segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O ENTREGADOR DE PÃES


O ENTREGADOR DE PÃES
Oswaldo Antônio Begiato

A mão que semeia o trigo
É a mesma que arranca o joio;
A mão que distribui o pão
É a mesma que recebe a educação.

Onde se ganha o pão cotidiano
Não se come a carne alheia.
No altar o pão vira carne,
No cálice, o vinho sangue tinto.

Não se preocupe com o pão.
Não se preocupe com o trabalho.
Logo que chegar a fonte e sua água fresca
Chegará a árvore frondosa e sua sombra.

Pagarão então, com pouco suor,
A conta do mercado vencida.
O dinheiro pouco do trabalho
Das pequenas mãos entregadoras de pão
Ajudará, como uma alavanca e seu apoio
Longe do mundo, a mover o mundo.

E um dia lhe serão dados,
Para deleite da mente e das confissões,
Pinga boa,
Fumo forte,
Mulher bonita.

É o que diz a língua do povo;
A língua do povo
É a língua de Deus.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

DIAPASÃO


DIAPASÃO
Oswaldo Antônio Begiato

Em que paliativos
Ocultaram-se as cifras
Do braço de meu violão?

Em que placebos
Ocultou-se o braço
Do meu violão?

Em que mentiras
Ocultou-se
O meu violão?

Como faço agora
Se vivo de afinações
E só sei tocar de ouvido?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

CANTO GREGORIANO


CANTO GREGORIANO
Oswaldo Antônio Begiato

Virgem, a quem flores trago,
Hoje quase nada peço;
Nem que venha, nem que suma,
Nem que reze, nem que negue.

Só me devolva a canção
Roubada de meus ouvidos.
Findo-me pauta sem claves,
E cantochão sem órgano.

sábado, 23 de janeiro de 2010

COLAR


COLAR
Oswaldo Antônio Begiato

Ajuntei aqui e ali algumas pedrinhas
Que encontrei perdidas pelo chão
Enquanto meus passos se apagavam de ti:

-Uma esmeraldinha pálida de susto
Com as quinas quebradas e cheias de limo
Por conta de um amor desesperançado;

- Um rubi, cor de rosa e já escangalhado,
Com as veias vazias e o coração mudo
De tanto amar intensa e inutilmente;

- Uma safira querendo embranquecer,
Opaca pelo passar de mão em mão
Que lhes foram deixando sem o olhar intenso.

Com elas fiz este colar, amarrado com tristeza,
Que agora te entrego às portas de minha partida:
- Deixo-o para ti como prova de minhas saudades.

Comigo levo apenas aquele seixo rolado pequenino
Por mim recolhido de dentro de tuas águas passadiças,
Onde vou repousar minha cabeça livre e leve e sem sonhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

PENINSULAR


PENINSULAR
Oswaldo Antônio Begiato

De que madeira serão feitas as portas de Portugal?
Para que caminhos inusitados levarão elas, agora que foram abertas?
Em que jardins nascem os espinhos da Espanha?
Quais cicatrizes poderão eles fazer com as saudades minhas?

De onde chegam as naus nos portos de Portugal?
Que tipo de gente elas trazem todos os dias em seus porões?
Que guerras farão as espadas da Espanha?
Quem são os guerreiros sábios que lhe aumentarão os limites?

Oh! Península Ibérica,
Por onde, com botas impermeáveis,
Caminham agora os meus mestres,
Hei de te conhecer um dia,
Sob o teu sol e sob tua neve
E hei de calcinar essa minha curiosidade
De portas e de espinhos,
De portos e de espadas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

DUAS POESIAS SOBRE A POESIA


RIMA DE VIDA
Oswaldo Antônio Begiato

Que a poesia atrevida
encha sua vida vívida
até a boca
e se derrame toda ávida,
inundando a minha vida
lívida.

É que minha vida lívida,
cheia de si mesma
e tão pouca,
sem nenhuma dádiva,
é irmã siamesa da sua;
vívida.

Derrame sua poesia divina
nessa minha vida,
tão plena de dúvida,
e sejamos rima de(vida):
- Eu e você, para sempre;
faça sol, faça chuva!

A sua poesia alivia a minha vida árdua.

SINAIS VITAIS
Oswaldo Antônio Begiato

Primeiro nasceu o menino,
Na terra, na roça;
Depois nasceu o poeta,
Na terra da santa;
Por último o homem
Na terra da uva.

Por isso sua poesia é
Um pouco semente,
Um pouco promessa,
Um pouco colheita.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

PRESENTE DE NATAL


PRESENTE DE NATAL
Oswaldo Antônio Begiato

É assim:
- Arrumando uma caixa velha minha,
esquecida em um canto do meu guarda-roupa,
achei este último exemplar virgem
do meu primeiro livro de poesias,
escrito com minhas mãos ingênuas,
feito artesanalmente e que tive,
quando de sua visita à minha casa,
oportunidade de lhe mostrar.

Houve uma promessa guardada,
até hoje, em minha memória cansada.

Ele está velho,
carcomido pelo tempo, pelas traças
e pela simplicidade de um moço
que ainda sabia amar.
É o penúltimo que sobrou
dos poucos que minhas economias suportaram pagar.

Não sei se estou dando valor maior
- certamente estou -
do que tem o livro que sequer nome ganhou,
mas para mim é uma preciosidade,
pois sei apenas o destino deste agora
e daquele que lhe mostrei, cuja guarda tenho
(era de meus pais e o recebi de volta
por ocasião do falecimento deles
e por força de um testamento tácito).

Mando-o pela costa veloz do Noel.

Se não gostar, pode jogar fora,
ou me devolver.
(em nenhum caso ficarei chateado).
Se guardar ser-lhe-ei eternamente grato.

É tudo o que esse pobre bardo pode lhe dar neste Natal,
na vã tentativa de retribuir modestamente
as muitas delicadezas que me fizeste.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

ANIS E ALCAÇUZ


ANIS E ALCAÇUZ
Oswaldo Antônio Begiato

Há palavras bem ditas.
Há palavras mal ditas.
Há palavras não ditas;
essas são as sensatas.

Ora, a mulher que amo
tem beijos com gosto
de anis-estrelado:
- Quando me beija
viro céu fragrante;
tem beijos com gosto
de raiz de alcaçuz:
- Quando me beija
lacra-nos insanos.

Coerentes, guardamos
as palavras medidas
sem nossas pronúncias.

Tiramos a palavra
da boca, um do outro.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

sábado, 2 de janeiro de 2010

DOIS MIL E DEZ



QUERIA DIZER DUAS COISAS:

1. NEM TUDO O QUE DIZEM CORRESPONDE À VERDADE.
2. NÃO ESTOU APAIXONADO POR NINGUÉM. AMO MUITAS PESSOAS COM UM AMOR COMEDIDO.
QUEM SABE EU POSSA ENLOUQUECER EM 2010.


QUE 2010 SEJA SUAVE COMO O VÔO PANORÂMICO SOBRE A NOSSA ALDEIA INTERNA.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

ESTÁTUA DE SAL


ESTÁTUA DE SAL
Oswaldo Antônio Begiato

Então...
Não estranhe o meu andejar manco
de lá pra cá, de cá pra lá, sem muito critério;
sou apenas o luar insano e débil
se perdendo da lua;
a lua transviada no meio da poça
se perdendo da noite;
a noite embriagada de solidão
se perdendo do amor;
o amor se perdendo... Se perdendo!

Não me trate como se eu tivesse quinze anos.
Não se iluda. Tenho algumas eternidades,
e um monte de fotos a serem desvendadas
(de um semblante que encontrei enrugado
no reflexo proporcionalmente inverso
à imagem paralisada de meu rosto
amando a face oculta da lua, à meia noite.)
- Isso sim é perdição!

Estou aqui desde ontem
com a mesma roupa no avesso,
o mesmo sapato sem sola,
a mesma rua e a mesma esquina sem saídas,
os mesmos eclipses sem placas,
as mesmas corrosões velozes,
os mesmos medos fotografados,
e o mesmo olho inchado de tanto te olhar:
- É olhar-te em vão que tem me apequenado.

Então...
É que quando te olho me vejo dízima periódica;
cavalo de São Vicente:
- Carrega peso e não sente.
Sentimentos meus que os fatos iludiram.
Eles não têm mais importância alguma.
Eles não têm razão nenhuma para me furtar o sorriso,
mas eles fazem as lágrimas me beijarem palpitantes
as minhas horas mais frágeis.
Frágil, venho abaixo. Viro sal.

Não visses ainda que quando abotoas
no meio de meus confins
enche meus olhos de jardins
e meu coração de espinhos?
Ajardinado, vou-me fugaz... Sem olhar para trás.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

FORASTEIRA


FORASTEIRA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com meus olhos sagazes,
Com minhas sardas censuradas,
Com minha boca enfeitada,
Com meus seios valentes,
Com minhas coxas atrevidas,
Com meu sexo forasteiro...

Eu nasci mulher
E mulher vou caminhar.

Com minhas pernas próprias.
Com minhas pernas sóbrias.

sábado, 21 de novembro de 2009


ROSA MENINA DOS OLHOS DE ROSA
Oswaldo Antônio Begiato

Foi quando me ofertaste doce a rosa;
- Rosa menina dos olhos de rosa -
E perdão pediste por ser menina
Nas ecos vazios da vida menina
Ofertando a mim, menino pequeno
No meu viver de menino pequeno,
A rosa menina mais só do mundo;
- Linda menina dos olhos do mundo -
É que me fizeste tão apaixonado,
Eu, menino do mundo, apaixonado
Por ti e por teus olhos cor-de-rosa;
- Rosa menina dos olhos de rosa.