
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
TODO
A criança doente, de Gabriel MetsuTODO
Oswaldo Antônio Begiato
Depois de ver tantos inteiros
falando de metades,
metades que não me pertenciam,
devo dizer ao mundo das metades que me pertencem
e que são porções trágicas
de meu todo.
Assim quero que fique claro:
Uma metade de mim é solidão,
a outra é abandono.
Uma metade de mim é dor,
a outra é sofrimento.
Uma metade de mim é injustiça,
a outra é subtração.
Uma metade de mim é lágrima,
a outra é tristeza.
Uma metade de mim é porrada,
a outra é cicatriz.
Uma metade de mim é ferida,
a outra é hemorragia.
Uma metade de mim é ódio,
a outra é desprezo.
Uma metade de mim é racismo,
a outra é intolerância.
Uma metade de mim é derrota,
a outra é subjugação.
Uma metade mim é sede,
a outra é estiagem.
Uma metade de mim é fome,
a outra é escassez.
Uma metade de mim é violência,
a outra é rompimento.
Uma metade de mim é pecado,
a outra é transgressão.
Uma metade de mim é agonia,
a outra é unção dos enfermos.
Uma metade de mim é pó,
a outra é morte.
Mas devo dizer também, ao mundo,
Com toda minha limpidez,
Que uma metade de mim é Fênix,
a outra metade é ressureição.
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
TELHA
TELHAOswaldo Antônio Begiato
Será que serei eu uma telha velha e vermelha
Dessas que fazem o telhado leve desse rancho?
Serei eu uma desgovernada e boba centelha
De um Dom Quixote que se perdeu de Sancho?
Serei eu uma gota de mel que se fez abelha
Nas cores de um arco-íris que se fez beija-flor?
Serei eu o cinza sombrio que o mar espelha,
Da tempestade que procura em vão o amor?
Sou, antes, o azul que diante do mar se ajoelha
E com a candura entardecida, me desmancho,
Depositando nele, insano, a minha imensa dor,
Como um ouriço que cobiça a lã da ovelha.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
MEUS DIAS
MEUS DIASOswaldo Antônio Begiato
No dia em que a Felicidade bater
À porta da frente de minhas constâncias
Eu já não estarei mais dentro:
Terei saído de mudança
Pela porta dos fundos.
Mas Ela encontrará tudo arranjado:
O chão limpo e encerado,
A louça lavada e guardada,
As camas perfumadas e estendidas,
As coisas alinhadas e sem pó,
A alma livre e serenada.
Esquecerei então que um dia fui
Pedra selvagem e estrela cadente,
Carvão e diamante,
Esterco e pétala,
Corcunda e asas.
Serei uma gota de orvalho cristalizada
Que o destino quis como pingente
Adornando a garganta da eternidade.
sábado, 8 de novembro de 2008
terça-feira, 4 de novembro de 2008
ATRÁS DA PORTA

ATRÁS DA PORTA
Oswaldo Antônio Begiato
Oswaldo Antônio Begiato
Venho com as sandálias gastas.
Meio atabalhoado,
Meio apoquentado,
Meio trôpego,
Meio encabulado,
Meio sistemático,
Meio ensimesmado...
Venho pela metade e pelas bordas,
Faltando-me coisas sérias;
Não trago flores,
Nem luvas de pelica,
Nem o estandarte de Santo Antônio,
Nem correntes de ouro,
Nem a pena colorida do tiê-sangue,
Nem seixos do rio Jordão...
Venho trazendo, com parcimônia,
Em minhas mãos fatigadas
De versos de amor escrever,
Os meus últimos e inermes versos.
Escrevi-os com minhas certezas trêmulas,
Com letras esquecidas e quase ilegíveis,
Em um papel escuro de rascunho
(Antigo manto do pão que juntos repartimos).
Mas escrevi-os para te dizer o quanto te amo,
E te amo mesmo.
Amo-te com a minha insurgência mergulhada
Em uma despedida infindável
E com o meu temor encharcado
De um adeus petrificado
Nos ângulos retos de uma dor aguda.
Saiba, o meu amor se agoniza a cada palavra ríspida,
E ressurge a cada sorriso tênue,
E morre a cada gesto rude,
E ressuscita a cada beijo desleixado,
E me esgota os olhos a cada lágrima inútil.
Escrevo-os últimos por não mais poder
Continuar a escrevê-los, por falta de dor.
Escrevo-os últimos
Pelo amor imenso que se perdeu de ti.
Que sejam minha oferta mais delicada
Nessa cerimônia pagã de adeus.
Não quero estes meus versos
- Sempre pedaços preciosos do meu fim -
Retalhos de teu pensamento
Que escapa de mim e se aloja na distância,
Onde não posso tocá-lo com meu perfume.
Receba-os, não como armadilha que te preparo,
Mas como troféu com o qual poderás enfeitar
Tua sala de estar
E afastar de ti o pó que deixei cair de minha presença.
São versos pequenos e curtos
E pálidos e tímidos
E precários e insensatos...
Que mal te farão cócegas nos sentimentos,
Por isso não dê mais importância a eles
Do que eles merecem.
Não dê mais importância a eles
Do que darias a mim.
Receba-os sim, como paga irrisória,
Não pelo amor que me devotaste,
Mas pelo amor que pude sonhar.
São moedas singelas esses meus versos,
Moedas antigas de um bronze de péssima qualidade,
Incapazes de saldar qualquer carícia;
Mas lapidei esses versos
Com tanto ardor
E com tanto primor
E com tanto amor
E com tanto sabor
Que por certo
Algum peso haverão de ter.
E se peso algum tiverem,
Receba-os pela leveza com que saíram
De minhas fornalhas internas.
Assim sentir-me-ei quites contigo,
Retribuindo o indescritível torpor
Que pude sentir enquanto te amei
E enquanto sonhei que poderia ser amado
Por ti.
Embora soubesse que tudo não passava
De um adorável engano.
Fui feliz te amando,
E te amando não me importei
De ser amado.
Mas quero que saibas por mim
(Antes que alguém desavisado te faça ver
Antes de mim
E te faça minguar de saudades):
- Jamais verás, com quem quer que seja,
Elis Regina chorando
E cantando “Atrás da Porta”.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
O TEMPO
O TEMPOOswaldo Antônio Begiato
Ela queria tanto,
Para poder esquecer
A cor cinza de sua nascença,
Ganhar de presente, no dia de seu aniversário,
A delicadeza de uma boneca de trapo.
Queria tanto, tanto,
Que acabou comprando,
Naquela tardinha, em que abandonada,
A chuva lhe caia copiosamente dentro d’alma,
Uma boneca fria de porcelana fina.
Pena que já era tarde.
Ela, agora, não tinha mais tempo para esquecimentos.
Não tinha mais tempo para delicadezas.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
BAILARINO

BAILARINO
Oswaldo Antônio Begiato
Minha mãe tinha uma caixinha de música
onde uma pequenina bailarina cor-de-rosa
feita de porcelana frágil,
cabelos presos na cabeça
e usando sapatilhas transparentes,
enquanto tocava Brahms Lullaby,
dançava,
dançava,
dançava...
...diante de um espelho que a multiplicava.
Eu menino,
com olhos de bailarino
feito com uma alma frágil,
com a cabeça na lua
e os pés nas nuvens,
olhava,
olhava,
olhava ...
...aquela ternura encantadora que me dividia.
Embriagado por sonhos apaixonantes
não percebia o tempo passar
por entre o bailar da bailarina que não crescia
e o bater de meu coração inocente que amadurecia.
Encantado, fiquei cronicamente doente de amor;
e até hoje tentam me curar essa doença,
essa doce e meiga doença.
Mas eu não quero ficar curado.
Minha mãe tinha uma caixinha de música
onde uma pequenina bailarina cor-de-rosa
feita de porcelana frágil,
cabelos presos na cabeça
e usando sapatilhas transparentes,
enquanto tocava Brahms Lullaby,
dançava,
dançava,
dançava...
...diante de um espelho que a multiplicava.
Eu menino,
com olhos de bailarino
feito com uma alma frágil,
com a cabeça na lua
e os pés nas nuvens,
olhava,
olhava,
olhava ...
...aquela ternura encantadora que me dividia.
Embriagado por sonhos apaixonantes
não percebia o tempo passar
por entre o bailar da bailarina que não crescia
e o bater de meu coração inocente que amadurecia.
Encantado, fiquei cronicamente doente de amor;
e até hoje tentam me curar essa doença,
essa doce e meiga doença.
Mas eu não quero ficar curado.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
OFERTA
OFERTA
Oswaldo Antônio Begiato
Eu te ofereço
Todas as minhas rugas
Todos os meus calos
Todas as minhas obturações
Todas as minhas cicatrizes
Todas as minhas lágrimas
Todas as minhas mutilações
Toda a minha insônia
Todos os meus vícios
Todas as minhas próteses
Todas as minhas viroses
Todas as minhas micoses
Todas as minhas decepções
Toda a minha fome
Toda a minha sede
Toda a minha feiúra
Toda a minha ignorância
Todos os meus complexos
Toda a minha pobreza
Todos os meus recuos
Todas as minhas inversões
Leva-os embora daqui.
Eu quero varandas,
Pirilampos e borboletas,
Cercas baixas e brancas,
Jardins cuidados.
Eu quero cigarras ao entardecer.
Eu quero grilos ao anoitecer.
Eu quero casas livres,
Crianças aprendendo,
Adultos envelhecendo,
Anjos despreocupados.
Eu quero namorar no banco da praça.
Oswaldo Antônio Begiato
Eu te ofereço
Todas as minhas rugas
Todos os meus calos
Todas as minhas obturações
Todas as minhas cicatrizes
Todas as minhas lágrimas
Todas as minhas mutilações
Toda a minha insônia
Todos os meus vícios
Todas as minhas próteses
Todas as minhas viroses
Todas as minhas micoses
Todas as minhas decepções
Toda a minha fome
Toda a minha sede
Toda a minha feiúra
Toda a minha ignorância
Todos os meus complexos
Toda a minha pobreza
Todos os meus recuos
Todas as minhas inversões
Leva-os embora daqui.
Eu quero varandas,
Pirilampos e borboletas,
Cercas baixas e brancas,
Jardins cuidados.
Eu quero cigarras ao entardecer.
Eu quero grilos ao anoitecer.
Eu quero casas livres,
Crianças aprendendo,
Adultos envelhecendo,
Anjos despreocupados.
Eu quero namorar no banco da praça.
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
IMORTAL

IMORTAL
Oswado Antônio Begiato
Oswado Antônio Begiato
Imortal
É quem sabe ler os lábios,
Obedecer aos olhos,
Ouvir o silêncio interior
E arrepiar a pele sem tocá-la.
Imortal
É quem sabe beijar sem boca
Nas horas mais agônicas da vida,
Inebriar-se com paisagens alheias
Mesmo com vendas escuras nos olhos,
Abandonar o sono letárgico
Sem a ajuda cruel do despertador,
Deixar-se penetrar sem fendas
Como óvulo à mercê do espermatozóide.
Imortal
É quem sabe amar sem coração.
É quem sabe absolver sem penitências.
Escrever sem palavras.
Perdoar sem crença.
Rezar sem fé.
Ensinar sem nunca ter aprendido.
Imortal
É quem morre à noite
Como um anão derrotado
E ressuscita na manhã seguinte
Como um gigante indomável,
Todos os dias,
O tempo todo.
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
LINDA ROSA AMÉLIA
LINDA ROSA AMÉLIA
Oswaldo Antônio Begiato
lenda rasa Amélia,
lenda e rasa,
Amélia e rasa,
Amélia e linda;
amelindo,
amelindas,
amá-la sempre...
Amélia ou lenda?
linda rosa amarela,
linda e rosa,
amarela e rosa,
amarela e linda;
amar é lindo,
amarelindas,
amarelinda...
rosa ou amarela?
Ai, que vontade de voltar a ser garoto
e escrever versos rotos e marotos!
Oswaldo Antônio Begiato
lenda rasa Amélia,
lenda e rasa,
Amélia e rasa,
Amélia e linda;
amelindo,
amelindas,
amá-la sempre...
Amélia ou lenda?
linda rosa amarela,
linda e rosa,
amarela e rosa,
amarela e linda;
amar é lindo,
amarelindas,
amarelinda...
rosa ou amarela?
Ai, que vontade de voltar a ser garoto
e escrever versos rotos e marotos!
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
APAIXONADA
APAIXONADA
Oswaldo Antônio Begiato
Oswaldo Antônio Begiato
.
Vens e dizes estar
Dissolutamente apaixonada.
Que sou tua reta e indivisa vida,
Que todas as tuas pertenças
São agora minhas pertenças:
Teu riso incontido,
Tuas lágrimas safíricas,
Teu sexo sequioso,
Teus descaminhos justos,
Teus arrependimentos tolos,
Teu coração indômito...
Até tuas mais incertas tristezas
Juras que me pertencem.
Juras que me pertencem
Todas as tuas juras.
E fico eu cá no meu canto
Tentando buscar a razão disso tudo.
O que em mim pode ter te encantado tanto,
Se sou, dentre os grãos dourados
Da areia da praia, o menorzinho
E você quase contém o mar todinho
Apenas em um único e terno olhar?
Teria sido a poesia que fingi escrever,
Ou os encantamentos delatores
Que de meus olhos escaparam
A primeira vez que te encontraram
Vestida de primavera e sol?
Dissolutamente apaixonada.
Que sou tua reta e indivisa vida,
Que todas as tuas pertenças
São agora minhas pertenças:
Teu riso incontido,
Tuas lágrimas safíricas,
Teu sexo sequioso,
Teus descaminhos justos,
Teus arrependimentos tolos,
Teu coração indômito...
Até tuas mais incertas tristezas
Juras que me pertencem.
Juras que me pertencem
Todas as tuas juras.
E fico eu cá no meu canto
Tentando buscar a razão disso tudo.
O que em mim pode ter te encantado tanto,
Se sou, dentre os grãos dourados
Da areia da praia, o menorzinho
E você quase contém o mar todinho
Apenas em um único e terno olhar?
Teria sido a poesia que fingi escrever,
Ou os encantamentos delatores
Que de meus olhos escaparam
A primeira vez que te encontraram
Vestida de primavera e sol?
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
NOSSO IMORTAL AMOR
NOSSO IMORTAL AMOROswaldo Antônio Begiato
Toma essa folha
branca
de papel
virgem,
que um panapaná
deixou cair,
de suas asas
coloridas,
em meu colo
de noivo.
Nela escreva,
com suas mãos
de noiva,
seu nome,
com letras
douradas,
e depois
escreva
uma poesia
lírica,
com letras
corridas.
Por fim
escreva
meu nome,
sem maiúsculas
e sem acentos
agudos.
É esse o ritual
que outorgará
ao nosso amor
imortalidade.
sábado, 13 de setembro de 2008
REGADIO

REGADIO
Oswaldo Antônio Begiato
Oswaldo Antônio Begiato
Por aqui, hoje sim chove,
Mas é uma chuva doce e necessária,
Como doce e necessária
Faz-se a solidão à minh’alma segada.
Havia muito pó pra pouca estrada,
Muita boca seca pra pouca água,
E muito germinar pra pouco regadio.
Havia muita presença pra pouco coração,
Muitas palavras pra pouco ouvido
E muito estorvar pra pouca paciência.
Tua perversa permanência nas minhas horas quietas
Saqueavam-me os horizontes lúcidos
Banindo-os de meus olhos rasos de regalos.
Foste fátua.
Sensata, foste.
Quero agora ficar só.
Cabeça entre as pernas.
Um meu abraço em mim mesmo
Abraçando pernas e cabeça.
Olhos cerrados.
Deixar que minha boca se umedeça
Com a chuva fresca que me faz germinar
E que minha alma se entorpeça
Pelo silêncio que me restou santo
Com tua partida tardia.
Com tua partida vadia.
Tenho por aqui chuva e solidão doces e necessárias.
sábado, 6 de setembro de 2008
TROCA
TROCAOswaldo Antônio Begiato
Onde foi que viu meu rosto lindo?
No espelho petrificado pelo tempo
ou no retrato hirto
que deixei preso
à galeria de meu passado?
Viste-o com olhos?
Com olhos também lindos?
Eram tempos em que
eu os tinha ainda,
rosto e olhos, airosos
e não os escondia.
Eram lindos,
eram longínquos...
Não os tenho mais.
Perdi-os para a tristeza,
essa senhora tinhosa
e mais velha do que a verdade,
que os iludiu e os levou embora
sem a minha permissão.
Sem piedade.
Deixou em seus lugares
uma distância instransponível,
uma deformação sem alcances
e uma criança que jamais fui capaz de recuperar.
Foi bom,
porque assim pude, ao menos,
afastá-la de mim,
para sempre.
Hoje não tenho mais olhos lindos,
no rosto que também foi lindo um dia.
Hoje os tenho livres,
límpidos e venturosos.
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