sexta-feira, 14 de agosto de 2009

INCÔNSCIO


INCÔNSCIO
Oswaldo Antônio Begiato

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos inversos
deixando-os, para quem os vê de fora,
parecidos com a ilusória linha reta
por onde caminham nossos pés tortos,
por onde caminham os desejos de nossos corpos.

Há pessoas que amam
tão intensamente nossos erros
a ponto de parecermos a retidão dos profetas,
legada desde o princípio dos tempos
por nossos deuses externos,
quando ainda não existiam pecados veniais; nem mortais.

Há pessoas que nos amam intensamente;
e nem Deus, com toda sua onisciência,
sabe o porquê.

Essas pessoas merecem a nossa mais inalienável gratidão.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

PURA E SIMPLES


PURA E SIMPLES
Oswaldo Antônio Begiato

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro da tua inusitada alma
dizer que você é mais bonita
do que o avental pintado à mão
que minha mãe colocava aos domingos,
quando se preparava para fazer o nosso almoço,
em frente ao fogão à lenha.
Foi minha primeira visão de suavidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de tuas meiguices raras
dizer que você é mais bonita
do que a gravata borboleta azul marinho
que meu pai, orgulhoso de sua fé
e orgulhoso da fé que imaginou que eu tivesse,
enfeitou meu pescoço
quando fiz a primeira comunhão.
Foi minha primeira visão de santidade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus lugares ocultos
dizer que você é mais bonita
do que a doída canção “Santa Lucia”
que meu avô ouvia sua gente cantar nos casamentos
e chorava e soluçava e se lembrava da Itália
de onde tinha partido muito moço com o coração partido.
Foi minha primeira visão de saudade!

Eu poderia vir aqui
e olhando dentro de teus olhos rimados
dizer que você é mais bonita
do que o soneto de Vinícius de Moraes
com que minha primeira namorada,
equivocadamente apaixonada,
fez a dedicatória no livro que me deu de presente,
quando demos o nosso primeiro beijo.
Foi minha primeira visão de eternidade!

Mas escolhi dizer:
- Você é linda!
Puramente.

domingo, 2 de agosto de 2009

AMOR ALÉM


AMOR ALÉM
Oswaldo Antônio Begiato

Hoje eu quis te amar de um modo diferente;
Diferente de como sempre te amei.
Quis te amar modestamente. Despojado de todas minhas coisas.
Despojado de meus versos despudorados,
De minhas rimas enlouquecidas.

Hoje eu quis te amar
Simplesmente, como pombas,
No mais singelo dos vôos;
Intemporalmente, como pedras polidas
Que a água frágil acariciou por milênios.

Quis um amor desses que a história grava
Nas memórias mais amnésicas e distraídas
Com fios d’ouro indeléveis,
Com despercebidas entregas,
Com pungentes sentimentos...

Hoje eu quis te amar de um modo diferente.
Sem os dentes com os quais sempre lhe mordi a presença,
Sem flores insossas com as quais sempre enfeitei a entrada de seu corpo,
Sem o céu cheio das estrelas falsas que nele acendi para te iluminar,
Sem perfumes insontes
Na nossa pele, nos nossos poros, nas nossas veias, no nosso juízo;
Sem seios divididos ao meio pelo mar morto,
Sem véus impávidos escondendo a paúra.
Sem palavras bonitas, sem palavras difíceis. Sem palavras.
Sem espelhos convexos que invertem as imagens magras de nossos desejos.
Sem olhares, sem segredos, sem vestidos vermelhos, sem projetos.
Sem passado, sem princípio.
Sem presente, sem instantes.
Sem futuro, sem eternidade.

Apenas quis hoje te amar de um modo diferente.
Modestamente, quis te amar.

E tu vieste envolta em uma luz tão incandescente,
Tão cheia de coisas que em ti guardaste pra mim a vida inteira,
Que mais do que te amar diferente e perdidamente
Morri por ti. Morri repleto de ti. Morri somente.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

TODOS OS DIAS


TODOS OS DIAS
Oswaldo Antônio Begiato

Penso como homem;
Sinto como menino.

Faço como homem;
Sonho como menino.

Olho como homem;
Amo como menino.

Luto como homem;
Choro como menino.

Morro como homem;
Broto como menino.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

ALEITAÇÃO MATERNA


ALEITAÇÃO MATERNA
Oswaldo Antônio Begiato

e porque é branco
o leite materno
os seios oferecem
à boca miúda
e ávida por uma vida longa
todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

a
lei
t
ação
ma
terna

e porque são maternos
os seios nus
sem serem nus
oferecem
o leite
dádiva materna da vida
anunciado ainda no quarto
pelo parto

ele nunca é fraco
ele nunca é parco

ele é terno
ele é materno
ele é brando
ele é branco

o leite é terno e materno e brando e branco

e porque é branco
sempre
sempre
sempre...
tem todas as cores do mundo
todas as cores da mulher

e porque é materno
sempre
sempre
sempre ...
a vida se esconde nele
como que a brincar
de eternidade
de eterna idade

terça-feira, 14 de julho de 2009

ENRUBESCIDO


ENRUBESCIDO
Oswaldo Antônio Begiato

Era alvorejar no campo.
No ar um forte desejo de vôo se espalhava com a primavera.
O dia se mantinha adormecido,
cinza e frio;
sem sinos,
sem pincéis
e sem fornalhas.

O sol se ocupava em acariciar as outras faces da terra
onde os rios não se congelam e as sombras se multiplicam.

O beija-flor
- menino leve no meio de tão brusco abandono -
olhava a distância sem pensamento algum.
Onde estariam as flores de outrora?
Onde estariam as luzes da aurora?
Onde estaria o passar das horas?

Foi quando a mais delicada das orquídeas
aquecida pelas fornalhas do desejo intenso,
cheia de pétalas voláteis extraídas dos esplendores,
sem pudores,
e a alma pairadora em completa nudez
postou-se ao lado dele, toda promissora,
sob o repique brônzeo dos sinos,
enchendo-lhe os olhos de distâncias
e de asas seus pensamentos.

O beija-flor
enternecido de beijos e flores,
pejou-se todo.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

FORMOSA


FORMOSA
Oswaldo Antônio Begiato

Minha formosa menina,
Deste teu amado que se fascina
Leva os tolos sonhos, as vãs fantasias,
As ricas notas e as graves melodias.

Minha formosa princesa,
Primeira flor no paraíso acesa,
A ti entrego, manso, meu corpo torto;
De ti faço meu iniludível porto.

Minha formosa donzela,
Vento sereno e firme em minha vela,
Em ti navegam retos meus suplícios;
Para ti ofereço os meus sacrifícios.

Minha formosa amante,
Para quem nunca serei bastante,
É em ti que habitam meus extravios;
É contigo que preencho meus vazios.

Minha formosa escolhida,
Por minha estrela guia recolhida,
Quero-te bela navegando meu mar;
Quero-te infiel esgotando meu amar.

terça-feira, 7 de julho de 2009

INOCÊNCIA


INOCÊNCIA
Oswaldo Antônio Begiato

Eu não queria mais chorar. Nunca mais!
Estou muito velho para chorar. Esgotei, com o tempo, minhas lágrimas.
Mas quando vejo estou chorando.
Choro, mesmo sem lágrimas, porque chorar é preciso.

Sou um produto inacabado. Incapaz de ser saudável.
Incapaz de ser inofensivo.
Vã foi minha vida!
Tão cheia de segredos,
de cadeados,
de senhas,
de mistérios,
de combinações,
de chaves...

Minha vida foi tão cheia de encruzilhadas e tão escassa de retas.

Será que o tempo foi muito e o amor foi pouco,
ou será que o arrependimento por tão pouco amor
fez as pessoas me mimarem tanto?

Será que tenho direito de sonhar?
Toda vez que sonhei apanhei:
- Ou porque tinha sonhado exageros
ou porque não sonhei os sonhos que queriam.

Duro mesmo é se olhar no espelho e ver
que a curva da vida está em declínio,
não no que diz respeito ao tempo,
mas no que diz respeito aos sonhos que não tenho mais.

No entanto, resta-me um pequeno sonho
que escondo sob meu travesseiro para que não seja roubado:
- Eu gostaria que todos os portões fossem abertos
e que ninguém tocasse em nada que é meu;
mas que se houvessem toques,
fossem eles uma espécie de mágica fraterna,
que fizesse tudo virar flor.

Ou beija flor.
Ou borboleta.
Ou inocência...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

INESPERADO


INESPERADO
Oswaldo Antônio Begiato

Se o teu coração
imenso e veloz
Puder perdoar meu coração
Pequenino e trôpego
Peço perdoar-me
não pelo medo que tive de sofrer
Mas pela ousadia que tive de te amar
Em todas tuas dimensões
Com todas minhas proporções.

Com minh’alma
em contentamentos
Cobri,
com meu norte e meu sul,
teus cantos todos
Porque foram tão singelas
e perenes
As esperanças que tatuaste
em minha solidão:

- O vaso vazio à espera de flores;
Flores repletas
bordadas dentro dos olhos.
- O livro leve à espera de poesias;
Poesias meigas
semeadas por entre lírios.
- A noite nobre à espera de estrelas;
Estrelas meninas
vestidas de cor de rosa.
- A taça tosca à espera do tinto vinho;
Vinho ardente
fermentado no céu da boca.
- A canção límpida à espera da voz;
Voz metálica
apurada nas catedrais.
- O barco brando à espera da tormenta;
Tormenta sem calmaria para amar...
Para te amar!

E nossas bocas bobas
à espera do beijo
- Beijo longo perdido na brevidade da paixão -
É o filme sem cortes
à espera de um final feliz;
Final feliz escrito pelas mãos da própria Felicidade.

domingo, 28 de junho de 2009

MAIS UMA TENTATIVA DE CRÔNICA


DIANTE DE SI MESMA
Oswaldo Antônio Begiato

Só, diante de si mesma, se olhava longamente no espelho que a lançava em um mundo feito de inversões. Ao fundo, a cama desarrumada. Nas dobras do lençol se ajeitavam os desarranjos de uma noite de insônia e solidão. As cortinas trepidavam com a brisa; despertavam desesperadamente recordações indesejáveis em sua alma tão feminina e tão sensível e tão distante.

Uma réstia de sol iluminava o porta-retrato fingidamente esquecido sobre a cabeceira. No porta-retrato o corpo do homem não permitia o abraço; inertes, os olhos denunciavam uma presença intocável. Insensível. Uma imagem plana e sem movimentos, onde apenas o tempo se movia ali, deixando na face única e máscula um amarelo indelével.

No ar pairava o perfume que os anos diluíram, mas a memória, teimosamente, não. Nem se diluiu a ilusão de sentir o leve pousar da mão nos cabelos ainda castanhos, ainda que o pouso se fizesse breve. Breve como um suspiro. Carinho frágil, sempre negado.

O espelho retratava tudo mudo e complacente. Havia nele um vácuo inconquistável. Havia na mulher um vácuo inquestionável. Uma espécie de porta se abria sem muitos ruídos, mas que não permitia a entrada do futuro nem permitia a saída do passado. Prisão perpétua.

Que falta lhe faziam agora a formatura do filho que nunca nasceu, a missa de bodas de prata que nunca aconteceu, o abraço do neto que nunca veio... Os vácuos se multiplicavam dentro do espelho. O Espelho era outro mundo. Outra vida. Outra essência. Nos vácuos que se sucediam, outra história acontecia, ainda que somente no pensamento.

Porém, o espelho também era uma imagem plana e sem movimentos que se dobrava ao inverso para amenizar a crua realidade do tempo que passou, sem deixar muitos vestígios dos sonhos jamais formatados, e tentar apagar as dores e as imagens que se perpetuam na retina cansada de olhar os inversos.

Em vão. O exagero da complacência não permitiu ao espelho notar nele a imagem inversa dos fios brancos de cabelo abraçados à escova.

Abraçados teimosamente à escova posta diante dele.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

VILEZA


VILEZA
Oswaldo Antônio Begiato

Venho,
profundamente indignado,
à porta de tua casa para chorar,
não o leite derramado
(este a natureza de algum modo absorverá)
mas a alma vilipendiada,
esta sim irrecuperável.

terça-feira, 16 de junho de 2009

MEU NOME


MEU NOME
Oswaldo Antônio Begiato

A vogal “o” do meu nome me faz masculino.
Gosto de ser homem feito.

Ele começa com ela e com ela termina;
a tem bem em seu centro acentuada circunflexamente:
- É a cumeeira do telhado
porque o meu nome é minha morada.

Suas vogais masculinas são as janelas
por onde enxergo as paisagens externas:
- Elas moldam a alma que ainda não é minha,
iluminam as minhas avenidas internas
e fertilizam meus canteiros inacabados.

Meu nome me protege. Meu nome me expõe.
Meu nome me esconde. Meu nome me delata.

Dentro do meu nome guardo todas as sílabas
que penso me pertencerem, mas que não me pertencem.
Guardo um passado que herdei cheio de honras,
um futuro que tento legar inutilmente
e entre eles um presente cuja utilidade não sei ao certo.

Dentro de meu nome guardo todas as poesias:
- As que já escrevi e que não são poesias e as que jamais escreverei.

Meu nome é minha Caixa de Pandora.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

VÍCIO SUPREMO


VÍCIO SUPREMO
Oswaldo Antônio Begiato

Eu te amo.

Estou irremediavelmente apaixonado.
Eu te amo e não sei o que fazer com esse sentimento.
Tudo tão intrigante! Tudo tão sacrossanto! Tudo tão simples:
- Amar.
Sinto o Universo cabendo dentro da mais ingênua declaração de amor:
- Eu te amo! É ou não é um Universo?

Nem mais consigo comer. Pensar em ti me sustenta.
Estou sólido. Colunas gregas: Dórica, Jônica e Coríntia.
Nem mais consigo dormir. Sonho acordado.
Estou viajando. Sonhos muitos: lúcidos, místicos, canalhas...
Vivo embriagado de ti. Sou boêmio de ti e tu és meu vício supremo.
Enquanto me embriago com tuas formas límpidas
vou decifrando a fórmula de um novo perfume,
o perfume de tua insubstituível presença.

Juntos construímos, em meus novos limites,
vitrais, altares, paramentos, flores, sinos...
...enquanto isso te ofereço preces, dádivas, horas, eternidades...

O amor me torna frágil...
...e frágil me ponho a te amar mais ainda
porque, preciosa, tu te tornas minha mais precisa precisão.

Te amar é o Universo todo
contido na mais pequenina declaração de amor:
- Eu te amo! Nada mais se faz necessário sentir.

Há nisso um templo e um tempo que só nós dois podemos entender.

domingo, 7 de junho de 2009

SOBRETUDO


SOBRETUDO
Oswaldo Antônio Begiato

Quero te amar
Nas palavras que tu vais,
Pacientemente, me revelando,
Mas, sobretudo, na surdez
Com que interrompes minha fala.

Quero te amar
Na presença com a qual
Vais me consumindo,
Mas, sobretudo, na ausência
Que me dilacera.

Quero te amar
No amor que tu me devotas,
Com solicitude,
Mas, sobretudo, na indiferença
Que me vilipendia.

Quero te amar
Nas verdades que,
Maliciosamente, me escondes,
Mas, sobretudo, nas mentiras
Que me deixam nu.

Quero te amar
Nas cheganças inesperadas
Que me aquecem,
Mas, sobretudo, nas esperas
Que me torturam.

Quero te amar
Sempre que quiseres
Que eu te ame,
Mas, sobretudo,
Quando não quiseres.

Quero te amar
Sempre que eu puder
Te amar,
Mas, sobretudo,
Quando eu não puder.

terça-feira, 2 de junho de 2009