quinta-feira, 5 de agosto de 2010

BEIJO DE LUZ AZUL

--------------------------->Menino Pedinte, obra de Juliana Motzko

BEIJO DE LUZ AZUL
Oswaldo Antônio Begiato

tirei de meus armários
os esqueletos empoeirados
e ao tempo confiei para airá-los

vesti-os com flores amadurecidas
e estrelas prateadas caídas do espanto
nos olhos deixei entrar verdades cristalinas
e aqueci os ossos com abraços incandescentes

dentre todos eles muitíssimo belos
escolhi para mim um pequenino
mirradinho e caladinho
que tinha no sorriso uma noviça ilusão
de onde partia em direção à minha boca
um beijo de luz azul

um beijo infinito de luz azul

sexta-feira, 23 de julho de 2010

BEIÇOS, BEIJOS E DESEJOS


BEIÇOS, BEIJOS E DESEJOS
Oswaldo Antônio Begiato
 
Enquanto o rio corre molhando os pés da inocência
E pesadas pedras se escondem das carícias úmidas
Amo. Amo com todo o ímpeto de meu sangue.
 
As recriminações se põem a mexer com meus nervos.
As dissipações dos sentimentos foram pagas com juros
Aos corações certos e nas datas indicadas pelo pranto.
 
Afogo-me em correntes cristalinas como um cão sedento.
 
Entre pedras fico sem beiços para ofertar beijos. É o fim.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

VISITA PURPÚREA


VISITA PURPÚREA
Oswaldo Antônio Begiato

Por aqui, hoje, o sol se fez visita
E meus olhos angustiados se encantaram.
Fiquei com alma de cidade grande
E esperanças de porto pequeno.

O mar sem medidas e limites se abriu miúdo
Deixando-me agigantado e entorpecido
Diante de um horizonte colorido de batom
A abraçar-me em arrebatamentos espantosos.

Pude tocá-lo suavemente com mãos brancas,
Em sua ara depositar ofertas vermelhiças,
Experimentando a ternura, rebento milagroso
Da vida que acontece a cada ínfimo olhar.

O homem mal feito, impregnado de vícios,
Se viu criança com pincéis de luzes coloridas
E uma imensa tela bordada, feita de céu,
Brincando distraído no quintal do Universo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

IMPERFEITO SONETO DO AMOR MADURO


IMPERFEITO SONETO DO AMOR MADURO
Oswaldo Antônio Begiato

Vim aqui fazer uma visita breve
Mas trouxe, no estribo da boca, o verbo,
Porque viver mesmo, sem dizer “eu te amo”,
Ninguém vive. Ninguém sobrevive. Ninguém.

Não quero que a fascinação te cegue,
Nem quero o despojamento te calando,
Quero-te com os ouvidos soltos aos sons
E o coração leviano, manso e entregue.

Assim poderei dizer: - Te amo! Sem medos,
Com todas as palavras expostas pela dor
E que o silêncio escondeu de mim e de ti.

Que minha vida continue sempre assim
Jamais precisando te perdoar nada,
Mas sempre precisando te pedir perdão.

sábado, 10 de julho de 2010

COMPREENSÃO


COMPREENSÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Ninguém consegue amar,
com mais perdões,
um artista, do que outro artista,
quando os dois estão em estado de criação.

Eu vi,
No cenário da cidade
que me sacode todos os dias
com seus movimentos de amor e de ódio,
com seus quadros sacrílegos e adros sagrados,
um mendigo,
com as mãos sujas de vícios irretocáveis
e as unhas encravadas no precipício
segurando as mãos sujas de nada absoluto
e as unhas sem esmalte e cheia de arestas
de uma mendiga.
Eram dois namorados extasiados
frente ao encontro da luz no final do túnel.

Havia na cena do ato tanto carinho
que dos olhos dela
dois rios salgados nasceram furtivamente
inundando minha alma.

Havia tanto brilho escapando dos olhos dele
que as migalhas que o cercavam
transformavam-se em estrelas
dentro de um céu sem gemidos e sem arrependimentos.

Eu vi.

Ninguém consegue amar,
com mais perdões e com mais abundâncias,
um mendigo, do que uma mendiga
quando está em estado de plena singeleza.

E vice-versa.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

REGAÇO

Obra: Die drei Lebensalter der Frau - Gustav Klimt


REGAÇO
Oswaldo Antônio Begiato

Voltas com o teu regaço
cheirando agora à mulher,
despertando-me a compulsão
de nele deitar-me por inteiro,
e realizar meus destinos por teu corpo.

Envolves-me até os poros com este perfume
de madrugada interrompendo a noite.

Porque sem mim foste embora cedo
e no teu corpo febril não pude me aquecer
e dele me esquecer um segundo sequer
desde minha idade primeira
julguei-me por muito tempo órfão.

Já que voltaste, com o ventre fecundo,
permita-me repousar minha cabeça
acumulada de saudades de ti,
em teu regaço quente e materno
e impacientemente dizer:
- Te amo! Para sempre te amo!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

COLHENDO GIRASSÓIS

Obra - Menina Colhendo Girassóis - Laura Montania


COLHENDO GIRASSÓIS
Oswaldo Antônio Begiato

Olha para minhas mãos espalmadas;
- Elas estão cheias de promessas -
Já nem sei se caberão nas suas,
Tão cheias de caminhos novos;
- Os caminhos contêm saídas
Que as mãos palmilham sigilosamente.

Meus olhos nus apenas vêm as mãos;
- Que olhos nus poderiam ver as auroras solares?
A luz do sol queima as retinas de olhares nus,
Só os poetas poderão vê-las e manter os olhos incólumes.
E u não sou poeta. Sou caminhante peregrino.

Busco a saída que lateja dentro de mim
Feito uma crença. A religião é como uma estátua granítica
Que fica à mercê da ação do tempo;
O sol, a chuva, o vento e o vandalismo
Vão lhe moldando com talhadeiras enérgicas
Delas extraindo o medo dos castigos:
- Assim a alma vai ficando mais leve, e a morte mais aceitável.

Sou de todos os tamanhos, de todas as medidas, de todos os pesos,
De todos os escombros, de todas as sombras, de todos os castigos...
Venho do nada, do branco, do vácuo, do lodo, do adultério.
Sou apenas promessas. Vãs promessas que se esvanecem a cada passo,
Desse caminho feito de suavidades, e que não ouso experimentar.

Tu vens de uma terra cheia de luz de chuvas puras, de arco-íris, de águas transparentes.
Tu és caminhos muitos onde meus pés não têm passos.

Para que duas almas possam se encantar mutuamente
Preciso é que tenham a objetiva de seus olhos
Com o mesmo diâmetro, com o mesmo alcance
E se abrindo ao mesmo tempo.

Tão importante quanto os versos que escrevemos
São os girassóis que sagaz, deveríamos colher
Nas manhãs douradas nos campos que nos cercam,
Porque a nenhum poeta é permitido viver só de sua poesia.

Há que haver no poeta uma grandeza maior que sua poesia.
Há que haver no poeta uma aventura feita de gestos generosos.
Há que haver no poeta olhos nus que possam enxergar auroras solares.

Há poetas imensos que nunca escreveram um verso sequer,
Mas que inventaram gestos onde ninguém nunca havia antes acenado.
Há poetas cujo olhar encabula o sol. Não precisam de palavras.

Quanto a ti, minha vida, se te proibirem de ir por esses caminhos
Que tuas mãos deitam sobre o meu passar,
Porque dele já colheram todas as flores,
Vá assim mesmo.
Saiba que não vieste para colher;
Vieste pra espalhar sementes.
A colheita não é tua responsabilidade.
Já não sei separar mais o que são desejos teus,
E o que são desejos meus. Deixe que os girassóis colho eu.

O que me consola é saber, no entanto,
Pelo bico doce de uma coleirinha, abençoada pelo açúcar santo,
Que veio me contar na manhãzinha desse domingo de ramos,
Que o meu poeta amado, e amado poeta que vive dentro de mim,
Além de disseminar versos marotos,
Está sempre caminhando pelo cemitério dos pobres em Sobral
- Quase nu (olhos e pele) -
Com uma cesta de girassóis dourados nas mãos
Derramando sobre túmulos toscos e abandonados
O perfume dessas flores douradas
E as distribuindo em vasos solitários.

Tomara, Deus, que seja verdade.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O PALHAÇO E SUA FLOR


O PALHAÇO E SUA FLOR
Oswaldo Antônio Begiato

Ele não tem mais lágrimas visíveis:
- Os maquiadores práticos de plantão,
No uso de suas atribuições ocultadoras,
As retiraram de seu rosto, amiúde.
Com tintas faciais e nariz de mentira;
Nele colocaram longas horas vagas.

Vagas horas de dor escondida
Sob um véu que cai no meio da arena.
- Por conta desse número parece feliz.

Feliz parece. Não é infeliz. Certamente.
A tristeza é que vez por outra
Aflora por lá. Abotoa e aflora.
Mas como toda flor cheia de requinte,
Frágil abotoa, aflora e fenece.
Finda rapidamente. Efemeramente.
Para o bem de nossas estagnações.

Para o bem da alegria intensa e expansiva,
Que as crianças avivam dentro dos olhos;
Olhos miúdos e úmidos. Ao vê-los juntos.

Há coisas que só os pequenos enxergam.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

MINHA NAMORADA


MINHA NAMORADA
Oswaldo Antônio Begiato

A minha namorada
Tem nos olhos sorrisos,
Nos lábios um azul,
Nos cabelos flores brancas
E pensamentos avulsos.

Nos seios tem sutiãs
Soltos,
Nos ombros,
Alças brancas
De um desejo que se revela pagão
E me convida pro batismo de fogo.

Tem no ventre
Uma dança livre
E uma renda
Bordada à mão
Com entrelinhas maliciosas.

Tem entre as pernas
Um vão livre arquitetônico
Onde cabem entradas
E saídas
Nunca antes desenhadas,
Nunca antes projetadas.

As mãos são carícias
Que o tempo não impede
E a vida não proíbe.

E quando
suas
mãos
Alternam-se
em
Cume
e
Alicerce
Seu
corpo
ganha
Graça:

Um edifício;
O mais alto da cidade.

Quando nua se deita
O ambiente em volta desaparece
E a lua passa a ser do tamanho
de uma bolinha de gude
feita de aço inoxidável.
Seu sono invade o corpo:
Dormem cabeça e tronco e membros
E dorme a alma
E dormem os lençóis e as colchas.


Se olha,
Olha longe,
Olha perto,
Olha no olho,
E nos olhos se lê
Todo o seu desejo,
Que nunca foi secreto,
Mas que sempre esconde de mim
E eu sempre descubro.
E, olhando,
Deixa-se possuir
E possui
Nas horas normais
E nas extras,
Exaurindo-se
Em pêlos ouriçados
E peles em chamas.

Depois desperta,
Mas permanece sonhos
Que nunca se esvaem,
Que nunca se realizam.

E há tantos cabelos em sua nuca
Que nunca se esgotam,
Nem mesmo quando o vento lhe arranca desatavios.

E em seu corpo
Há tantos pêlos transparentes
Que o corpo se multiplica
em milhões de outros corpos
transluzentes.

Os cabelos caídos sobre os seios
São cascatas e cachoeiras
E quedas de brilhos,
Que refrescam os olhos de quem vê
E a boca de quem prova.

A silhueta se faz majestade:
Turbilhão de onde saem magias
E entram intenções;
E se seu braço abraça o seio
No seio da luz que a ilumina alucinada
Ela vira espírito,
Sopro,
Fada,
Fantasia...


Seu perfil é montanha selvagem,
Abismos íngremes,
Vácuos inexploráveis.
Os poros criam erupções
Por onde saem salsas-ardentes
E purezas inesgotáveis.

Suas curvas desdobram-se em perspectivas
Que vão de um tornozelo a outro,
De um bico a outro,
Por onde andam bondinhos de pão e de açúcar.

Seus arrepios esboçam suas nádegas
Em duas partes simetricamente arredondadas,
Simetricamente saborosas:
Perdição de caminhos
Nas curvas sinuosas,
Nos horizontes de delicadezas.

Tudo nela não faz sentido.
E tudo é tão preciso.

É poesia que escorre pelo corpo
Sem rimas,
Sem curso,
Sem trilho,
Sem guias,
Sem limites,

Ela é minha namorada.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

COMPENSAÇÕES


COMPENSAÇÕES
Oswaldo Antônio Begiato

Com as pequenas coisas
Que em mim melhoraste
Fizeste para ti um castelo.

As grandes coisas
Que de ti me permitiste
Fizeram de mim rei.

Enfim somos vidas e existências
Em um reino encantado.

domingo, 9 de maio de 2010

A NOSSA ALDEIA


A NOSSA ALDEIA
Oswaldo Antônio Begiato

Que seu aroma me venha em forma de camiseta
Com o nome da aldeia em que reina seu encanto
E onde meu amor é respeitado como aldeão.

Ela será para mim a imagem sólida e violeta
Da tatuagem indelével que seu amor tanto
Escreveu em brasa na minh’alma repleta de paixão.

Não quero mais me apartar desse amor fecundo.

E assim serei perenal nos quatro cantos do mundo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

PEDIDOS À LUZ DE VELAS


PEDIDOS À LUZ DE VELAS
Oswaldo Antônio Begiato

Quando ainda sonhador crédulo, de pernas nuas,
Disseram-me para não revelar os pedidos feitos
Por ocasião do sopro sobre velas do bolo de aniversário.

Nunca tive bolo de aniversário. Tive sempre fantasias.
A cada novo outubro imaginava um bolo, velas cheias de esperanças
E meu sopro sobre elas derramando desejos inocentes.

Nunca, nesse tempo todo, os revelei a quem quer que fosse.

Mesmo assim, teimosamente, eles, os pedidos, nunca se realizaram.

domingo, 11 de abril de 2010

AMOR


AMOR
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo desde que vi o teu primeiro sacolejar de ancas,
Descendo as escadarias da Vigário,
Com cabelos longos e negros e castiços
Em tranças e soçobrando em tua bunda luaceira.

Amei-te com um amor raro, inusitado,
- Incompreensível até -
Encontrado somente em corações revestidos de platina
E nas almas diamanticamente azuis.

Estranho é me pegar descobrindo com um coração enferrujado,
Uma alma desleixadamente coberta de carvão
E tu os impregnando como se fosse um turbilhão irremovível,
Polindo e lapidando tudo com tamanho estardalhaço
Que até o silêncio dentro de mim despertou assustado. E limpo.

Isso sim é amor raro. O teu.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

AMOR SEM PENA


AMOR SEM PENA
Oswaldo Antônio Begiato

Levito quando, diante de ti,
Ouço teus oráculos;
Quiromante que és de meus desejos.

Dispo, diante de ti,
A túnica de Nesso,
Porque é a ti que minha alma ama.

Diante de ti, me consumo em êxtase.
Sem penar. Sem ruir.
Completamente enfeitiçado.

domingo, 4 de abril de 2010

CINZELAÇÃO


CINZELAÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato

E quando o tempo terminar de esculpir meu corpo,
Com seus martelos pesados e seus cinzéis afiados,
Dele tirando todo o excesso de vaidades e matérias,
E do corpo, enxuto de músculos e pecados, minh’alma se apartar,
Espero ser compreendido pelas dores que, sem querer, causei
E ser admirado pelas dores que sofri na calada de meu viver.

Se é que o juízo final é mesmo uma balança imparcial,
E minhas cinzas puderem ser divididas em duas partes e um peso só,
Então que uma porção seja jogada no inferno e a outra no paraíso.

Que eu possa, finalmente, descansar em paz.