terça-feira, 9 de abril de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a terra
dura
e árida
e fêmea,
em uma sexta de fertilidade,
a chuva
fresca
e inesperada
e máscula
se ejaculando abundante
no ventre castigado
pela seca,
pelo abandono
e pela cobiça
remexendo sementes,
fazendo-lhe
de dentro nascer
esperanças novas
e vida pródiga.
 

domingo, 7 de abril de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a música
única de Villa-Lobos,
que se reproduz
em todos os instrumentos
da orquestra
na sexta nobre
do Municipal,
o silêncio do mundo
único
capaz de como ela
e juntos
reinventar almas.
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama o corpo
abandonado,
retraído,
entorpecido pelo frio
em uma sexta de neve
a colcha feita com retalhos
coloridos de lã
sobre a cama amante
ao lado do criado mudo
onde o livro
de Garcia Lorca
espera  ser desvirginado
por um pássaro saído,
saído da tempestade.
 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a folha precisa
e branca
e infinita
e imortal
a letra que se derrama
em uma sexta  de inspiração
em forma de poesias
irrefreáveis,
em forma de significados
desconexos
e coerências dementes.
 
 

quinta-feira, 21 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a flor
debruçada sobre o alpendre
postado ao pé
da Serra do Japi
o bico doce do beija flor,
em uma sexta de natureza,
a lhe beijar a boca
roubando-lhe seivas
de mel,
de segredo
e de eternidade.
 

quarta-feira, 20 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama o vaso solitário
no parapeito da janela
a flor colhida com mãos brancas,
em uma sexta de primavera,
à beira da fonte
onde o arco-íris
costuma revelar
seus segredos
lançar moedas
e fazer pedidos.
 
 

segunda-feira, 18 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a cigarra,
de dentro do mundo
intocável da árvore,
o piano afinado
que toca ao longe,
numa sexta de verão,
músicas de Antônio Carlos
Brasileiro
de Almeida Jobim.
 
 

sábado, 16 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como ama a artista,
que chega em casa
do trabalho,
cansada de esculpir
o mármore
em uma sexta de arte,
o homem  devotado
que a recebe com flores,
janta, velas e vinho
sobre a mesa
esculpida por ele
sob a lua cheia.

quinta-feira, 7 de março de 2013

EU TE AMO

EU TE AMO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eu te amo
como se ama
certas coisas perdidas
que aparecem
numa sexta de sol
tomando o lugar
da tristeza.

sexta-feira, 1 de março de 2013

É CHEGADO MARÇO

É CHEGADO MARÇO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Eis que chega março
com suas águas
pondo fim ao verão
e você se pondo
a urinar na minha alma
para delimitar seu território.
 
Mas saiba que sou um país
sem território, sem bandeira,
sem hino nacional
e sem capital.
 
Sou um país anárquico
onde ninguém manda
e ninguém obedece.
 
Onde as flores nascem
no meio do leite e do mel
e os rios falam a linguagem líquida das águas.
 
Onde as montanhas se erguem
com suas torres e suas rochas
fazendo sombra sobre as árvores
e as árvores produzem frutos frescos
que namoram a madrugada
e por ela se umedecem de auroras.
 
Eis que chega março
e com ele um país sem marco zero.
 
Não venha, pois, urinar em minha alma.
 
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

AUTOCRÍTICA


AUTOCRÍTICA
Oswaldo Antônio Begiato

 
                                         “O mal de quase todos nós
                                     é que preferimos ser arruinados pelo elogio
                                     a ser salvos pela crítica.”
                                                                          Norman Vincent Peale

 

Antes a honesta crítica
ao elogio descabido.

Artistas há
cuja razão
é consumida
pelo fogo da vaidade.

Diante disso
preciso recapitular
as coisas
que ando pensando
a meu respeito.

Besta como sou é bem capaz de me julgar poeta.

 

 

 

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

DE ENDEREÇO NOVO

DE ENDEREÇO NOVO
Oswaldo Antônio Begiato

No fim da rua,
passando a quitanda,
há uma casinha branca.
Portas e janelas azuis.
É ali. Entre sem bater.

No quarto a cama com lençol e colcha
(foi Teresa quem lavou,
passou bordou suas iniciais e estendeu);
faça neles as dobras que só seu corpo sabe fazer
e entre as dobras esconda seu perfume.

Quando eu chegar
(fui logo ali escrever com o canivete,
no tronco de uma mangueira,
nosso nome dentro de um coração)
vou lhe dar uma rosa vermelha,
deitar-me na cama junto a teus pés
e em seguida morrer de amor.

Como sempre faço quando mudo meu endereço
(Você bem sabe disso)!
 
 

sábado, 26 de janeiro de 2013

AMOR ETERNO

AMOR ETERNO
Oswaldo Antônio Begiato

Conversa boa
era a conversa do botequim;
eles me perguntavam sobre nós
enquanto riam de satisfação
porque sabiam que você,
de alguma forma, me fazia feliz
e eu,
de alguma outra forma,
lhe fazia feliz...

... ou quase feliz.

Por que será que os botequins estão acabando?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A UM POETA





A UM POETA
Oswaldo Antônio Begiato

Olhe dentro desta cesta de vime
o tanto de palavras
que eu encontrei brotando por aí.

Prove-as.

Os poetas têm o direito
de experimentar
todas as palavras,
até mesmo as mais venenosas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DISPARO

DISPARO
Oswaldo Antônio Begiato
 
Tu negaste
fogo.
 
No tambor
do meu coração
tenho ainda
duas balas;
uma de prata
outra de mel.
 
Não é possível
que elas
me negarão
também.