na trolha
Falha na tralha

Trilho sem filho
Trolha em folha
Tralha quem falha

sábado, 26 de março de 2011

TRÊS PEQUENAS PORÇÕES




CATECISMO

- Que horas são?
- Oração?
Oração é a elevação da alma a Deus!

SAGRAÇÃO AO PÉ DA LETRA
Para Valquiria Gesqui Malagoli

Poeta,
eis aí a tua poesia.
Poesia,
eis aí a tua rainha!

CANTO DE FADAS
Para Renata Iacovino

Não sei se sou nota
ou se sou palavra.

Quando sou nota
dispo a palavra.
Quanto sou palavra
visto a nota.

E assim vamos os três,
enfrentando lobos
e despertando princesas.

sábado, 12 de março de 2011

NOTÍCIA DE UM ROUBO



NOTÍCIA DE UM ROUBO
Oswaldo Antônio Begiato

Um ladrão pulou o muro de uma casa na noite desta segunda-feira
e roubou três enfeites de jardim:
Um gnomo, um sapo e uma centopéia.

Segundo a polícia, há marcas de pés sujos nas paredes do local.

O ladrão de gnomo de jardim,
apesar de seus pés sujos,
não foi encontrado pela polícia.

Isso é que é ter sorte na vida!

domingo, 6 de março de 2011

ATENDIMENTO



ATENDIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato

Você me pediu uma poesia;
resmungou alguma coisa parecida com uma exposição.
Não entendi muito bem não!
Mas com você é assim mesmo:
Pede e eu simplesmente obedeço.

Logo você me pede uma poesia.
Você, que tanto tem de margarida
mas que a última pétala jamais será um malmequer.
Aliás, pétala alguma sua é malmequer.

Com você tem que se saber brincar;
puxa-se uma pétala e diz-se assim:
- Bem-me-quer!
Puxa-se outra pétala e de novo se diz:
- Bem-me-quer!

Com você tem que se saber falar.
Seu encanto é ser meio muda e esperar mudez,
meio sem jeito de falar e com todo jeito de ouvir o silêncio das coisas,
mas quando fala a gente escuta atento e quieto e submisso.

Com você tem que se saber estar.
Não se pode olhar de frente.
Avermelha-se toda. Perde o rebolado.
Por certo um buquê feito com você, com seus olhos
com seu branco e seu amarelo diáfanos
iluminaria todas as sombras do mundo.
Você é a mais bonita dentre todas as outras flores.

Com você tem que se saber fazer.
Quando pede uma poesia
sei que quer somente uma poesia.
Você nem sabe que é a mais pura poesia,
em carne e osso, ou se sabe, disfarça.
Você é a minha poesia predileta. A única.

Então eu finjo que escrevo uma poesia,
todo mundo vê que eu escrevi você;
só você não vê
(ou finge que não vê).

E me fazes o homem mais feliz do mundo.
Chego e pensar que sou mesmo poeta.
Caramba!