quarta-feira, 3 de março de 2010

QUE ASSIM SEJA!


QUE ASSIM SEJA!
Oswaldo Antônio Begiato


Eu, que agora me isolo
Nos jardins de suas cercanias
Com a missão de cuidar de seus canteiros,
Do resto da vida abro mão.
De nada mais preciso.
Basta-me meu amor:
- Meu imenso amor por você.

Farei de mim jardineiro,
Servo devotado de suas anteses,
Remexendo suas terras,
Podando seus excessos,
Regando suas raízes.

Multiplicarei suas mudas
Com cuidado de pai,
Com devoção de mãe.
Espalharei seus polens
Com as mãos postas,
Com os pés submissos.
Proteger-lhe-ei dos predadores
Com redomas e venenos.
Afastarei de você as ervas daninhas
Com espadas e enxadas.

Adubarei seus passos
Com súplicas vastas.
Todo dia lhe colherei flores
Para adornar a alcova de meu amor:
- Meu imenso amor por você.

Que assim seja!

Com a água de dores
Que faço verter de meus olhos,
Manter-lhe-ei úmida e saciada.
Ferir-me-ei com seus espinhos,
Embriagar-me-ei com seus perfumes;
Matar-me-ão o tétano e a cirrose,
Mas a cada último suspiro
Ressuscitarei homem incansável
E fecundador pleno.

Que eu nunca perca de vista
Seus olhos florescidos
Nem deixe de provar
A gravidade de suas pétalas.
Que eu nunca lhe deixe sentir
Saudades minhas
Nem viajar pelas esperanças
Sem minha presença.

Que meu trabalho me mantenha fiel;
Que fiel se mantenha meu amor:
- Meu imenso amor por você.

Que assim seja!

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A HISTÓRIA DE LÁZARA


A HISTÓRIA DE LÁZARA
Oswaldo Antônio Begiato

Pensou-se que tivera levado
a vida a cabo.
Foi dada como morta.
Mexeu o braço.
Mexeu a perna.
Abriu os olhos.
Ressuscitou!

Demorou-se além da conta.
Quando chegou,
o jardineiro já tinha passado.
Perdeu a poda
do entardecer.

Os médicos disseram
tratar-se da síndrome de Lázaro.
A filha, de milagre.

Agora vai ser flor
por mais algum tempo.

Ou fardo, quem sabe?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

RETORNO


RETORNO
Oswaldo Antônio Begiato

Quando saí de minha terra
levei comigo meus pensamentos
minhas roupas de menino
e um desejo imenso de piscina.

Eu tinha então onze anos,
duas abotoaduras,
um livro de reza,
uma agulha, linha e botões,
um buquê de flores irreversíveis
e um botão de rosa imaginário.

Eram-me longos os meus dois braços;
na bagagem guardei várias tentações,
duas camisas fechadas feitas de saco de trigo
e um coração pequeno
onde dores iriam despertar,
mais cedo ou mais tarde.

Quando voltei
trazia comigo algumas mágoas de amor,
na alma um vazio novo,
todos os pecados do mundo
e um abraço completamente ausente.

Já era homem
impregnado por um buquê de vícios incorrigíveis;

não tinha mais pensamentos
mas ainda tinha um desejo imenso de piscina.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O SAL DA TERRA E DO MAR



O SAL DA TERRA E DO MAR
Oswaldo Antônio Begiato

Eis-me aqui, abobado, a teus pés
experimentando tuas umidades
e teus âmagos.

Deito-me imóvel na tua área focal
esperando ouvir os acordes
de tuas nascentes.

Quero encontrar minhas asas
e minhas guelras
e provar o ar livre
e o vôo rasante

Fundiram-me com barro
parco e seco vindo de uma terra
sem sal.

Sem funduras fiquei árido de ti;
sem tua água, sem teus abismos,
sem tuas lagunas, sem tuas lacunas.

Teus sais
matam-me a insipidez;
teus demônios
matam-me o medo.

Deixe-me, pois, ficar
assim diante de ti,
silente e inerte,
sorvendo-te sem angústias
até eu poder voar
para o outro lado de ti
e provar o teu inferno temperado.

Mais nada desejo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

VISÃO E CONSTATAÇÃO


VISÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Nunca me vi
Nem mais gordo
Nem mais magro;
Nem mais alto
Nem mais baixo;
Nem mais longe
Nem mais perto;
Nem mais leve
Nem mais ferro;
Nem mais santo
Nem mais sujo;
Nem mais vesgo
Nem mais lince;
Nem mais homem
Nem mais mulher;
Nem mais bardo
Nem mais rude...

Nunca me vi
Nem quero ver:
- Sou a fraude
De meus olhos.

CONSTATAÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato

À medida
que envelheço
As lágrimas
se escasseiam;
Cada gota
traz consigo
Um imortal
sentimento
de dor grave.

Não as gasto
com defuntos
ordinários.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

PRECAUÇÃO


PRECAUÇÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Tenho sido terno:
- Dor, tristeza e solidão.
Dos três conjunto de um só,
Único me fiz muito terno;
Um trio que inspira dó.

Tenho sido posto:
- De saúde, no quartel
Tenente-coronel sem divisa;
Deposto nunca mais fui posto
No meu devido lugar.

Tenho sido rima:
- De restos putrefatos,
Lixo sem coletora mecânica;
Poeta não sei de rimas
Que não tenham identidade de sons.

Tenho sido andejo:
- Vontade cobiça e desejo
Num andamento desvairado
Procurando rimas postas
E um terno para ser enterrado.


Que eu seja vivo enquanto o terno seja nós dois:
- Calça e paletó.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O ENTREGADOR DE PÃES


O ENTREGADOR DE PÃES
Oswaldo Antônio Begiato

A mão que semeia o trigo
É a mesma que arranca o joio;
A mão que distribui o pão
É a mesma que recebe a educação.

Onde se ganha o pão cotidiano
Não se come a carne alheia.
No altar o pão vira carne,
No cálice, o vinho sangue tinto.

Não se preocupe com o pão.
Não se preocupe com o trabalho.
Logo que chegar a fonte e sua água fresca
Chegará a árvore frondosa e sua sombra.

Pagarão então, com pouco suor,
A conta do mercado vencida.
O dinheiro pouco do trabalho
Das pequenas mãos entregadoras de pão
Ajudará, como uma alavanca e seu apoio
Longe do mundo, a mover o mundo.

E um dia lhe serão dados,
Para deleite da mente e das confissões,
Pinga boa,
Fumo forte,
Mulher bonita.

É o que diz a língua do povo;
A língua do povo
É a língua de Deus.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

DIAPASÃO


DIAPASÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Em que paliativos
Ocultaram-se as cifras
Do braço de meu violão?

Em que placebos
Ocultou-se o braço
Do meu violão?

Em que mentiras
Ocultou-se
O meu violão?

Como faço agora
Se vivo de afinações
E só sei tocar de ouvido?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CANTO GREGORIANO


CANTO GREGORIANO
Oswaldo Antônio Begiato

Virgem, a quem flores trago,
Hoje quase nada peço;
Nem que venha, nem que suma,
Nem que reze, nem que negue.

Só me devolva a canção
Roubada de meus ouvidos.
Findo-me pauta sem claves,
E cantochão sem órgano.

sábado, 23 de janeiro de 2010

COLAR


COLAR
Oswaldo Antônio Begiato

Ajuntei aqui e ali algumas pedrinhas
Que encontrei perdidas pelo chão
Enquanto meus passos se apagavam de ti:

-Uma esmeraldinha pálida de susto
Com as quinas quebradas e cheias de limo
Por conta de um amor desesperançado;

- Um rubi, cor de rosa e já escangalhado,
Com as veias vazias e o coração mudo
De tanto amar intensa e inutilmente;

- Uma safira querendo embranquecer,
Opaca pelo passar de mão em mão
Que lhes foram deixando sem o olhar intenso.

Com elas fiz este colar, amarrado com tristeza,
Que agora te entrego às portas de minha partida:
- Deixo-o para ti como prova de minhas saudades.

Comigo levo apenas aquele seixo rolado pequenino
Por mim recolhido de dentro de tuas águas passadiças,
Onde vou repousar minha cabeça livre e leve e sem sonhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

PENINSULAR


PENINSULAR
Oswaldo Antônio Begiato

De que madeira serão feitas as portas de Portugal?
Para que caminhos inusitados levarão elas, agora que foram abertas?
Em que jardins nascem os espinhos da Espanha?
Quais cicatrizes poderão eles fazer com as saudades minhas?

De onde chegam as naus nos portos de Portugal?
Que tipo de gente elas trazem todos os dias em seus porões?
Que guerras farão as espadas da Espanha?
Quem são os guerreiros sábios que lhe aumentarão os limites?

Oh! Península Ibérica,
Por onde, com botas impermeáveis,
Caminham agora os meus mestres,
Hei de te conhecer um dia,
Sob o teu sol e sob tua neve
E hei de calcinar essa minha curiosidade
De portas e de espinhos,
De portos e de espadas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

DUAS POESIAS SOBRE A POESIA


RIMA DE VIDA
Oswaldo Antônio Begiato

Que a poesia atrevida
encha sua vida vívida
até a boca
e se derrame toda ávida,
inundando a minha vida
lívida.

É que minha vida lívida,
cheia de si mesma
e tão pouca,
sem nenhuma dádiva,
é irmã siamesa da sua;
vívida.

Derrame sua poesia divina
nessa minha vida,
tão plena de dúvida,
e sejamos rima de(vida):
- Eu e você, para sempre;
faça sol, faça chuva!

A sua poesia alivia a minha vida árdua.

SINAIS VITAIS
Oswaldo Antônio Begiato

Primeiro nasceu o menino,
Na terra, na roça;
Depois nasceu o poeta,
Na terra da santa;
Por último o homem
Na terra da uva.

Por isso sua poesia é
Um pouco semente,
Um pouco promessa,
Um pouco colheita.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

PRESENTE DE NATAL


PRESENTE DE NATAL
Oswaldo Antônio Begiato

É assim:
- Arrumando uma caixa velha minha,
esquecida em um canto do meu guarda-roupa,
achei este último exemplar virgem
do meu primeiro livro de poesias,
escrito com minhas mãos ingênuas,
feito artesanalmente e que tive,
quando de sua visita à minha casa,
oportunidade de lhe mostrar.

Houve uma promessa guardada,
até hoje, em minha memória cansada.

Ele está velho,
carcomido pelo tempo, pelas traças
e pela simplicidade de um moço
que ainda sabia amar.
É o penúltimo que sobrou
dos poucos que minhas economias suportaram pagar.

Não sei se estou dando valor maior
- certamente estou -
do que tem o livro que sequer nome ganhou,
mas para mim é uma preciosidade,
pois sei apenas o destino deste agora
e daquele que lhe mostrei, cuja guarda tenho
(era de meus pais e o recebi de volta
por ocasião do falecimento deles
e por força de um testamento tácito).

Mando-o pela costa veloz do Noel.

Se não gostar, pode jogar fora,
ou me devolver.
(em nenhum caso ficarei chateado).
Se guardar ser-lhe-ei eternamente grato.

É tudo o que esse pobre bardo pode lhe dar neste Natal,
na vã tentativa de retribuir modestamente
as muitas delicadezas que me fizeste.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ANIS E ALCAÇUZ


ANIS E ALCAÇUZ
Oswaldo Antônio Begiato

Há palavras bem ditas.
Há palavras mal ditas.
Há palavras não ditas;
essas são as sensatas.

Ora, a mulher que amo
tem beijos com gosto
de anis-estrelado:
- Quando me beija
viro céu fragrante;
tem beijos com gosto
de raiz de alcaçuz:
- Quando me beija
lacra-nos insanos.

Coerentes, guardamos
as palavras medidas
sem nossas pronúncias.

Tiramos a palavra
da boca, um do outro.