sexta-feira, 29 de abril de 2011
sábado, 16 de abril de 2011
OLHARES DIURNOS

OLHARES DIURNOS
Oswaldo Antônio Begiato
Há tanta veracidade em ver a cidade
sem muitas flores em seus concretos,
sem muitas almas em suas carnes e seus ossos
movendo-se como um turbilhão infindável.
Quando eu era menino
guardava sempre pétalas de flores
no meio de meus livros. Eu preferia os livros de poesia.
A flor da qual eu mais gostava de guardar as pétalas
era a rosa.
Um dia arrumei uma namorada que se chamava Rosa.
Contei isso pra ela e ela nem ligou.
Então eu desisti dela e fui namorar uma brinco-de-princesa:
- Hoje somos unha e carne.
Ela me ensinou a questionar a quem pertence a alma:
Ao osso,
ao sangue
à carne?
A alma pertence à unha, dizia ela
com sua sabedoria de flor.
Dizia mais:
- Há em cada porto uma porta aberta.
Há em cada linho uma linha reta.
(Sempre é possível começar uma vida nova com uma roupa limpa.)
Planejei mil folhas de alecrim
sem pauta e sem nervuras,
todas brancas como almas de criança,
a fim de escrever um lindo verso de amor.
Mas aí aconteceu essa brinco-de-princesa
fazendo-me poeta e urubu rei, dono de todas as alturas,
e meu verso ficou tão bonito que passaram a me chamar de o poeta das nuvens.
Sei que isso é exagero, mas gosto porque me deixa mais apaixonado ainda
pela flor que se instalou na orelha da princesa.
Azar o meu que fui brincar com o amor. Ou será sorte?
terça-feira, 12 de abril de 2011
INGLÓRIA

INGLÓRIA
Oswaldo Antônio Begiato
Quando eu me encontro comigo mesmo
Dentro de minha consciência,
Acontece ali um duelo de vida e morte
Entre minha alma boa e meus ímpetos ruins,
Onde não há vencedor, apenas extenuado.
Preciso criar coragem e perder o escrúpulo.
Aprender a lutar comigo mesmo buscando a paz
Escondida no equilíbrio do bem e do mal,
Como se eu fosse dois usando a mesma armadura.
Há males que vêm para o bem; a derrota.
E há bens que vêm para o mal; a vitória.
Até aonde vencer uma batalha é coisa boa?
O sol hoje vai nascer às seis e trinta e três
E se pôr às dezoito e trinta e seis.
Recolherá pela manhã com seus braços de calor
O orvalho que a noite deixou esgotado sobre as folhagens,
E ao se pôr à tardinha devolverá à noite
O orvalho, agora purificado, forte e apaixonado
Para se cumprir mais uma rotina:
- Amar com seu frescor a noite que se encherá de estúrdia.
Quem sabe eu me encontrarei na busca inglória do aprumo!
Tenho desde o nascer até o pôr do sol para descobrir meu eixo.
É dessas coisas que meus dias são extraídos. Santamente extraídos.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
OVO CEGO
sábado, 26 de março de 2011
TRÊS PEQUENAS PORÇÕES

CATECISMO
- Que horas são?
- Oração?
Oração é a elevação da alma a Deus!
SAGRAÇÃO AO PÉ DA LETRA
Para Valquiria Gesqui Malagoli
Poeta,
eis aí a tua poesia.
Poesia,
eis aí a tua rainha!
CANTO DE FADAS
Para Renata Iacovino
Não sei se sou nota
ou se sou palavra.
Quando sou nota
dispo a palavra.
Quanto sou palavra
visto a nota.
E assim vamos os três,
enfrentando lobos
e despertando princesas.
sábado, 12 de março de 2011
NOTÍCIA DE UM ROUBO

NOTÍCIA DE UM ROUBO
Oswaldo Antônio Begiato
Um ladrão pulou o muro de uma casa na noite desta segunda-feira
e roubou três enfeites de jardim:
Um gnomo, um sapo e uma centopéia.
Segundo a polícia, há marcas de pés sujos nas paredes do local.
O ladrão de gnomo de jardim,
apesar de seus pés sujos,
não foi encontrado pela polícia.
Isso é que é ter sorte na vida!
domingo, 6 de março de 2011
ATENDIMENTO

ATENDIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato
Você me pediu uma poesia;
resmungou alguma coisa parecida com uma exposição.
Não entendi muito bem não!
Mas com você é assim mesmo:
Pede e eu simplesmente obedeço.
Logo você me pede uma poesia.
Você, que tanto tem de margarida
mas que a última pétala jamais será um malmequer.
Aliás, pétala alguma sua é malmequer.
Com você tem que se saber brincar;
puxa-se uma pétala e diz-se assim:
- Bem-me-quer!
Puxa-se outra pétala e de novo se diz:
- Bem-me-quer!
Com você tem que se saber falar.
Seu encanto é ser meio muda e esperar mudez,
meio sem jeito de falar e com todo jeito de ouvir o silêncio das coisas,
mas quando fala a gente escuta atento e quieto e submisso.
Com você tem que se saber estar.
Não se pode olhar de frente.
Avermelha-se toda. Perde o rebolado.
Por certo um buquê feito com você, com seus olhos
com seu branco e seu amarelo diáfanos
iluminaria todas as sombras do mundo.
Você é a mais bonita dentre todas as outras flores.
Com você tem que se saber fazer.
Quando pede uma poesia
sei que quer somente uma poesia.
Você nem sabe que é a mais pura poesia,
em carne e osso, ou se sabe, disfarça.
Você é a minha poesia predileta. A única.
Então eu finjo que escrevo uma poesia,
todo mundo vê que eu escrevi você;
só você não vê
(ou finge que não vê).
E me fazes o homem mais feliz do mundo.
Chego e pensar que sou mesmo poeta.
Caramba!
sábado, 26 de fevereiro de 2011
QUANDO AS PRIMAVERAS APRENDEM A VOAR

QUANDO AS PRIMAVERAS APRENDEM A VOAR
Oswaldo Antônio Begiato
Canso-me, antes do anúncio da chegada do trem
Pelo sino fatal escondido na torre da estação,
Mas quero manter-me desperto. Vivo.
Não quero mais janelas no meu quarto.
As janelas me deixam enrugado. Por elas entra o tempo.
Quero só primaveras. Primaveras quentes.
Que elas invadam paredes adentro,
Se instalem em minha cama. Em meu corpo.
Me cubram de flores. Me façam feliz.
Que as primaveras não me deixem esquecer de amar.
Quero ter a esperança de corações buliçosos.
Um coração envelhecido dói.
Coberto por terminações nervosas e sentimentais
Dói como qualquer outro órgão. E dói muito!
Quem me dera não doesse. Não sentisse.
Quem me dera não amasse tanto,
Nessa idade cheia de curtos anos.
Cheia de desenganos.
O que será que envelhece tão bruscamente o coração de um homem?
As ilusões? As desilusões?
...
Os jovens não envelhecem nunca.
Os anos dos jovens são longos. Demoram findar.
Eles têm a pela lisinha,
o rosto ingênuo,
o andar desleixado,
uma liberdade que
só eles conseguem espalhar,
por conta dos sonhos.
Por conta de um coração invulnerável.
Isso os torna fascinantes. Têm eles um amor ágil e fácil.
A nós, velhos,
só resta aceitar as mazelas e delas debochar.
...
O que me mantém vivo é o pé de moleque;
brejeiro fica invertendo a direção dos sentidos
e mandando a morte passar adiante.
Teimosamente, permaneço amando.
Não sei como. Não sei o por quê. Não sei quem.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
QUE PENA ISSO!

-------------------->Tela: Caminhante, de Daniel de Oliveira - Dany
QUE PENA ISSO!
Oswaldo Antônio Begiato
Prosternado
Pelo teu impetuoso lado
Deixo esfolamentos
Ficarem nos muitos momentos
Que deserdei
Quando ainda eu era rei
Consternado
Por meu imprevisível lado
Fico muito triste
Na ausência tola que insiste
Na minha vida
Como vida removida
E assim vou bastardo, de déu em déu
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
IMPRESCINDIBILIDADE
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
CÂNDIDO

..................................................Foto: Milene Sarquissiano
CÂNDIDO
Oswaldo Antônio Begiato
O Mestiço, moço, negro, sem camisa e belo,
veio, candidamente, me visitar no museu que construí,
com as coisas recolhidas no sótão de minhas anamneses.
Trouxe-me um cacho de lichias
maduras, docinhas e geladinhas.
Trouxe-o dentro de uma vasta cesta de vime
forrada com um pano de prato prata, bordado à mão.
Tudo interioranamente paulista.
No cartão de visita uma dedicatória e uma lição:
“Não perca seu tempo com santidades nem com sanidades;
as coisas mundanas e insanas é que são inolvidáveis.”
Trouxe-me, pois, essas réstias de esperança
só encontradas no sol e no solo de Brodowski.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
PRINCÍPIO E PRECIPÍCIO

PRINCÍPIO E PRECIPÍCIO
Oswaldo Antônio Begiato
De onde partiu o golpe que partiu meu coração
partiu também a flecha reta que me faz compor por linhas curvas.
Cansei-me de vaguear por águas turvas.
Dentro de ti aprendi, deusa da fertilidade,
a navegar e a fundear nas bacias floridas de tua alma casta e me fizeste estreme.
Com asas coloridas por entre tuas flores aprendi a voar e a fecundar;
a fecundar e a voar, em nome do vento e da multiplicação.
Foi dentro de ti, celeiro de virtudes robustas,
que encontrei, de olhos fechados, a retidão.
E não queiram agora me apartar de minhas convicções,
elas me acompanham desde os tempos de borboleta razoável.
(O fim dos princípios é o princípio do fim;
abismo de onde só volta quem tiver asas arco-irisadas.)
Quero, pois, viver a beleza imortal do presente, afortunado que sou,
e desatar-me de um passado duramente gravado no anel de compromisso
como obra de arte - natureza morta emoldurada de saudades -
cuja utilidade única é a de ficar exposta no museu do inalterável.
Queria tanto te deixar um presente, em forma de poesia fecunda.
Não a poesia ordinária que ando fazendo,
feita de palavras, de métricas, de rimas, de regras tantas...
Mas uma poesia feita de gestos onde o olhar se adentra pela alma afora
perfura as blindagens e desperta o inusitado.
(A expressão de um olhar apaixonado
é mais bela e profunda do que qualquer poesia escrita.)
Essa é a poesia que quero te deixar. O meu olhar belo e profundo,
capaz de conferir asas coloridas a quem quiser escapulir de abismos.
Mas como ando cego e acanhado
não serei capaz de compor a poesia de meu amor.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
PINCÉIS EM MOVIMENTO

.................................................Abaporu - Tarsila do Amaral
PINCÉIS EM MOVIMENTO
Oswaldo Antônio Begiato
a Rita
acaba de descobrir
a rota
a rota
acaba de descobrir
a reta
a reta
acaba de descobrir
a roda
a roda
acaba de descobrir
a Rita...
...de uma das estáticas paredes
do Museu de Arte
Latino-Americana
de Buenos Aires
Abaporu
espia demoradamente
o desenho dos gestos
mudando as alavancas
que movem a terra
inventando inocentes
uma nova técnica
para curar a poesia
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
QUANDO CHEGA O CHEIRO DA UVA

QUANDO CHEGA O CHEIRO DA UVA
Oswaldo Antônio Begiato
Com o final do ano chegam à minha cidade
as barraquinhas onde se vende uva em caixas de madeira.
Elas se proliferam nas esquinas. Nas encruzilhadas.
Nas ruas estreitas. Nas ruas largas.
Nas estradas. Nos becos sem saídas.
Há na minha cidade sítios onde mãos rudes
na iminente chegada do Natal,
santamente se aveludam para a colheita da uva.
(É um ritual onde veludos se abençoam;
o da mão do viticultor
e o da pele do fruto maduro.)
Minha cidade é a terra da uva;
Uva Niágara -
rosada, branca.
Uvas de mesa.
Minha cidade é terra de uvas e de mesas.
Quando a uva por aqui chega
chega também a chuva.
Chuva de fim de tarde. Chuva fina.
Chuva de verão. Tempestuosa.
Chuva de granizo. Chuva granítica.
Tem chuva que a uva gosta, porque acaricia.
Tem chuva que a uva não gosta, porque machuca.
Minha terra é terra de uva no final do ano.
Minha terra é terra de chuva no final do ano.
E quando as uvas passam e as barraquinhas se vão,
pode-se ver por toda a cidade
flores brancas e dóceis,
pequeninas como um olhar
ternas como um perdão;
e minha cidade hospeda em suas ruas poesias órfãs.
Minha terra é terra de flor o ano todo,
de poesia dentro de mim desde sempre.
E é por isso que a lua,
tão distante, tão fria, tão pálida
vez por outra se despenca do céu
enfeita-se de flores
e se embebeda de vinho
nas noites chuvosas de minha cidade.
O alto falante do serviço de som da quermesse,
onde acontece a Festa Italiana
anuncia que o desvio de conduta não será tolerado.
E não será mesmo.
É nessa ocasião que a lua se parteja toda
em poesias rubras. Em poesias prateadas.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
PENITENTE INAMÁVEL
PENITENTE INAMÁVEL
Oswaldo Antônio Begiato
Onde há cruz não há manto.
Onde há manto, lança-se a sorte
Pois o manto não se divide
(Ele é peça única, sem costura
e a ele dono único será dado).
Não padeço de males pequenos.
Meus males vão além do túmulo.
Vão além da esperança. Além do material.
Aqui jaz o corpo novo de uma alma velha.
Nunca amada, nunca amou.
(Assim quero escrito com letra de forma
na minha pedra tumular)
Pois assim foi minha vida,
Que seja assim também minha eternidade.
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