segunda-feira, 30 de março de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

OS OLHOS VIVOS DELA


OS OLHOS VIVOS DELA
Oswaldo Antônio Begiato

Ela amava aquele homem
Intensamente.

Passou a vida inteira
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.

A vida inteira
Lavou sua roupa,
Alvejou,
Engomou,
Passou...
... e cuidou do vinco
e do vínculo.

A vida inteira
Preparou sua comida,
Escolheu,
Temperou,
Cozinhou...
...e conservou a louça
e os laços.

A vida inteira
Cortou suas unhas,
Limpou,
Lixou,
Beijou...
... e as recolheu nas entranhas,
às vezes estranhas.

A vida inteira
Amou aquele homem
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.

Contudo,
manteve,
a vida inteira,
os olhos vivos
onde se podia ler
a mais bela
declaração de amor.

E quando ele morreu,
de velho,
Ela morreu em seguida,
de saudades.

Ainda tinha os olhos vivos.

segunda-feira, 23 de março de 2009

ARRISQUEI-ME EM UMA CRÔNICA - ME PERDOEM


MÃE NOSSA

Tendo sido eu plantado, crescido, florido e amadurecido à sombra da torre de um Santuário dedicado a Nossa Senhora, acredito em Deus, embora quase sempre e diante de tantas coisas por mim incompreendidas julgo-me, até certo ponto, ateu.

Porém, não consigo explicar para o meu coração exigente e vazio a face desse Deus que me faz rezar logo pela manhã quando ainda estou despertando de meus sonhos, e à noitinha quando estou me preparando para adormecer santificado, na esperança de obter sonhos bons.

Rezo tanto por mim como por todas as pessoas do mundo, cujos ombros suportam algum tipo de sacrifício ou sofrimento inexplicáveis. Rezo apenas. Faz algum tempo já que não procuro mais explicações.

Assim, quando me lembro do ensinamento a mim legado, eu menino ainda, de olhos crédulos e alma repleta de culpa, de que somente Deus é onipresente, onipotente e onisciente, caio na tentação de ficar imaginando ser Deus fruto de nosso pensamento humano e frágil.

Ocorre-me então uma idéia fascinante. Quase chego ao convencimento de que há uma grande possibilidade de Deus ser a própria Natureza, ou quem sabe, a Natureza ser o próprio Deus. Já imaginaram um Deus fêmeo? Em vez de Pai, Mãe?

Senão vejamos.

Com a vida, por onde perambulo há mais de meio século, aprendi que a Natureza tudo pode. Se tudo pode é onipotente. É dela todas as formas de milagre que se conhecem, desde os mais simples, como um copo cheio de água ou uma pequena semente se traduzindo em flor, até os mais complexos, como as infinitas combinações do DNA, permitindo a cada ser vivo ter sua única e exclusiva identidade e ter seu próprio pensamento, aproximando-o das raias doces da loucura.

A natureza é onipresente. Fascina-me pensar poder encontrá-la no mesmo copo de água que saciará nossa sede como encontrá-la no cálice da flor que saciará os nossos olhos sedentos de poesia. Assim ela está também presente na combinação do DNA que nos foi destinada e determinou essa nossa loucura santa, a nos encher de tantas incertezas.

E Ela é finalmente onisciente. De tudo sabe. É bem verdade que às vezes custa a se revelar, mas que de tudo sabe , sabe. Sabe quando estamos tristes e nos alimenta os olhos com lágrimas e flores, sabe quando estamos felizes e se derrama sobre nós em sorrisos e esperanças. É Ela a manipuladora do remédio certo para cada dor nossa, para cada amor nosso não correspondido. É Ela a Mestra através da qual aprendemos os caminhos precisos a seguir para cumprir nosso destino. Quando vai chover o céu se escurece. Quando vai esfriar os joelhos enrijem-se. Quando há olhos as flores nascem. E a cada DNA novo uma esperança nova reedita o milagre da criação.

E quando vai acontecer alguma criação, Ela se enfeita toda, e enche nossos olhos de surpresas e encantos.

Fico eu aqui com meus botões, indagando:

Não seria por isso que os indígenas, de quem roubamos e vilipendiamos a terra, certamente mais sábios que nós, já tivessem lá seus deuses com inspiração nessa Natureza?

Catú, o deus outonal; Mutin, o deus da primavera; Peurê, o senhor do verão; Nhará, que preside o inverno...

E quando constato, que nós homens, somos os seus filhos mais ilustres, fico sobremaneira assustado. Porque como filhos mais ilustres, fomos por Ela elevados à condição de anjos. E aí meu coração entende o Arcanjo Miguel e Lúcifer e certo Livro que fala abundantemente deles.
Diz-se nesse Livro que Deus criou inumeráveis anjos com a finalidade de Lhe servirem de mensageiros, mas decidiu colocá-los à prova para ver se eles eram capazes de amá-Lo e respeitá-Lo para sempre. O bando de Lúcifer, querendo tirar, com certeza todos os proveitos possíveis e imagináveis, se rebelou e se tornou a Legião de anjos maus.

Pois é o que somos. Uma grande maioria de anjos bons tratando a Natureza como nossa Mãe e sendo dela mensageiros, amando-a e respeitando-a sobre todas as coisas. E uma pequena minoria de anjos maus que vivem no inferno e querem o inferno para todos, agredindo-a, poluindo suas águas e seu ar, queimando suas florestas, dando mau uso a seus frutos, com o único intuito egoísta de provar serem tão deus quanto Ela, feito Adão no paraíso seduzido pela serpente.

Se me fosse dada a missão de fazer um pedido aos homens de boa vontade, pediria a cada um, que fizesse todo dia uma prece curtinha. Mas que a fizesse com devoção profunda, o coração cheio de ternura e o espírito de preservação sincero. Uma oraçãozinha pequenina inspirada em outra oração que o mundo inteiro já reza. É assim:

“Mãe Nossa, Mãe Natureza que estais aqui, respeitado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O ar nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas agressões, assim como nós perdoamos a quem nos tem agredido e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal da ganância. Amém.”

Glória ao Ar Puro, à Água cristalina, e ao Alimento bem distribuído, assim como era no princípio, agora e sempre.

sexta-feira, 20 de março de 2009

quarta-feira, 18 de março de 2009

SERENIDADE


SERENIDADE
Oswaldo Antônio Begiato

As tormentas, que em alto-mar
Deixam meu barco à deriva,
Me fazem aumentar, a duras penas,
O alcance de minha vista
E a nitidez de meus horizontes;
A paciência de meus tímpanos
E a escassez de minhas palavras;
A delicadeza de minhas mãos
E a vastidão de meus gestos;
O cuidado com meus passos
E a anchura de meus caminhos;
As loucuras de meu coração
E a serenidade de meu juízo.

Sobretudo aumento nesse mar,
Nas estreitezas de meu navegar,
A mansidão de minha alma
E a percepção de mim mesmo.

terça-feira, 17 de março de 2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

HORAS



HORAS
Oswaldo Antônio Begiato

Vieste buscar as horas
Que, quando ainda jovem,
Deixaste abandonadas
No pêndulo do relógio?

Elas trincaram a pele
Do reboco que escondia
A fraqueza das paredes
E a insolência do passado
E descoloriram a retina
Das cortinas que protegiam
A sala das vidraças, do sol
E dos maus olhados.

Leve-as contigo.
Guarde-as.

Guarde-as como quem guarda
O pão caseiro,
No forno do fogão
Cobertas por um pano de prato
Para que testemunhem a saciação
De quem as quer consumidas.

Guarde-as como quem guarda
A aliança de noivado,
Na caixinha de música,
Para que denunciem a subtração
De quem as quer furtadas.

Guarde-as.

Porque elas te encheram a vida de tempo
E lhe farão experimentar o fim.

quinta-feira, 5 de março de 2009

OLHOS OPALINOS


OLHOS OPALINOS
Oswaldo Antônio Begiato

Pudesse eu
nesta minha vida
de dúvidas desmedidas
voltar às certezas singelas
de minhas primeiras convicções!

Crer no Natal
com olhos de pedras preciosas
e no Ano Novo
com olhos de eternidade.

Ver o futuro
com olhos de castelo de areia
e o presente
com olhos de infinidade.

Viver a realidade
com olhos de duendes
e os desenganos
com olhos de perenidade.

Pudesse eu
ir buscar no meu abandonado caminho
todos os olhos que perdi
e com eles todos em contemplação
redesenhar delicadezas,
reinventar gestos,
redescobrir gratidões
e prescrever serenidades!

Pudesse eu
ter todas as minhas feridas
curadas pelo beijo
de minha mãe!

Porém
estou na idade de olhos opalinos:
- eles não enxergam
além de um presente amorfo.

Estou na idade
em que beijos
não curam;
beijos ferem.

terça-feira, 3 de março de 2009

BOM DIA



BOM DIA
Oswaldo Antônio Begiato

Cansado de meus invernos,
Quero hoje plantar
Com as mãos repletas de outono
E o coração de dádivas,
A semente de um pé de ipê,
De um pé de ipê amarelo.

Depois ungir-me-ei
Com o óleo santo
Que verte dos olhos de Maria
E me recolherei ermitão
Na varanda de minhas ilusões,
Esperando a primavera chegar.

E quando a primavera vier,
Com suas vestes adornadas
Pelos milagres da terra,
Abrirei um sorriso limpo
Sobre a nascença do verão.

Tudo então será sol.
Tudo então será flor.

Coisa linda de se ver!

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

CURVAS



CURVAS
Oswaldo Antônio Begiato

Nas tuas montanhas insondáveis e vastas
(Nádegas, seios e malícias)
Vagam minhas entranhas fecundas e castas
(Ventre, umbigo e delícias),
Por isso supor-lhe-á o mundo desvios tantos
(Volúpias, coxas e desejos),
A encher-lhe de insuportáveis e belos prantos
(Saudades, perdões e beijos).

Em tuas tenras e leves pétalas rasgadas
(Esterco, broto e tesão),
Nas tuas raízes à flor da terra e mal regadas
(Chuva, tardes e verão),
Renasço, livre como o vento, em tuas pegadas
(Areia, estrada e destino)
E me entrego a ti virgem e feliz como chegadas
(Sorriso, bocas e menino).

Com as mãos cheias de chaves, me libertas
(Elos, cadeados e segredos)
E no teu colo proibido e repleto de ofertas
(Sono, abandono e medos),
Zonzo, pelos labirintos de tua mente sadia
(Poemas, livros e mais ninguém),
Repouso, sem prisões, minha insana travessia
(A loucura é o meu maior bem).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

SORRISO



SORRISO
Oswaldo Antônio Begiato

Para Vania Gondim

Enquanto entristecido
Por tantos desacertos,
Recebi, hoje,
Pelas mãos precisas
Do destino,
O livro de poesias
Que me mandaste.
Ele me chegou
Com teu breve
E incisivo perfume,
Com tua breve
E tímida dedicatória.

Como sempre,
Tua letra não estava bonita.

Mas quando as palavras
São perfumadas e bonitas
A letra não precisa ser.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A ROSA DE NOSSO ETERNO AMOR


A ROSA DE NOSSO ETERNO AMOR
Oswaldo Antônio Begiato

Naquele domingo à tarde,
em que todas as criaturas
se encantavam em calcular
a Unidade Astronômica
você veio com a idéia
de construirmos uma flor.

Você faria o projeto
da semente, da brotação...
A mim caberia fazer
a fórmula do perfume,
e o voto de eternidade.

E nós chama-la-íamos de
A Rosa de Nosso Eterno Amor.

Mas veio a segunda-feira
e com ela os homens frios,
com seus tratores pesados,
com suas mantas de asfalto,
nos enfeitaram com flores
construídas de plástico
e nos puseram no andor,
no andor cheio de passos,
cheio de passos alheios.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

...desce a noite



...desce a noite
Oswaldo Antônio Begiato

...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de temores,
me encho de covardias,
me encho de abandonos.


...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de escadas,
me encho de labirintos,
me encho de tropeços.


...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de perguntas,
me encho de vazios,
me encho de abismos.
.....................................................................................

...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de estrelas,
me encho de luas,
me encho de anjos.

...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de boemia,
me encho de vícios.
me encho de mim mesmo.

...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de respostas,
me encho de encantamentos,
me encho todinho de ti.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

BARRO E SOPRO



BARRO E SOPRO
Oswaldo Antônio Begiato

As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro...

De barro
para que as
sementes
germinem.

De sopro
para que as
sementes
se espalhem.

Tudo mais
é pedra,
é vácuo.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

TRANSPARÊNCIA

TRANSPARÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Ficar transparente é uma delícia.
É como se fossemos rima toante de Cecília,
Nas aventuras da Inconfidência.

Ninguém vê a gente
E a gente pode ler Manuel,
O Bandeira, sem cerimônias.
Se quiser pode-se lê-lo nu,
Na estrela da vida inteira.

É bom beliscar as pessoas
E vê-las desesperadas
Querendo saber quem é que foi,
E ficar imaginando o que é que Cora,
A Coralina, diria disso tudo;
Ela, Aninha, suas pedras e seus doces.

Pode-se ainda roubar o pão de queijo
Do prato do patrão,
Enquanto se lê Fernando,
O Pessoa, no silêncio da noite que se apaga
Para que reinem lua, estrelas e poesias,
Enquanto se finge ser poeta.

Pode-se mudar os quadros de lugar,
Nas paredes e nas pessoas
E se sentir duendes.
Mas Lobato, o Monteiro que andou
Inventando estórias, diria que foi o saci.
As pessoas visíveis, não sabem
Nem de duendes, nem de sacis.

Mas não há fórmula pra se ficar transparente.
Fica-se assim, transparente, muitas vezes,
Durante a vida,
De uma forma espontânea.
Sem querer ficar.

Mas ser transparente, pode não ser uma coisa boa.
Conheço meninos que ninguém os vê.
Deixam-nos com fome,
Sem tomar banho,
Com piolho no cabelo,
Com a pele arrepiada de frio,
Com as cabeças sob bombas
De uma guerra imbecil,
Sem nenhum livro
Pra que possam aprender
As várias maneiras de tirar vantagens
De ser transparente.
As várias maneiras
De ser poesia.