sexta-feira, 20 de março de 2009
quarta-feira, 18 de março de 2009
SERENIDADE

SERENIDADE
Oswaldo Antônio Begiato
As tormentas, que em alto-mar
Deixam meu barco à deriva,
Me fazem aumentar, a duras penas,
O alcance de minha vista
E a nitidez de meus horizontes;
A paciência de meus tímpanos
E a escassez de minhas palavras;
A delicadeza de minhas mãos
E a vastidão de meus gestos;
O cuidado com meus passos
E a anchura de meus caminhos;
As loucuras de meu coração
E a serenidade de meu juízo.
Sobretudo aumento nesse mar,
Nas estreitezas de meu navegar,
A mansidão de minha alma
E a percepção de mim mesmo.
terça-feira, 17 de março de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
HORAS
HORAS
Oswaldo Antônio Begiato
Vieste buscar as horas
Que, quando ainda jovem,
Deixaste abandonadas
No pêndulo do relógio?
Elas trincaram a pele
Do reboco que escondia
A fraqueza das paredes
E a insolência do passado
E descoloriram a retina
Das cortinas que protegiam
A sala das vidraças, do sol
E dos maus olhados.
Leve-as contigo.
Guarde-as.
Guarde-as como quem guarda
O pão caseiro,
No forno do fogão
Cobertas por um pano de prato
Para que testemunhem a saciação
De quem as quer consumidas.
Guarde-as como quem guarda
A aliança de noivado,
Na caixinha de música,
Para que denunciem a subtração
De quem as quer furtadas.
Guarde-as.
Porque elas te encheram a vida de tempo
E lhe farão experimentar o fim.
quinta-feira, 5 de março de 2009
OLHOS OPALINOS

OLHOS OPALINOS
Oswaldo Antônio Begiato
Pudesse eu
nesta minha vida
de dúvidas desmedidas
voltar às certezas singelas
de minhas primeiras convicções!
Crer no Natal
com olhos de pedras preciosas
e no Ano Novo
com olhos de eternidade.
Ver o futuro
com olhos de castelo de areia
e o presente
com olhos de infinidade.
Viver a realidade
com olhos de duendes
e os desenganos
com olhos de perenidade.
Pudesse eu
ir buscar no meu abandonado caminho
todos os olhos que perdi
e com eles todos em contemplação
redesenhar delicadezas,
reinventar gestos,
redescobrir gratidões
e prescrever serenidades!
Pudesse eu
ter todas as minhas feridas
curadas pelo beijo
de minha mãe!
Porém
estou na idade de olhos opalinos:
- eles não enxergam
além de um presente amorfo.
Estou na idade
em que beijos
não curam;
beijos ferem.
terça-feira, 3 de março de 2009
BOM DIA

BOM DIA
Oswaldo Antônio Begiato
Cansado de meus invernos,
Quero hoje plantar
Com as mãos repletas de outono
E o coração de dádivas,
A semente de um pé de ipê,
De um pé de ipê amarelo.
Depois ungir-me-ei
Com o óleo santo
Que verte dos olhos de Maria
E me recolherei ermitão
Na varanda de minhas ilusões,
Esperando a primavera chegar.
E quando a primavera vier,
Com suas vestes adornadas
Pelos milagres da terra,
Abrirei um sorriso limpo
Sobre a nascença do verão.
Tudo então será sol.
Tudo então será flor.
Coisa linda de se ver!
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
CURVAS

CURVAS
Oswaldo Antônio Begiato
Nas tuas montanhas insondáveis e vastas
(Nádegas, seios e malícias)
Vagam minhas entranhas fecundas e castas
(Ventre, umbigo e delícias),
Por isso supor-lhe-á o mundo desvios tantos
(Volúpias, coxas e desejos),
A encher-lhe de insuportáveis e belos prantos
(Saudades, perdões e beijos).
Em tuas tenras e leves pétalas rasgadas
(Esterco, broto e tesão),
Nas tuas raízes à flor da terra e mal regadas
(Chuva, tardes e verão),
Renasço, livre como o vento, em tuas pegadas
(Areia, estrada e destino)
E me entrego a ti virgem e feliz como chegadas
(Sorriso, bocas e menino).
Com as mãos cheias de chaves, me libertas
(Elos, cadeados e segredos)
E no teu colo proibido e repleto de ofertas
(Sono, abandono e medos),
Zonzo, pelos labirintos de tua mente sadia
(Poemas, livros e mais ninguém),
Repouso, sem prisões, minha insana travessia
(A loucura é o meu maior bem).
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
SORRISO

SORRISO
Oswaldo Antônio Begiato
Para Vania Gondim
Enquanto entristecido
Por tantos desacertos,
Recebi, hoje,
Pelas mãos precisas
Do destino,
O livro de poesias
Que me mandaste.
Ele me chegou
Com teu breve
E incisivo perfume,
Com tua breve
E tímida dedicatória.
Como sempre,
Tua letra não estava bonita.
Mas quando as palavras
São perfumadas e bonitas
A letra não precisa ser.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
A ROSA DE NOSSO ETERNO AMOR

A ROSA DE NOSSO ETERNO AMOR
Oswaldo Antônio Begiato
Naquele domingo à tarde,
em que todas as criaturas
se encantavam em calcular
a Unidade Astronômica
você veio com a idéia
de construirmos uma flor.
Você faria o projeto
da semente, da brotação...
A mim caberia fazer
a fórmula do perfume,
e o voto de eternidade.
E nós chama-la-íamos de
A Rosa de Nosso Eterno Amor.
Mas veio a segunda-feira
e com ela os homens frios,
com seus tratores pesados,
com suas mantas de asfalto,
nos enfeitaram com flores
construídas de plástico
e nos puseram no andor,
no andor cheio de passos,
cheio de passos alheios.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
...desce a noite

...desce a noite
Oswaldo Antônio Begiato
...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de temores,
me encho de covardias,
me encho de abandonos.
...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de escadas,
me encho de labirintos,
me encho de tropeços.
...desce a noite,
mas eu não gosto de
quando a noite desce,
me encho de perguntas,
me encho de vazios,
me encho de abismos.
.....................................................................................
...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de estrelas,
me encho de luas,
me encho de anjos.
...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de boemia,
me encho de vícios.
me encho de mim mesmo.
...desce a noite,
mas eu gosto de
quando a noite desce,
me encho de respostas,
me encho de encantamentos,
me encho todinho de ti.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
BARRO E SOPRO
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
TRANSPARÊNCIA
TRANSPARÊNCIAOswaldo Antônio Begiato
Ficar transparente é uma delícia.
É como se fossemos rima toante de Cecília,
Nas aventuras da Inconfidência.
Ninguém vê a gente
E a gente pode ler Manuel,
O Bandeira, sem cerimônias.
Se quiser pode-se lê-lo nu,
Na estrela da vida inteira.
É bom beliscar as pessoas
E vê-las desesperadas
Querendo saber quem é que foi,
E ficar imaginando o que é que Cora,
A Coralina, diria disso tudo;
Ela, Aninha, suas pedras e seus doces.
Pode-se ainda roubar o pão de queijo
Do prato do patrão,
Enquanto se lê Fernando,
O Pessoa, no silêncio da noite que se apaga
Para que reinem lua, estrelas e poesias,
Enquanto se finge ser poeta.
Pode-se mudar os quadros de lugar,
Nas paredes e nas pessoas
E se sentir duendes.
Mas Lobato, o Monteiro que andou
Inventando estórias, diria que foi o saci.
As pessoas visíveis, não sabem
Nem de duendes, nem de sacis.
Mas não há fórmula pra se ficar transparente.
Fica-se assim, transparente, muitas vezes,
Durante a vida,
De uma forma espontânea.
Sem querer ficar.
Mas ser transparente, pode não ser uma coisa boa.
Conheço meninos que ninguém os vê.
Deixam-nos com fome,
Sem tomar banho,
Com piolho no cabelo,
Com a pele arrepiada de frio,
Com as cabeças sob bombas
De uma guerra imbecil,
Sem nenhum livro
Pra que possam aprender
As várias maneiras de tirar vantagens
De ser transparente.
As várias maneiras
De ser poesia.
domingo, 18 de janeiro de 2009
IMPOSSÍVEL

IMPOSSÍVEL
Oswaldo Antônio Begiato
Quero pra mim nesse amanhecer
A boca cheia d’aguardente,
Os olhos cheios de paisagens,
Os ouvidos cheios de bemóis,
E um sorriso que seja eterno.
Quero pra mim nesse entardecer
Uma melancia vermelhinha,
Um mar repleto de horizontes,
Uma pauta e uma clave de sol,
Nos dentes a brancura d’alma.
Quero pra mim nesse reencontro
O beijo ávido e imaculado,
A nudez santa e pecadora,
A melodia impertinente,
E uma alegria inescusável.
Quero pra mim, mesmo morrendo,
A tua mais preciosa presença.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A MINHA ALDEIA
VILA RAMI, SUBSTANTIVO PRÓPRIO FEMININO
Oswaldo Antônio Begiato
Minha aldeia, quando ainda era aldeia
E eu mais aldeia ainda no meu apoucamento,
Fez-me extasiar por suas mulheres.
Mulheres Almeidas - meigas e tenazes,
Mulheres Beneditas e tantas outras benditas:
Rezavam e trabalhavam – Trabalhavam e rezavam,
Mulheres Nogueiras: extrato e remédio
Lídias: femininas de lírios
e tantas outras abençoadas:
benziam amor e quebranto.
E havia mulheres artesãs
- modelavam louças e caráter
e fiandeiras dóceis
- teciam tecidos e ilusões
e panificadoras hábeis
- amassavam o pão e modelavam a hóstia
e cozinheiras abnegadas
- multiplicavam o alimento e os amores
E varredoras eficientes
- limpavam quintais e lágrimas
e industriárias registradas em carteira e sem registro civil
- transformavam a matéria prima em poesia concreta.
Havia donas-de-casa submissas
- preparavam a casa e seus filhos para seus maridos que chegavam cansados e bêbados
(As donas de casa morriam sem nunca ter vivido)
Todas eram mães extremadas.
Todas santas circunspectas.
Retenho na memória a lembrança dessas mulheres
E de tantas outras mulheres fortes,
meus amores primeiros:
- Mulheres grandes de minha aldeia pequena!
Dentre elas amava uma pequenina grande rainha
(Minha mãe era pequena e se chamava Regina)
Cujas preces Deus ouvia com zelo especial
Pra me fazer crer que minha aldeia
Era um pedacinho do céu... E eu acreditava piamente
- Foi lá que aprendi que mulheres são gigantes!
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
POTE DE VIDRO

Oswaldo Antônio Begiato
Tudo o que eu queria,
nas minhas infindáveis horas de desamparo,
era a companhia de um pote de vidro gordo e redondo
cheio de gomas coloridas e açucaradas,
e outro de bolinhas de gude,
coloridas e de todos os tamanhos.
Quando moleque, eu tinha só esses dois sonhos;
eles faziam meu abandono parecer dádiva.
- Por serem doces e coloridos, acho.
Por que será que nunca sonhei com mãos meigas,
com colo me aquecendo
e com histórias me fazendo adormecer?
Por que será que nunca sonhei com lápis apontado,
com uma borracha indestrutível
e com palavras me fazendo a dor me ser?
Por que será que até hoje
tenho só esses dois sonhos
- gomas e bolinhas de gude coloridos -
adormecidos nas prateleiras empoeiradas da paciência
em potes de dores que nunca consigo abrir?
- Por serem gordos e redondos, acho.

