quarta-feira, 29 de abril de 2009
sábado, 25 de abril de 2009
AMOR SEM SENTIDO

AMOR SEM SENTIDO
Oswaldo Antônio Begiato
Tu me pedes que eu seja.
Me tomo pelas minhas mãos,
Já cansadas de tantas conduções,
Vou lá e me transformo,
Com o corpo em carne viva,
No que de mais belo posso ser.
Depois, sem mais nem menos, queres que eu deixe de ser
Todos os caminhos que abri.
E lá vou eu, sem eira nem beira, povoar ruas escuras.
- Jogo fora todas as minhas valiosas experiências.
Tu me pedes que eu tenha.
Andarilho sem bens nem heranças,
Deixo as ruas por onde existo,
Vou lá e me empenho,
Com os nervos à flor da pele,
Para ter o que de mais caro posso ter.
Aí me pedes que eu me livre
De todos os sorrisos que inventei.
E lá vou eu, pobre de espírito, buscar o meu tormento.
- No lixo ficam as tantas coisas que tanto me custaram.
Tu me pedes que eu faça,
E eu, feito o Corcunda de Notre Dame,
Apaixonado por uma Esmeralda insensível,
Vou lá e me mutilo,
Das tripas então faço o coração,
E te conquisto o mais belo dos mundos.
Então, descontente e infeliz me mandas desfazer
Todas as plásticas que me serenaram.
E lá vou eu, médico e monstro, suturar todas as feridas.
- Torno-me a cicatriz exata de um amor sem sentido.
Haja paciência!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
segunda-feira, 13 de abril de 2009
LENDAS PERDIDAS

Tela de Leonid Afrenov
LENDAS PERDIDAS
Oswaldo Antônio Begiato
É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam do mundo
Meu mundo azul e coberto de quimeras.
Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.
terça-feira, 7 de abril de 2009
DECLARAÇÃO DE DESEJO

DECLARAÇÃO DE DESEJO
Oswaldo Antônio Begiato
Minha querida e minha amada,
enamorado de ti mulher
e de teu corpo repleto de cio
ardo em febre,
sonho contigo e não te deixo saber.
De um lado do alforje
que trago nos ombros
(o lado virado para a terra)
guardo tantas estrelas,
recolhidas de minhas alucinações,
que possível seria inventar um céu
só para acolher teu corpo desvelado.
Do outro lado do alforje
(o lado virado para o mar)
guardo tantas tormentas
e tantos raios e tantos relâmpagos
- eles criam meus desejos
consumados em fogo eterno -
que seriam capazes de me deixar louco
e virar-me ao avesso
enquanto que enfebreço
com o cheiro de fêmea que exala
o teu corpo tenro e arrepiado.
Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.
Todos meus pecados
Tem a tua presença.
A presença de teus seios pequenos
Alimentando minha boca sem medos;
A presença de teus lábios roxos
Sufocando meus beijos ávidos;
A presença de tuas coxas balsâmicas
Envolvendo as minhas pernas lassas;
A presença de teu sexo úmido
Incitando minha irrequieta tesão.
Toda minha volúpia incandescente
Se faz acabada quando doce me permites,
com meus dedos bobos e trêmulos
E minha língua ágil e salivada,
Te vasculhar as fendas mais lúbricas.
Todos meus ímpetos insopitáveis
São amainados pelo teu ventre
Que acolhe meu sêmem
Quando, com meu sexo rijo,
Te penetro como homem
E te amo como anjo saciado.
sexta-feira, 3 de abril de 2009
SEMEADORES DE DESVELOS
SEMEADORES DE DESVELOS
Oswaldo Antônio Begiato
Há dias em que
o mundo cheira mal.
As notícias cheiram mal.
Os valores cheiram mal.
As atitudes cheiram mal.
Os homens cheiram mal.
Há dias em que
há no ar um forte cheiro
de desesperança.
Há no ar um forte cheiro
de indelicadezas.
Nesses dias
sinto uma saudade imensa
do pé de dama da noite
que minha mãe regava,
toda tardinha,
nos tempos de estiagem
e das mudas de lichia e jabuticaba,
produzindo,
com as quais meu pai
presenteava os amigos
que tinham quintal.
Havia no gesto delicado deles
uma indescritível esperança.
Uma esperança de perfume!
segunda-feira, 30 de março de 2009
sexta-feira, 27 de março de 2009
OS OLHOS VIVOS DELA

OS OLHOS VIVOS DELA
Oswaldo Antônio Begiato
Ela amava aquele homem
Intensamente.
Passou a vida inteira
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.
A vida inteira
Lavou sua roupa,
Alvejou,
Engomou,
Passou...
... e cuidou do vinco
e do vínculo.
A vida inteira
Preparou sua comida,
Escolheu,
Temperou,
Cozinhou...
...e conservou a louça
e os laços.
A vida inteira
Cortou suas unhas,
Limpou,
Lixou,
Beijou...
... e as recolheu nas entranhas,
às vezes estranhas.
A vida inteira
Amou aquele homem
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.
Contudo,
manteve,
a vida inteira,
os olhos vivos
onde se podia ler
a mais bela
declaração de amor.
E quando ele morreu,
de velho,
Ela morreu em seguida,
de saudades.
Ainda tinha os olhos vivos.
segunda-feira, 23 de março de 2009
ARRISQUEI-ME EM UMA CRÔNICA - ME PERDOEM

MÃE NOSSA
Tendo sido eu plantado, crescido, florido e amadurecido à sombra da torre de um Santuário dedicado a Nossa Senhora, acredito em Deus, embora quase sempre e diante de tantas coisas por mim incompreendidas julgo-me, até certo ponto, ateu.
Porém, não consigo explicar para o meu coração exigente e vazio a face desse Deus que me faz rezar logo pela manhã quando ainda estou despertando de meus sonhos, e à noitinha quando estou me preparando para adormecer santificado, na esperança de obter sonhos bons.
Rezo tanto por mim como por todas as pessoas do mundo, cujos ombros suportam algum tipo de sacrifício ou sofrimento inexplicáveis. Rezo apenas. Faz algum tempo já que não procuro mais explicações.
Assim, quando me lembro do ensinamento a mim legado, eu menino ainda, de olhos crédulos e alma repleta de culpa, de que somente Deus é onipresente, onipotente e onisciente, caio na tentação de ficar imaginando ser Deus fruto de nosso pensamento humano e frágil.
Ocorre-me então uma idéia fascinante. Quase chego ao convencimento de que há uma grande possibilidade de Deus ser a própria Natureza, ou quem sabe, a Natureza ser o próprio Deus. Já imaginaram um Deus fêmeo? Em vez de Pai, Mãe?
Senão vejamos.
Com a vida, por onde perambulo há mais de meio século, aprendi que a Natureza tudo pode. Se tudo pode é onipotente. É dela todas as formas de milagre que se conhecem, desde os mais simples, como um copo cheio de água ou uma pequena semente se traduzindo em flor, até os mais complexos, como as infinitas combinações do DNA, permitindo a cada ser vivo ter sua única e exclusiva identidade e ter seu próprio pensamento, aproximando-o das raias doces da loucura.
A natureza é onipresente. Fascina-me pensar poder encontrá-la no mesmo copo de água que saciará nossa sede como encontrá-la no cálice da flor que saciará os nossos olhos sedentos de poesia. Assim ela está também presente na combinação do DNA que nos foi destinada e determinou essa nossa loucura santa, a nos encher de tantas incertezas.
E Ela é finalmente onisciente. De tudo sabe. É bem verdade que às vezes custa a se revelar, mas que de tudo sabe , sabe. Sabe quando estamos tristes e nos alimenta os olhos com lágrimas e flores, sabe quando estamos felizes e se derrama sobre nós em sorrisos e esperanças. É Ela a manipuladora do remédio certo para cada dor nossa, para cada amor nosso não correspondido. É Ela a Mestra através da qual aprendemos os caminhos precisos a seguir para cumprir nosso destino. Quando vai chover o céu se escurece. Quando vai esfriar os joelhos enrijem-se. Quando há olhos as flores nascem. E a cada DNA novo uma esperança nova reedita o milagre da criação.
E quando vai acontecer alguma criação, Ela se enfeita toda, e enche nossos olhos de surpresas e encantos.
Fico eu aqui com meus botões, indagando:
Não seria por isso que os indígenas, de quem roubamos e vilipendiamos a terra, certamente mais sábios que nós, já tivessem lá seus deuses com inspiração nessa Natureza?
Catú, o deus outonal; Mutin, o deus da primavera; Peurê, o senhor do verão; Nhará, que preside o inverno...
E quando constato, que nós homens, somos os seus filhos mais ilustres, fico sobremaneira assustado. Porque como filhos mais ilustres, fomos por Ela elevados à condição de anjos. E aí meu coração entende o Arcanjo Miguel e Lúcifer e certo Livro que fala abundantemente deles.
Diz-se nesse Livro que Deus criou inumeráveis anjos com a finalidade de Lhe servirem de mensageiros, mas decidiu colocá-los à prova para ver se eles eram capazes de amá-Lo e respeitá-Lo para sempre. O bando de Lúcifer, querendo tirar, com certeza todos os proveitos possíveis e imagináveis, se rebelou e se tornou a Legião de anjos maus.
Pois é o que somos. Uma grande maioria de anjos bons tratando a Natureza como nossa Mãe e sendo dela mensageiros, amando-a e respeitando-a sobre todas as coisas. E uma pequena minoria de anjos maus que vivem no inferno e querem o inferno para todos, agredindo-a, poluindo suas águas e seu ar, queimando suas florestas, dando mau uso a seus frutos, com o único intuito egoísta de provar serem tão deus quanto Ela, feito Adão no paraíso seduzido pela serpente.
Se me fosse dada a missão de fazer um pedido aos homens de boa vontade, pediria a cada um, que fizesse todo dia uma prece curtinha. Mas que a fizesse com devoção profunda, o coração cheio de ternura e o espírito de preservação sincero. Uma oraçãozinha pequenina inspirada em outra oração que o mundo inteiro já reza. É assim:
“Mãe Nossa, Mãe Natureza que estais aqui, respeitado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O ar nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas agressões, assim como nós perdoamos a quem nos tem agredido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal da ganância. Amém.”
Glória ao Ar Puro, à Água cristalina, e ao Alimento bem distribuído, assim como era no princípio, agora e sempre.
sexta-feira, 20 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
SERENIDADE

SERENIDADE
Oswaldo Antônio Begiato
As tormentas, que em alto-mar
Deixam meu barco à deriva,
Me fazem aumentar, a duras penas,
O alcance de minha vista
E a nitidez de meus horizontes;
A paciência de meus tímpanos
E a escassez de minhas palavras;
A delicadeza de minhas mãos
E a vastidão de meus gestos;
O cuidado com meus passos
E a anchura de meus caminhos;
As loucuras de meu coração
E a serenidade de meu juízo.
Sobretudo aumento nesse mar,
Nas estreitezas de meu navegar,
A mansidão de minha alma
E a percepção de mim mesmo.
terça-feira, 17 de março de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
HORAS
HORAS
Oswaldo Antônio Begiato
Vieste buscar as horas
Que, quando ainda jovem,
Deixaste abandonadas
No pêndulo do relógio?
Elas trincaram a pele
Do reboco que escondia
A fraqueza das paredes
E a insolência do passado
E descoloriram a retina
Das cortinas que protegiam
A sala das vidraças, do sol
E dos maus olhados.
Leve-as contigo.
Guarde-as.
Guarde-as como quem guarda
O pão caseiro,
No forno do fogão
Cobertas por um pano de prato
Para que testemunhem a saciação
De quem as quer consumidas.
Guarde-as como quem guarda
A aliança de noivado,
Na caixinha de música,
Para que denunciem a subtração
De quem as quer furtadas.
Guarde-as.
Porque elas te encheram a vida de tempo
E lhe farão experimentar o fim.
quinta-feira, 5 de março de 2009
OLHOS OPALINOS

OLHOS OPALINOS
Oswaldo Antônio Begiato
Pudesse eu
nesta minha vida
de dúvidas desmedidas
voltar às certezas singelas
de minhas primeiras convicções!
Crer no Natal
com olhos de pedras preciosas
e no Ano Novo
com olhos de eternidade.
Ver o futuro
com olhos de castelo de areia
e o presente
com olhos de infinidade.
Viver a realidade
com olhos de duendes
e os desenganos
com olhos de perenidade.
Pudesse eu
ir buscar no meu abandonado caminho
todos os olhos que perdi
e com eles todos em contemplação
redesenhar delicadezas,
reinventar gestos,
redescobrir gratidões
e prescrever serenidades!
Pudesse eu
ter todas as minhas feridas
curadas pelo beijo
de minha mãe!
Porém
estou na idade de olhos opalinos:
- eles não enxergam
além de um presente amorfo.
Estou na idade
em que beijos
não curam;
beijos ferem.
terça-feira, 3 de março de 2009
BOM DIA

BOM DIA
Oswaldo Antônio Begiato
Cansado de meus invernos,
Quero hoje plantar
Com as mãos repletas de outono
E o coração de dádivas,
A semente de um pé de ipê,
De um pé de ipê amarelo.
Depois ungir-me-ei
Com o óleo santo
Que verte dos olhos de Maria
E me recolherei ermitão
Na varanda de minhas ilusões,
Esperando a primavera chegar.
E quando a primavera vier,
Com suas vestes adornadas
Pelos milagres da terra,
Abrirei um sorriso limpo
Sobre a nascença do verão.
Tudo então será sol.
Tudo então será flor.
Coisa linda de se ver!
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