quarta-feira, 21 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
CONTRADANÇA

CONTRADANÇA
Oswaldo Antônio Begiato
Te quero rubra
Te fazes branca
Te quero branca
Te fazes água
Te quero água
Te fazes jóia
Te quero jóia
Te fazes mulher
Te quero rosa
Te fazes nuvem
Te quero nuvem
Te fazes solo
Te quero solo
Te fazes vôo
Te quero vôo
Te fazes mulher
Te quero brisa
Te fazes vácuo
Te quero vácuo
Te fazes sopro
Te quero sopro
Te fazes vida
Te quero vida
Te fazes mulher
Te quero carne
Te fazes sonho
Te quero sonho
Te fazes pele
Te quero pele
Te fazes cheiro
Te quero cheiro
Te fazes mulher
Te quero rasa
Te fazes poço
Te quero poço
Te fazes seca
Te quero seca
Te fazes doce
Te quero doce
Te fazes mulher
Te quero terna
Te fazes vulcão
Te quero vulcão
Te fazes neve
Te quero neve
Te fazes fogo
Te quero fogo
Te fazes mulher
Te quero fênix
Te fazes cinza
Te quero cinza
Te fazes cheia
Te quero cheia
Te fazes colo
Te quero colo
Me fazes homem
terça-feira, 13 de outubro de 2009
PÉTALAS PLENAS
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
FORA DE PRUMO
terça-feira, 29 de setembro de 2009
TANTO É

TANTO É
Oswaldo Antônio Begiato
Tanto é
Que estou aqui de mãos postas,
Pernas em genuflexão e olhos alagados
Fingindo rezar uma prece de luz em plena obcecação.
Tanto é
Que não sei o fuso horário;
O dia, o mês e o ano em que estou pulsando.
Fiquei atemporal, sem medidas e incorpóreo. Intangível.
Tanto é
Que não tenho residência fixa.
Não tenho cadastros. Não tenho verdades.
Carrego somente as sombras que me conspurcaram.
Tanto é
Que já ultrapassei minha permanência,
Diluindo-me em partidas intolerantes à volta.
Não penso e não existo mais. Sou espectro. Fio de vida.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
EU TE DESEJO UM SONHO

EU TE DESEJO UM SONHO
Oswaldo Antônio Begiato
Desejos são coisas simples:
Andar de mãos dadas no meio da noite,
Fazê-la parecer nunca terminar
Enquanto estrelas travessas nos espiam
Remexendo com suas pontas ligeiras
Nossos corações distraídos;
Colher flores amarelas amadurecidas no campo,
Ataviar teus cabelos longos e leves
Enquanto o vento os toca com suavidade
Embalando nossas secretas
Vontades de perdição eterna...
Sonhos, porém, são mais complexos;
Eu por exemplo sonho te fazer feliz.
Viu como é complexo?
domingo, 20 de setembro de 2009
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
VIAGEM

VIAGEM
Oswaldo Antônio Begiato
Que praias selvagens são essas
onde tuas curvas ostentam
despudores?
Que matas virgens são essas
onde tuas vergonhas delatam
indiscrições?
Que desertos abismáticos são esses
onde meus destinos se precipitam
suicidamente?
Que montanhas íngremes são essas
onde minhas mãos serpenteiam
cheias de malícia?
Que lugares fascinantes são esses
delicadamente tatuados em teu corpo
amorenado?
Onde ficam esses lugares inóspitos?
Eu preciso, mulher, conhecê-los
urgentemente!
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
TIROCÍNIO

TIROCÍNIO
Oswaldo Antônio Begiato
Aprendi com
as coisas novas,
a compreender
as pessoas velhas.
E aprendi com
as pessoas velhas
a compreender
as coisas novas.
Aprendi com
os homens céticos,
a ter uma fé feroz.
E aprendi com
o fanatismo desmedido
que a descrença
nasce nas crianças
ao lhes ser negadas,
estupidamente, as fantasias
quando as ilusões
lhes são mais necessárias.
Aprendi com
as privações me impostas,
em nome de uma felicidade
assustadora,
a somente ter direito
à felicidade
o dia em que,
com meus olhos
encharcados,
minhas mágoas
forem maiores
que meus sonhos.
Aprendi com
minhas quedas
a suportar a dor
física de meu corpo
porque as feridas
perspécticas d’alma
doem mais,
e sangram
um sangue perene
que não as deixa
estancarem.
Aprendi com a vida
que a vida é breve;
que não há nela
sentido algum
além da brevidade.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
ABRAÇADO PELO MEDO

ABRAÇADO PELO MEDO
Oswaldo Antônio Begiato
Quero trocar essa trincheira onde me colocaram
Menino ainda, com o coração farejando seus rumos,
Por uma bandeira branca na ponta de meu fuzil.
Quero trocar essa farda manchada com o sangue,
Extirpado de minha pele contaminada furtadamente,
Por um terno risca de giz com uma orquídea na lapela.
Em tua boca cálida quero provar um tango vermelho.
Meu Deus, não suporto essa fé pálida e essa luta pávida!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
LUA MIÚDA
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?

SENHORITA, DÁ-ME O PRAZER DESTA DANÇA?
Oswaldo Antônio Begiato
Zelador, queria cultivar um jardim encantador
cheio de rosas perfumadas e distraídas,
- amarelas e promíscuas -
cheio de cravos etéreos e exibidos,
- escarlates e apaixonados -
cheio de violetas pequenas e atrevidas,
- brancas e meigas.
Cheio de flores da idade que nascem no verso do tempo.
Cheio de flores que não se cheira com segundas intenções.
Sonhador, queria inventar um bailar encantador,
cheio de valsas a seus pés suaves e lépidos,
- sonho de bailarino -
cheio de tangos a seus quadris sensuais e curvos,
- sonho de amante -
cheio de danças a seu ventre livre e inocente,
- sonho de dançador.
Cheio dos passos que aprisionam os sonhos e me fazem teu anjo.
Cheio dos passos imprudentes com os quais zelo pelas tuas asas.
E com as mãos cheias de flores, queria tirar-lhe para dançar;
para dançar em teus braços longos e atemporais.
Mas, como sabes bem, sou bobo. Sou tímido. Perdoe-me.
Por favor, tire-me tu, senhorita, para dançar!
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
INCÔNSCIO

INCÔNSCIO
Oswaldo Antônio Begiato
Há pessoas que amam
tão intensamente nossos inversos
deixando-os, para quem os vê de fora,
parecidos com a ilusória linha reta
por onde caminham nossos pés tortos,
por onde caminham os desejos de nossos corpos.
Há pessoas que amam
tão intensamente nossos erros
a ponto de parecermos a retidão dos profetas,
legada desde o princípio dos tempos
por nossos deuses externos,
quando ainda não existiam pecados veniais; nem mortais.
Há pessoas que nos amam intensamente;
e nem Deus, com toda sua onisciência,
sabe o porquê.
Essas pessoas merecem a nossa mais inalienável gratidão.
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
PURA E SIMPLES

PURA E SIMPLES
Oswaldo Antônio Begiato
Eu poderia vir aqui
e olhando dentro da tua inusitada alma
dizer que você é mais bonita
do que o avental pintado à mão
que minha mãe colocava aos domingos,
quando se preparava para fazer o nosso almoço,
em frente ao fogão à lenha.
Foi minha primeira visão de suavidade!
Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de tuas meiguices raras
dizer que você é mais bonita
do que a gravata borboleta azul marinho
que meu pai, orgulhoso de sua fé
e orgulhoso da fé que imaginou que eu tivesse,
enfeitou meu pescoço
quando fiz a primeira comunhão.
Foi minha primeira visão de santidade!
Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus lugares ocultos
dizer que você é mais bonita
do que a doída canção “Santa Lucia”
que meu avô ouvia sua gente cantar nos casamentos
e chorava e soluçava e se lembrava da Itália
de onde tinha partido muito moço com o coração partido.
Foi minha primeira visão de saudade!
Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus olhos rimados
dizer que você é mais bonita
do que o soneto de Vinícius de Moraes
com que minha primeira namorada,
equivocadamente apaixonada,
fez a dedicatória no livro que me deu de presente,
quando demos o nosso primeiro beijo.
Foi minha primeira visão de eternidade!
Mas escolhi dizer:
- Você é linda!
Puramente.
domingo, 2 de agosto de 2009
AMOR ALÉM

AMOR ALÉM
Oswaldo Antônio Begiato
Hoje eu quis te amar de um modo diferente;
Diferente de como sempre te amei.
Quis te amar modestamente. Despojado de todas minhas coisas.
Despojado de meus versos despudorados,
De minhas rimas enlouquecidas.
Hoje eu quis te amar
Simplesmente, como pombas,
No mais singelo dos vôos;
Intemporalmente, como pedras polidas
Que a água frágil acariciou por milênios.
Quis um amor desses que a história grava
Nas memórias mais amnésicas e distraídas
Com fios d’ouro indeléveis,
Com despercebidas entregas,
Com pungentes sentimentos...
Hoje eu quis te amar de um modo diferente.
Sem os dentes com os quais sempre lhe mordi a presença,
Sem flores insossas com as quais sempre enfeitei a entrada de seu corpo,
Sem o céu cheio das estrelas falsas que nele acendi para te iluminar,
Sem perfumes insontes
Na nossa pele, nos nossos poros, nas nossas veias, no nosso juízo;
Sem seios divididos ao meio pelo mar morto,
Sem véus impávidos escondendo a paúra.
Sem palavras bonitas, sem palavras difíceis. Sem palavras.
Sem espelhos convexos que invertem as imagens magras de nossos desejos.
Sem olhares, sem segredos, sem vestidos vermelhos, sem projetos.
Sem passado, sem princípio.
Sem presente, sem instantes.
Sem futuro, sem eternidade.
Apenas quis hoje te amar de um modo diferente.
Modestamente, quis te amar.
E tu vieste envolta em uma luz tão incandescente,
Tão cheia de coisas que em ti guardaste pra mim a vida inteira,
Que mais do que te amar diferente e perdidamente
Morri por ti. Morri repleto de ti. Morri somente.
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